CIDADANIA

Erosão deixa falésias de 2,5 metros de altura na base do Morro do Careca, em Natal

Morro do careca I Foto: cedida pelo professor Rodrigo de Freitas

A erosão do Morro do Careca, em Natal, certamente nosso cartão postal mais conhecido, não é apenas um problema local. Fatores como ocupação irregular do litoral, o derretimento das geleiras e a dilatação térmica da água dos oceanos elevam o nível do mar, cujas ondas vêm retirando volumes de areia da base do Morro, que já resultam na formação de falésias com 2,5 metros de altura.

A constatação, é do professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Rodrigo de Freitas. Ele também aponta que a construção de barragens também ajudou a reduzir a quantidade de areia que era trazida pelos rios, o que hoje resultou num déficit desse tipo de material nas áreas de dunas.

Há uma combinação de fatores que forma um sistema entre oceano, atmosfera e continente. Temos que nos perguntar o porquê de, nos últimos anos, esse problema ter aparecido mais. Estamos tendo uma aceleração do processo erosivo. A partir da década de 1990 temos um aumento da urbanização da orla do Rio Grande do Norte com um boom do turismo. Antes disso, não vemos a mesma intensidade de construções. Outras regiões do planeta enfrentam esse problema há mais tempo. Desde a década de 1970, a Europa emprega técnicas para diminuir esse processo. Esse não é um problema apenas local, também ocorre em Sidney, na Austrália, na Califórnia [Estados Unidos], em Portugal, na Espanha, Irlanda. Em viagem à Índia em 2017, também vi ocorrer por lá”, relata o professor que fez pesquisas recentes nas falésias das praias de Tibau do Sul, como Pipa.

Por causa da formação das falésias, há risco para quem se aproximar do local e a recomendação é de manter distância do Morro devido  a possíveis deslizamentos de areia e outros materiais, como pedras.

Morro do careca I Foto: cedida pelo professor Rodrigo de Freitas
Flagra de banhistas depois da cerca de isolamento do Morro do Careca I Foto: cedida pelo professor Rodrigo de Freitas

O MORRO DO CARECA VAI DESAPARECER?

O Morro não vai desaparecer de um dia para o outro, conta o professor da UFRN, mas a previsão é de que ele seja descaracterizado aos poucos, se nada for feito.

Daqui há dez ou 20 anos ele estará modificado, como já ocorreu. Não vai sumir de repente, em um curto prazo, mas poderemos ter a descaracterização de como ele é hoje”, calcula.

Depois que se tornou uma área de proteção ambiental em 1997, passou a ser proibido subir o Morro do Careca. No local há placas de aviso e fiscalização. Mesmo assim, até hoje algumas pessoas se arriscam e tentam subir a duna, o que acelera o processo de erosão e contribui para diminuir sua altura.

Registro antigo da praia de Ponta Negra I Foto: Jaeci
Registro antigo da Praia de Ponta Negra I Foto: Jaeci

Por que o Morro do careca chama tanta atenção? Porque ele é o principal símbolo de identidade visual de Natal e, também, do RN. Ele faz com que as pessoas venham visitar a cidade. Portanto, há o aspecto econômico e cultural de identidade do povo. Por isso, é preciso atenção agora para pesquisar essa erosão. O Morro tinha um ângulo maior. Se observarmos em fotos antigas, aquela cerca ficava coberta e hoje está mais distante. É preciso que as pessoas respeitem a proibição e não subam mais lá. Acredito que a engorda da praia também deve ajudar a diminuir essa erosão”, avalia o professor Rodrigo de Freitas.

Apesar de ter sido anunciado em 2021, por enquanto, o projeto da engorda da Praia de Ponta Negra ainda não foi licitado e não há previsão para que isso aconteça. Segundo a Prefeitura de Natal, a engorda vai permitir a ampliação da faixa de areia em Ponta Negra, desde as proximidades do Morro do Careca, até a Via Costeira, na altura do Hotel Serhs. Os sedimentos serão retirados de um banco identificado a oito quilômetros mar adentro da praia de Areia Preta, que teria a mesma granulometria da praia de Ponta Negra.

Outro problema em Ponta Negra apontado pelo pesquisador da UFRN é a ocupação desordenada, que resultou em construções muito próximas ao mar. Recentemente, um bar localizado ao lado do Morro do Careca teve que passar por reforma ao ter sua base erodida.

Comércio teve que reformar sua infraestrutura erodida pelo mar I Morro do careca I Foto: cedida pelo professor Rodrigo de Freitas
Comércio na Praia de Ponta Negra teve que reformar sua infraestrutura erodida pelo mar I Foto: cedida pelo professor Rodrigo de Freitas

A VIDA É CURTA

O professor do Departamento de Geografia da UFRN esclarece ainda que, a despeito da disputa de narrativas sobre a existência ou não do aquecimento global e seus efeitos, eles podem ser constatados ao longo da história. Porém, os períodos cíclicos se repetem num espaço de tempo muito maior do que o da existência de um ser humano e seria a interpretação em torno dessa questão que daria margem às argumentações contrárias e favoráveis ao conceito de que a interferência da humanidade na Terra estaria acelerando esses ciclos.

Esses ciclos sempre existiram e há uma taxa de recorrência a cada 120 mil anos. Há glaciações em escalas geológicas. A mais previsível se repete a cada dez mil anos e nossa vida é muito curta se compararmos com os processos naturais. A discussão é se estamos numa curva ascendente ou se estamos num pico. É preciso entender essa escala temporal para abordar o assunto. Ambos trazem argumentos corretos, mas só servem pra gerar dúvida na cabeça da população. As evidências mostram que influências humanas estão produzindo sim uma leve modificação nas condições climáticas do planeta, que encurtam o sistema e isso vai reverberar na sociedade. Qualquer alteração, por menor que seja, vai provocar consequências. No mar, por exemplo, a elevação é de milímetros ou centrímetros, mas com grandes impactos”, alerta.

Dados do relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e analisados pela Climate Central, uma Ong especializada em ciência do clima, aponta que as cidades de Recife, Fortaleza, São Luís, Salvador, Santos e Porto Alegre são as mais ameaçadas pela alta do nível do mar. De acordo com Rodrigo de Freitas, a previsão é que ocorra uma elevação do nível do mar em 10 centímetros até 2030 e de quase um metro, até 2100.

Praia de Ponta Negra em 2022 I Foto: Mirella Lopes
Praia de Ponta Negra em 2022 I Foto: Mirella Lopes
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