Mais Médicos: de “espiões de Castro” a gratidão, cubanos no RN torcem por volta do programa com Lula: “sentia a dor das pessoas”
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Mais Médicos: de “espiões de Castro” a gratidão, cubanos no RN torcem por volta do programa com Lula: “sentia a dor das pessoas”

5 de fevereiro de 2023
14min
Mais Médicos: de “espiões de Castro” a gratidão, cubanos no RN torcem por volta do programa com Lula: “sentia a dor das pessoas”

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Desde que o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou a intenção de retomar com o modelo do Mais Médicos, estrangeiros e profissionais de gestão de saúde no Brasil vêem com bons olhos a volta do programa que diminuiu os “vazios assistenciais”. Essas áreas, normalmente em cidades pequenas e do interior do país, viviam uma falta crônica de médicos, carência diminuída a partir da implantação do programa em 2013, que levou estrangeiros para áreas com necessidade de médicos. A face mais visível do programa foram os cubanos.

“O fundamental nessa pauta é para o povo brasileiro que tanto precisa. Tem médicos sim, mas não tem médicos suficientes para o povo. O povo reclama muito. Para pegar o encaminhamento, para ir pegar uma requisição para exame, o povo tem que ir de madrugada. Às vezes o médico vai duas ou três vezes por semana, então hoje o que mais tem que ver é a necessidade do povo brasileiro”, reitera Yoanis Infante Rodriguez. O cubano de Bayamo, na província de Granma, integrou uma das primeiras levas de estrangeiros que vieram para o Brasil. 

Rodriguez, de 41 anos, chegou a Mossoró em 2014 e ficou no programa até 2018, quando Jair Bolsonaro (PL) foi eleito presidente prometendo acabar com a iniciativa, e Cuba anunciou o fim da cooperação. Como se casou na cidade, o médico da família permaneceu no Brasil, mesmo sem emprego. Em 2020, por meio de uma medida provisória, retornou para mais dois anos no programa, mas o contrato já se encerrou. Até hoje ele não conseguiu aplicar a Revalida, e trabalha como atendente de uma farmácia.

“Mossoró me acolheu como mais um filho da terra brasileira. A medicina que a gente faz é uma medicina preventiva, da família. A gente tem que diagnosticar ou prever aquelas doenças e talvez tenha que fazer um encaminhamento para alguma especialista, caso a gente não resolva. Mas a medicina que a gente leva é a base. É o que a população precisa. O médico da família tem que saber como está a família fisicamente, mentalmente, como está o vínculo com a escola, com o trabalho. O médico da família é aquele que vai abarcar o núcleo familiar em um todo, na base da família”, descreve Rodriguez, sobre seu trabalho.

Yoanis Infante é cubano e mora em Mossoró | Foto: cedida

Para ele, a atuação no programa representou mais um vínculo com a cidade do Oeste potiguar, e diz que a população se sentiu grata com seu trabalho. 

“Somente com um esteto [estetoscópio] e um exame físico bem feito, a gente tem mais de 60% de ter um diagnóstico nessa paciente, e a gente trabalhou muito com esse povo, então esse povo é muito grato esperando ainda a volta do Mais Médicos”, aponta.

“O povo brasileiro precisa de médico que ajude, que entenda ele, que examine ele. Então eu penso que é uma grande oportunidade tanto para o povo brasileiro como pra gente voltar a atender aquele povo que acolheu a gente com tanto amor e tanto carinho”, relata o cubano.

A opinião é compartilhada por Maria Caridad Pestana Morales, de 56 anos, que chegou ao Brasil em 2013 e atuou em São João do Sabugi. 

“Foi uma experiência muito linda. Eu cheguei lá e não tinha médico em São João do Sabugi, eu era a única que tinha. Os moradores ficaram muito agradecidos com o prefeito que tinha procurado o Mais Médicos. Eram consultas lotadas. Eu terminava às 8 horas da noite. Todo povo queria se consultar com a médica cubana porque eu olhava para as pessoas, porque sentia a dor das pessoas como minha própria. E na zona rural eu chegava a fazer visitas e todo mundo queria que eu fizesse uma refeição na casa deles. Ficavam intrigados porque não dava para comer alguma coisa, um lanche, em todas as casas”, se diverte a profissional, ao relembrar o período.

Morales foi outra que saiu do programa em 2018. Fez o Revalida no Paraná e começou a trabalhar em Curitiba. Depois, partiu para o Médicos pelo Brasil, iniciativa do governo Bolsonaro para substituir o programa da gestão Dilma Rousseff (PT), e hoje mora em São Paulo. Ainda assim, relata o carinho com o interior do Rio Grande do Norte.

“Hoje eles me chamam, me ligam: ‘doutora, volte pra cá’. O prefeito me suplica. Não arrumei vaga no Rio Grande do Norte, mas eles dizem que não me esquece”, afirma.

