Conectividade: como o uso da internet inclui o idoso na sociedade
Natal, RN 24 de mai 2024

Conectividade: como o uso da internet inclui o idoso na sociedade

5 de maio de 2024
7min
Conectividade: como o uso da internet inclui o idoso na sociedade
Cursos do IMD/UFRN promovem inclusão digital de idosos | Créditos: Anna Shvets/Pexels

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Em um mundo cada vez mais globalizado e conectado virtualmente, engane-se quem acredita que o uso da internet é exclusivo para os mais jovens. Na realidade, o número de idosos que já usam, querem ou já aprenderam a usar as novas tecnologias cresce a cada dia. No Rio Grande do Norte, projetos voltados para a inclusão de idosos no mundo digital possibilitam reduzir preconceitos, aumentar a qualidade e conectividade das pessoas idosas.

O Instituto Metrópole Digital (IMD), da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, por exemplo, é um dos pilares na capacitação e no trabalho de inclusão digital de idosos. Com cursos voltados para o tema desde 2016, os pesquisadores, alunos voluntários e professores do Instituto trabalham na capacitação desses aposentados, formando uma nova geração de idosos ligados na internet. 

A professora do IMD, Isabel Nunes, trabalha com a temática desde 2016, quando através de um grupo de alunos surgiu a ideia de oferecer cursos de capacitação para idosos. “Esse projeto de extensão de inclusão digital para pessoa idosa, começou com a sugestão de duas alunas do curso de Bacharelado em Tecnologia da Informação, em 2015, que propuseram numa disciplina de Tecnologia da Informação em Sociedade, como projeto de disciplina, esse projeto de inclusão digital de idosos, né? Então, foi realizado, em 2015, algumas pesquisas, alguns planejamentos, mas tudo isso dentro de uma disciplina. Quando finalizou, a ideia então foi colocar esse projeto realmente em vigência para ele funcionar”, lembrou a professora em entrevista à Agência Saiba Mais.

 Então, desde 2016, o projeto acontece e cada vez mais a gente percebe essa importância. A gente atende, atualmente, 122 idosos por semestre. Isso de um projeto que lá em 2016 começou com uma turma de 16 alunos, e hoje a gente chegou nesse patamar, a partir de toda a experiência que a gente obteve.”, completou. 

Os cursos de computação e smartphones, para pessoas com 60 anos ou mais, acontecem todos os sábados na UFRN e são realizados tanto para o público interno, quanto externo à universidade. O projeto conta com 122 idosos, 48 monitores e professores, que atendem e ajudam até dois idosos por vez. Com um acompanhamento quase individual, a interação entre as gerações é maior, fazendo com que os idosos aprendam e os monitores também. Segundo Nunes, todo mundo sai ganhando. “Então todo mundo ganha nesse projeto, né? Os idosos com a sua inclusão digital, que vira uma inclusão social porque eles conseguem participar da sociedade digitalmente, como naqueles grupos de família e nos aplicativos do dia a dia, como o Uber e o iFood. Então eles estão ali dentro da sociedade, participando e interagindo. E os nossos alunos da UFRN, que são os monitores, técnicos de graduação e pós-graduação, eles aprendem com os idosos o respeito, a paciência, a trabalhar com o outro, a perceber o problema do outro, e isso eles levam para a vida, tanto pessoal quanto profissional”, explica a docente comentando que tem monitores que descobrem o caminho da docência depois de participar do projeto.

Através da conectividade, idoso se sente incluído na sociedade virtual 

“A pessoa idosa consegue, por exemplo, fazer com que aquele momento lá do sábado seja uma interação gigantesca. Eles fazem amizades, eles criam grupos entre eles, eles vão fazer outras atividades. Então, cada vez mais a gente percebe que a inclusão digital é um ponto inicial para o mundo lá fora, que hoje está com o digital em cada cantinho que a gente vai.”, explicou a professora. Para Isabel, o que fez ela e os demais voluntários se apaixonarem pelo projeto é a vontade que a pessoa idosa tem de aprender.  

