OPINIÃO

Beba doses diárias de humanidade

Era daquelas semanas demoradas, que custam a passar pelo peso dos dias, que na verdade nos consomem num ritmo louco, porque apesar de todas as dificuldades em seguir em frente, a necessidade nos empurra avante, sem olhar para trás. Mas no meio disso tudo, ainda é possível testar, observar, vivenciar e compartilhar doses diárias de humanidade, que no fundo devem ser o que nos alimenta e consola..

E agora preciso explicar essa minha mania de testar a humanidade, que na verdade consiste apenas na certeza de que pensar o melhor das pessoas torna a vida mais leve e o peito mais aberto para deixar fluir sentimentos maravilhosos. E nunca é só o peito que fica aberto, porque desde sempre meu apartamento tem essa peculiaridade, quase nunca aceita e compreendida por quem conviveu comigo.

Houve até uma tentativa de dar fim a essa minha mania, quando meu último namorado achou mesmo que fazendo uma cópia da chave sanaria meu pseudo-problema. Uma chave que permanece virgem até hoje, embora tenha lhe jurado que a medida tinha sido útil. Mas é tão mais fácil só sair de casa, sem medo de qualquer invasão.

Já fiz coisas semelhantes, por mero acaso, quando tinha carro. Quantas vezes esqueci a janela aberta, ou a porta mesmo? E sabe do que mais? A humanidade foi aprovada com louvor em todas essas ocasiões, por incrível que pareça!

Mas nem era exatamente disso que eu queria falar hoje, ainda que o princípio seja o mesmo: o da humanidade nossa de cada dia que deixamos de observar, vivenciar, compartilhar e valorizar, para que se torne exemplo e se multiplique como gremlins fofinhos que precisamos criar, amar, cuidar e reproduzir, numa corrente do bem em looping infinito, semelhante a que presenciei esses dias no metrô de Brasília.

Foi numa quinta-feira, 5 de maio, um dia depois da data-limite para tirar o título de eleitor no país, informação que pode não ter tanta importância dita assim isoladamente, mas que merece atenção do leitor para entender o restante da história. A caminho do trabalho, entrei, como de costume, no vagão das bicicletas, onde sempre acho pessoas incríveis, que merecem, cada uma delas, uma crônica à parte.

Mesmo absorvidas pela tela luminosa do celular, que invariavelmente hipnotiza a todos ali, ainda que a internet sequer funcione bem abaixo do solo, uma mulher que estava sentada num banco verde, e portanto não-preferencial para pessoas com deficiência, entendeu que era direito de uma moça com deficiência que entrou no vagão sentar-se, independente disso.

Alguns diriam pra ela esperar a boa vontade das pessoas pseudo-não-deficientes, de cederem o lugar do banco azul, reservado exclusivamente para quem tem de fato o direito. Mas essa construção demanda tempo e consciência, o que vai muito além de políticas públicas efetivas. Ao ceder o lugar, a mulher sabia, portanto, que não estava fazendo nada além de sua obrigação.

No entanto, a moça com deficiência não estava acostumada com isso, e rapidamente avisou ao marido, que estava em pé, para ficar de olho no próximo lugar que vagasse. Não demorou muito para outro rapaz notar a situação e decidir levantar-se, mesmo faltando umas duas paradas para seu destino. O marido da moça com deficiência então avisou à mulher que também estava de pé que ela poderia sentar-se ali.

Ela hesitou um pouco, mas sentou, pois entendeu a dinâmica da gentileza. E como gentileza gera gentileza, num espaço de um minuto, outras foram acontecendo espontaneamente naquele vagão. Outra moça com o namorado resolveu ceder o banco à moça com deficiência e seu marido, que mudaram de lugar para ficarem juntos ali.

Umas três pessoas observavam um adolescente que estava em sono profundo, sentado no chão, perto da porta do metrô, recostado. Entre elas, eu mesma já havia decidido por acordá-lo no ponto final, com a certeza de que a vida do jovem não é fácil, afinal tenho uma em casa, e certamente esse herói do cotidiano deve ter ficado até 23:59 do dia 4 de maio de 2022 convencendo outros jovens a tirarem o título de eleitor e dizer “Fora Bolsonaro”!

E antes que eu tomasse a iniciativa de despertar o rapaz, uma outra moça o fez. E na hora que o despertou, sem querer, deixou cair uma carteira, o que também foi logo apontado por uma das três pessoas que viram a situação e decidiram ajudar. Enquanto o adolescente despertava lentamente, a moça recuperou a carteira, e cada personagem que fez parte disso sequer imagina como fizeram meu dia mais feliz…

Eu poderia ter filmado isso. É verdade. Mas não preciso. Porque agora mesmo, se você olhar em volta por alguns segundos, vai presenciar doses diárias de humanidade. Basta querer, e saber sentir…

Clique para ajudar a Agência Saiba Mais Clique para ajudar a Agência Saiba Mais
Artigo anteriorPróximo artigo