Nas andanças, diz Caridad, diz que já ouviu até convites para ser candidata à prefeita, de brincadeira. 

“Foi uma relação médico-paciente muito forte. Ainda é muito forte”, aponta.

Vazios assistenciais

Segundo dados da Secretaria de Saúde Pública do Rio Grande do Norte (Sesap-RN), o Mais Médicos tinha 114 municípios atendidos no Estado em dezembro de 2014, com todas as 310 vagas ocupadas. Destes, 43 estavam dentro do Programa de Valorização do Profissional de Atenção Básica (PROVAB), uma espécie de “plano piloto” com brasileiros que posteriormente migraram para o Mais Médicos, 24 eram estrangeiros de países como Ucrânia, Argentina, Venezuela, Espanha e Uruguai, além de brasileiros com diploma no exterior, e 161 eram cubanos que tinham uma cooperação própria por meio da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas).

Em dezembro de 2022, já com as mudanças efetuadas pelo governo Bolsonaro e com o Médicos pelo Brasil em funcionamento, o cenário era outro. Os municípios atendidos caíram para 94, e do total de 313 vagas, apenas 232 estavam ocupadas. O número de brasileiros aumentou (219) e intercambistas eram somente 24, originários de Cuba, Paraguai e Peru.

“Até hoje a gente ainda não tem vagas ocupadas pelos médicos que saíram naquela época”, confirma Uiacy Alencar, hoje referência técnica da saúde indígena na Subcoordenadoria de Atenção Primária à Saúde (Saps) da Sesap que em 2013 era coordenadora do PROVAB e acompanhou o Mais Médicos de perto.

“A implantação do programa foi uma coisa muito bonita. O programa não foi uma imposição da gestão na época, ele foi uma solicitação dos prefeitos de todos os municípios do Brasil, numa marcha a Brasília, dizendo: ‘Presidenta [Dilma], nós queremos médicos nos nossos municípios’, porque os vazios eram enormes”, relata.

Rodando o Estado no trabalho da Secretaria, Alencar diz que ouve de perto os relatos das comunidades sobre as diferenças entre o Mais Médicos de Dilma e o Médicos pelo Brasil de Bolsonaro.

“Hoje, quando a gente chega para fazer apoio aos municípios e quando a gente vai direto à unidade, o pessoal fala ‘ah, hoje tá muito diferente’. Hoje temos uma diferença grande, porque antigamente os médicos faziam visita, tinham contato maior com a população, e hoje nós temos profissionais do Mais Médicos que estão sem supervisão”, afirma.

Fora do muro das universidades

Segundo o ex-secretário-adjunto da Sesap, Petrônio Spinelli, que na época da implantação estava trabalhando na UFRN, o programa nasceu para ter de fato um pé nas universidades. De acordo com ele, haviam três componentes.

“Primeiro, o provimento dos médicos emergenciais, que aí tem a ver com os cubanos; o segundo é aumentar as vagas nos cursos de medicina, e o terceiro é direcionar a formação àquelas especialidades necessárias para o SUS, e não simplesmente a critério das universidades”, aponta.

Andrea Taborda, tutora do Mais Médicos pela Ufersa, diz que o curso da universidade foi um dos que abriu graças ao programa, e que houve um avanço na qualidade médica do interior do RN.

“Enquanto a lei estava sendo cumprida e o programa de provimento correndo junto com a lei, houve uma melhoria da qualidade dos serviços de saúde, prestação de acesso, principalmente. Uma população muitas vezes que não tinha acesso nenhum a atendimento médicos, com unidades muito sucateadas. E como tinha uma intermediação da instituição de ensino, então eram gestores profissionais, os profissionais bolsistas, os profissionais da equipe e a instituição de ensino que iam em território, avaliavam, faziam uma primeira visita para ver infraestrutura, faziam levantamento das necessidades formativas, encontros periódicos pra gente discutir formação”, descreve.

Professora Andrea Taborda, vice-coordenadora de Medicina da Ufersa / Foto Eduardo Mendonça

Com as mudanças ao longo dos anos, explica Taborda, houve uma "desconstrução" na relação entre Mais Médicos e universidades.

“O programa começou a se tornar realmente mais só provimento, a pandemia também dificultou os encontros e as visitas presenciais e o governo não retornou na gestão passada essas visitas em território, prejudicando bastante o funcionamento”.

Já o Médicos pelo Brasil, de acordo com ela, surgiu com uma proposta diferente. 

“Era de pôr médicos com uma carreira CLT, não carreira de Estado, e os médicos bolsistas sairiam dos seus territórios para ir na unidade ou onde esse médico tutor atende, só que esse médico tutor não tem formação em educação, não há supervisão numa instituição de ensino, o médico bolsista tem que sair do território dele e isso prejudica os indicadores e o atendimento na própria unidade que ele tá, e descola da necessidade formativa”, diz Andrea, também vice-coordenadora do curso de Medicina da Ufersa.