“A gente percebe que ninguém nunca deve deixar de aprender em nenhuma idade. Então a gente tá sempre aprendendo coisas novas, sempre em busca de novos conhecimentos, em busca de novas amizades e relações. E o projeto faz com que a gente perceba isso. Que a gente não perca a vida. A vida continua e, cada vez mais, a gente quer participar das sociedades, das comunidades, dos grupos de famílias, dos passeios, das festas. Nós somos atuantes em qualquer idade.” finalizou.

Nicolau Frederico é jornalista profissional diplomado, ex-professor da Faculdade de Jornalismo Eloy de Souza (FAJES), antecessora do Departamento de Comunicação da UFRN, e aposentado desde 2022, foi aluno de um dos cursos para o uso de smartphone avançado destinados a idosos do IMD, e hoje atua como monitor do projeto. “Fiquei sabendo do curso destinado à informática para pessoas  idosas e resolvi me inscrever para adquirir novos conhecimentos.”, explicou o jornalista. Após concluir a qualificação, o aposentado logo foi se inscrever no próximo. Ao perceber que ele já possuía um domínio avançado da computação, logo veio o convite para atuar como monitor do projeto.  

“Quando fui me inscrever no segundo semestre de 2023 para dar prosseguimento ao curso de Pensamento Computacional,  observei que precisava antes cursar Introdução ao Computador. Ocorre que eu já domino e pratico. Então não me inscrevi para não ocupar uma vaga de outra pessoa idosa. Foi quando a professora Isabel Nunes me fez um desafio: ser Monitor! Assim, aceitei o desafio e assumi. Neste primeiro semestre de 2024, continuo no PROEIDI (Projeto de Extensão de Inclusão Digital para Pessoa Idosa) como monitor no Curso de Smartphone Básico e como aluno no Pensamento Computacional.“, explicou Frederico.

O aposentado não sentiu dificuldades para compreender e repassar os ensinamentos que adquiriu no curso. O jornalista comenta sobre o papel social da universidade na inclusão digital do idoso. “Entendo que o projeto cumpre a função da responsabilidade social da UFRN. Abrindo e criando novas oportunidades de conhecimento e experiências nas ferramentas digitais para as pessoas idosas. O IMD/UFRN está cada vez mais incluindo, capacitando e valorizando  esse público tão importante da sociedade nos dias atuais.”, finalizou. 

Segundo pesquisa, 61% dos brasileiros com 60 anos ou mais, têm dificuldades ao acesso à internet. 

O estudo “Conectividade Significativa: propostas para medição e o retrato da população no Brasil”, do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), divulgado pela Agência Brasil, mostrou que somente 22% dos brasileiros têm boas condições de conectividade no Brasil, atualmente. No recorte de faixa etária da pesquisa, o levantamento confirmou uma maior vulnerabilidade à exclusão digital dos idosos, com 61% dos brasileiros com 60 anos ou mais apresentando escores mais baixos (até 2 pontos) de conectividade significativa.  

No levantamento, foram estabelecidos diferentes níveis de conectividade significativa, o que resultou numa escala de 0 a 9, na qual o score zero indicava ausência de todas as características aferidas, enquanto o nove denota a presença de todas elas. 

Tratando desse aspecto, o Senado Federal, por meio da Comissão de Direitos Humanos (CDH) aprovou em novembro de 2023, o projeto (PL 3.167/2023) que estabelece a inclusão digital dos idosos como estratégia prioritária da Política Nacional de Educação Digital. O PL 3.167/2023 acrescenta, entre os eixos de inclusão digital previstos na Lei 14.533, de 2023, o desenvolvimento das habilidades digitais das pessoas idosas, com o objetivo de capacitá-las para a criação de conteúdos digitais, a comunicação, o uso seguro de ferramentas tecnológicas e a resolução de problemas, como explicado na Agência Senado. 

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