OPINIÃO

Os capitães de areia da Rússia

A vida é cheia de surpresas, algumas até folclóricas. Em plena época de críticas mundiais ferozes – “cultura do cancelamento” – à imposição de todo o tipo de sanções culturais à Rússia pela invasão da Ucrânia desde fevereiro passado, o Brasil pode dizer que possui uma curiosa relação cultural com a Rússia. A tal ponto que, na atualidade, um dos hits musicais que circula nas redes sociais daquele país é uma música baiana, gravada na década de 1960.

A cultura literária dos autores russos se iniciou no Brasil em fins do século 19, com a introdução das obras de Fiódor Dostoievski (1821-1881) e Liev Tostoi (1828-1910). Mas tal qual ocorreu em todo o mundo ocidental, a cultura artística russa passou a exercer um grande impacto nos estrangeiros devido aos seus temas sociais profundos, dramáticos e intimistas após a Revolução Russa, em 1917.

Por isso é que, na primeira década do século 20, alguns intelectuais brasileiros tiveram o seu primeiro contato com a literatura russa depois de divulgada no país. Este movimento reverberou nas décadas seguintes, porém o seu auge teria sido a década de 1930. A expansão da cultura russa foi tardia em relação ao das culturas centro-europeias porque o país era visto como rural e atrasado, antes de tornar-se “cosmopolita”.

Deve-se ao filósofo e educador Vicente Licínio Cardoso (1889-1931), que foi Presidente da Associação Brasileira de Educação, a importante missão de ter intermediado a literatura russa entre intelectuais e leitores brasileiros. Apesar de realidades socioculturais e políticas totalmente distintas, a literatura é vista desde então como um marco na aproximação destas sociedades, ato concomitante à criação das primeiras associações sindicais, anarquistas e comunistas nos grandes centros urbanos.

Assim, após o falecimento precoce de Vicente Cardoso, aos quarenta e dois anos de idade, já havia se instalado uma cultura literária dos russos entre intelectuais brasileiros. De modo que a literatura russa foi acolhida por uma diversidade de pensadores brasileiros: desde poetas modernistas Augusto Frederico Schmidt (1906-1965) e Mário de Andrade (1893-1945); aos escritores conservadores da geração de Monteiro Lobato (1882-1948) e Gilberto Freyre (1900-1987); até ficcionistas da geração de Zélia Gattai (2016-2008) e Jorge Amado (1912-2001).

Aliás, no mesmo ano em que Jorge Amado publicou o seu livro “Capitães de Areia”, em 1937, a obra foi queimada juntamente a outras obras de autores como José Lins do Rego (1901-1957), Graciliano Ramos (1892-1953) e Rachel de Queirós (1910-2003) devido à conotação “modernista” dessa literatura. Mencione-se que, à época, Jorge Amado era filiado ao então Partido Comunista do Brasil (PCB). Mais tarde, devido às grandes pressões políticas ocorridas no país, Jorge Amado teve o seu mandato cassado e exilou-se na Europa.

O baiano Jorge Amado tornou-se uma celebridade brasileira na Rússia, cuja memória ecoa até os dias atuais. E as referências à sua literatura sempre estão sendo renovadas por inúmeras adaptações desde a década de 1960. Por sinal, o livro “Capitães de Areia” já recebeu várias homenagens russas[2] na literatura, no teatro, no cinema[3] e na música[4].

O romance “Capitães de Areia” narra os dilemas enfrentados por um grupo de crianças e adolescentes, criadas à margem da sociedade baiana, que para sobreviver enfrentam a miséria cometendo pequenos delitos. A vida trágica culminando com a consciência social de alguns personagens inspira-se na literatura soviética, por isso é tão bem recepcionada na Rússia.

Mais recentemente, uma canção gravada na Bahia na década de 1964[5] e remixada[6] em 2018[7], passou a alcançar enorme sucesso nas redes sociais daquele país, cujo refrão refere-se ao livro “Capitães de Areia”:

“Garoto abandonado na Bahia é Capitão de Areia, é Capitão de Areia

Ganha o pão de cada dia
Carregando o tabuleiro
De Água de Meninos para o Largo do Terreiro
Para no fim do dia ter algum dinheiro
Garoto abandonado na Bahia é Capitão de Areia, é Capitão de Areia

A noitinha já cansado
Coitadinho ele adormece
Distraído sobre a areia nada de mau lhe acontece
Ele é protegido da Mamãe Sereia

A noitinha já cansado
Coitadinho ele adormece
Distraído sobre a areia nada de mau lhe acontece
Ele é protegido da Mamãe Sereia”

A versão original é cantada por um menino de 12 anos à época, hoje maestro Agenor Ribeiro. A produção do disco foi de João Melo e a direção de João Araújo, pai do cantor Cazuza (1958-1990). Os arranjos e regência foram do Maestro brasileiro César Guerra Peixe (1914-1993)[8].

Gilmara Benevides é doutora em Direito, Antropóloga, Historiadora. Escreve sobre Direito e Arte.

[2] https://ru.wikipedia.org/wiki/%D0%9A%D0%B0%D0%BF%D0%B8%D1%82%D0%B0%D0%BD%D1%8B_%D0%BF%D0%B5%D1%81%D0%BA%D0%B0

[3] https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/exclusivo-o-livro-russo-que-jorge-amado-traduziu-e-teria-inspirado-capitaes-da-areia/

[4] https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/a-musica-da-bahia-que-a-russia-se-apaixonou-tres-vezes-e-virou-hino-de-duas-geracoes/

[5] https://www.discogs.com/pt_BR/release/13083859-Agenor-Ribeiro-Capitao-de-Areia

[6] https://www.perevod-pesen.ru/afterclapp-capitao-de-areia/

[7] https://www.youtube.com/watch?v=EqxmCpEvVLw

[8] https://www.youtube.com/watch?v=yzR85MyOx2U

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Gilmara Benevides é doutora em Direito, interessada em história e relações culturais internacionais.