Tammy Rodrigues, supervisora do Mais Médicos na mesma universidade, explica os avanços no curso a partir da iniciativa de trazer estrangeiros.

“O grande salto foi o incentivo à interiorização dos cursos de medicina. Aqui no Estado, tivemos o curso multicampi da UFRN (Caicó/Currais/Santa Cruz) e posteriormente o nosso da Ufersa. Sabemos que o curso em si não fixa os profissionais de saúde, mas já temos alunos da primeira turma da Ufersa que prestaram a residência médica em Medicina de Família e Comunidade daqui de Mossoró”, diz.

De acordo com Tammy, os vazios voltaram nos últimos períodos. 

“Quanto ao ganho nestes 11 anos, foi visível a redução dos vazios existenciais durante o auge do programa, que voltou a existir após a redução dos editais para novos ciclos e os procedimentos de implementação do Médicos pelo Brasil”, aponta.

“Espiões de Castro”

Foto do médico Juan Delgado viralizou ao ser vaiado por em chegada a Fortaleza (CE) - Jarbas Oliveira - 26.ago.2013/Folhapress

Ainda que se vejam gratos com o programa, Yoanis Infante e Caridad Pestana presenciaram ataques e xenofobia com a vinda dos cubanos ao Brasil. Uma das principais vozes contrárias foi o Conselho Federal de Medicina (CFM)

“Foi bem difícil, porque a classe médica brasileira, o Conselho Federal de Medicina, não aceitavam que estivéssemos aqui porque não tínhamos Revalida, porque não sabiam se éramos médicos e não acreditavam nos nossos conhecimentos. Falavam que a população brasileira estava correndo risco por serem tratados por médicos cubanos, que eram espiões do governo de Castro aqui no Brasil. Muitos da raça negra sofreram racismo. Foi bem difícil no início”, relata Caridad.

O Revalida é o processo de revalidação dos diplomas de médicos que se formaram no exterior e querem atuar no país. No Mais Médicos, a revalidação do diploma é dispensada para médicos intercambistas, independentemente da nacionalidade, nos três primeiros anos de participação no programa.

Segundo Yoanis, houve embates iniciais entre ele e colegas brasileiros, mas atualmente o cubano diz que já tem uma boa relação com os profissionais de Mossoró.

“Hoje tenho muitos amigos médicos brasileiros, mas infelizmente quando a gente chegou aqui aquela classe, elite, falava até mesmo para as enfermeiras que a gente não era nem médico. Inclusive eu dizia ‘vocês estão colocando em brincadeira o governo de vocês’, porque a gente passou por um processo. A gente passou pela Receita Federal. A gente passou pela Polícia Federal, por pessoas competentes, com documentos legalizados, então como você vai desacreditar um trabalho que fez aquela potência máxima de vocês, o Ministério da Saúde?”, questionava.

“Tivemos esse preconceito de que não éramos médicos, de que éramos infiltrados que viemos fazer política. Eu nem de política sabia. Então diziam que éramos técnicos de enfermagem, que éramos qualquer coisa, menos médicos. E como quase todo mundo sabe, uma das melhores medicinas do mundo é reconhecida como a medicina de Cuba. Então eram só falácias que diziam para que o povo não se sentisse agradado com a gente, mas infelizmente para eles o povo acolheu a gente como os melhores médicos do mundo. Até hoje eu tenho paciente que me chama, me agradece pelo que eu fiz por eles, então a gente demonstrou para eles que éramos médicos de verdade e que poderíamos prevenir, tratar pacientes e doenças que muitos pacientes sofriam há muitos anos e nunca tinham tido um tratamento expressivo”, relata Infantes.

Caridad espera que a proposta do governo federal de retornar com o Mais Médicos em versão reformulada entre em prática.

“Seria ótimo, porque o programa Mais Médicos teve uma cobertura muito ampla para todos os cidadãos. Teve a assistência médica, era um programa fortalecido. Tinha vezes que não tinha recursos materiais, mas o recurso humano nunca faltou. Depois que acabou a cooperação com Cuba, os pacientes brasileiros ficaram muito desassistidos até hoje, porque nesse novo programa de Médicos pelo Brasil, os médicos não vão para aqueles lugares que os médicos cubanos preencheram e ainda está vazio lá”, comenta.

“Eles [brasileiros] não vão para esses lugares porque não tem condições, porque é muito longe, porque são filhos de mamãe e papai e não querem ir tão longe. A volta do Mais Médicos fortalecido como o de 2013 seria muito bom para o governo de Lula garantir isso sim, e a população está esperando. Eu hoje sou do Médicos pelo Brasil, e na minha população o povo me pergunta: ‘Doutora, você é cubana? Voltaram os cubanos?’. Eu digo: ‘vai voltar. A gente está escutando na televisão que Lula vai voltar com o Mais Médicos’”, torce.

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