Somos todos IA?
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Somos todos IA?

10 de fevereiro de 2023
4min
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Em que esquina se perdeu a humanidade? Começo essa crônica com esse questionamento na vã tentativa de desafiar a modernidade incorporada à velocidade imbecil das nossas curtas vidas, e que tem sido exaltada como uma enorme facilitadora do nosso caótico e insensível futuro, já que capaz de substituir até mesmo a habilidade da livre manifestação do pensamento, hoje baseada tão somente em algoritmos que constroem um preconceito do que você nem imagina ser.

Porque apesar de pouco conhecer sobre a tão alardeada nova Inteligência Artificial, já ouvi falar que a pobre senhora, ainda que sábia, apresenta falhas estruturantes na sua capacidade de raciocínio. No entanto, se a IA fosse então uma pessoa real, muito além de testar sua habilidade de raciocínio, gostaria de testar sua humanidade.

Como testo, frequentemente, a humanidade de todos com quem convivo (ou não), e até a minha vez em quando, pra jamais me esquecer de que, quanto mais humanos somos, mais falhas podemos reconhecer e, a partir daí, temos a incrível oportunidade de nos reconstruirmos ainda melhores.

Mas para testar a humanidade de uma IA, pensei que lançar uma pergunta filosófica dessas, que a fizesse pensar sobre a própria existência, ou mesmo sobre a existência de seus ilustres e inventivos criadores, teria o poder de, no final das contas, nos ajudar a responder a um dos maiores dilemas da atualidade: somos todos, no fundo, meras Inteligências Artificiais?

Explico: é que tanto sentimento se perdeu no meio dos tais algoritmos, que automatizamos absolutamente todas as relações, sejam de trabalho ou pessoais, a um ponto tão profundo, até fugirmos de nós mesmos, até nos afastarmos das nossas essências, e de tudo que nos tornam únicos.

Tudo isso com o vil objetivo de matar o que nos diferencia de uma máquina, nos transformando, talvez, finalmente, no que na verdade sempre fomos: inteligências artificiais, sem coração, sem empatia, sem capacidade de raciocínio, mas prontos para seguirmos exatamente ao que esperam de nós, programados diariamente para atender, no menor tempo possível, a um comando específico que cabe em até duas linhas, cujo produto jamais terá como surpreender ou emocionar.

Porque afinal esses arroubos (de emoções e surpresas) são coisa do passado, altamente démodé, já que não condizem com as necessidades práticas de nossas rotinas avassaladoras, que engolem vidas próprias por completo e não perdoam entregas fora do prazo, nem mesmo por doença grave ou morte. Somos números, peças de um sistema que precisa funcionar, e que, se apresentam qualquer defeito, são facilmente cortadas, canceladas, aniquiladas, ou simplesmente substituídas, sem dó nem piedade.

E é por essas e outras demonstrações da triste extinção da humanidade e da sensibilidade nas nossas relações, que confesso: essa tese de que “somos todos IA?” me intriga ainda mais quando analiso a imensa felicidade vivenciada pelas pessoas reais que ainda gozam da incrível habilidade de uma burrice natural (BN), daquelas criaturas autênticas que nunca sequer consultaram o google alguma vez na vida.

E é a essa burrice natural, muito mais interessante e instigante do que qualquer inteligência artificial, que presto agora reverência, enquanto admiro seus últimos e maravilhosos dias de vida. Observo que, no fundo, seguem inspiradas pelo acaso, pela possibilidade das descobertas, pela humildade de quem sabe o tanto que ainda precisa aprender, com a insuperável curiosidade dos ignorantes, que nenhuma IA jamais terá… Daquelas alegrias inesperadas que espero perseguir, sem nem saber o porquê, pelo resto dos dias da minha vida real, natural, e sempre contrária aos algoritmos.

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