Enfermeira com autismo passa em mestrado na Uern com cota para deficientes e tem matrícula negada
Natal, RN 24 de abr 2024

Enfermeira com autismo passa em mestrado na Uern com cota para deficientes e tem matrícula negada

30 de março de 2023
5min
Enfermeira com autismo passa em mestrado na Uern com cota para deficientes e tem matrícula negada

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A enfermeira Sâmara Alves, 35, foi aprovada no mestrado do Programa de Pós-Graduação em Saúde e Sociedade da Uern nas vagas destinadas a pessoas com deficiência. Autista, ela apresentou os laudos que comprovam sua condição mas teve a matrícula indeferida. 

O resultado do processo saiu em 16 de março e Sâmara chegou a comemorar nas redes sociais e com a família. Eram 30 vagas para a pós-graduação, sendo duas com cota para deficiência. 

“Logicamente eu teria bem mais chances na ampla concorrência, mas eu fiz questão de me inscrever como pessoa com deficiência tendo em vista que o meu projeto de pesquisa é sobre o autismo. Eu quero verificar a aplicabilidade de uma ferramenta de triagem para detecção precoce do autismo na atenção básica”, explica Alves.

A enfermeira questiona o método de como a avaliação foi feita. Sâmara diz que para ter a inscrição homologada também precisou apresentar um laudo, que foi aceito. Ainda passou na prova de inglês e depois na segunda etapa, com a arguição do projeto, em que tirou a nota 9,8.

“Ou seja, eles aceitaram o meu lado duas vezes, para inscrição e homologação do resultado final”, descreve.

Enfermeira Sâmara Alves mora em Caraúbas e foi aprovada em mestrado na Uern | Foto: reprodução

O passo seguinte foi ser avaliada pela Junta Multiprofissional da Uern, em que apresentou laudos de quatro psiquiatras diferentes, de uma psicóloga e de um fonoaudiólogo atestando sua presença dentro do espectro autista.

“Eles nem olharam meus laudos. Só se ateram ao laudo que eu já havia usado e que já havia sido aceito. Fizeram poucas perguntas para mim, o momento foi extremamente rápido com duração entre 5 a 10 minutos. Fizeram perguntas ‘como fale um pouco da sua deficiência’, ‘você trabalha?’, ‘você tem filhos?’, e aí quando eu disse que trabalhava um dos membros da banca disse assim: ‘ah, ela trabalha’. Ali eu percebi que teria problemas”, relembra Alves.

Para Sâmara, que descobriu o autismo tardiamente, a deficiência traz diferentes transtornos para sua vida, pergunta também feita por uma das integrantes da banca.

“Eu descorri sobre como a minha deficiência me impede de fazer coisas diárias que são comuns para todas as pessoas, mas que para mim são difíceis, como por exemplo sair sozinha, frequentar ambientes sociais, manter vínculos de amizade com as pessoas. Eu não tenho vínculos de amizade, não cultivo amizades. Eu tenho colegas, mas cultivar amizades, ir na casa do amigo e o amigo ir na sua casa isso eu não consigo”, diz a enfermeira.

“Não tenho vida social, só saio de casa para trabalhar e para estudar. Sinto vontade de ir à igreja mas não consigo ir devido a minha condição, não consigo dirigir, não consigo fazer uma coisa simples como ir num supermercado sozinha. Eu não consigo sair fora da minha rotina rígida”, continua.

O que diz a universidade

A estudante entrou com um recurso que ainda deve ser avaliado pela universidade. Em nota, a Uern afirmou que a Junta “possui caráter biopsicossocial e tem como princípios o respeito à legislação, aos editais e aos demais documentos normativos pertinentes; e a máxima observância da deficiência, abrangendo os aspectos biopsicossociais.”

A instituição ainda disse que a Junta é composta por uma equipe multiprofissional e interdisciplinar, conforme consta na Legislação Brasileira sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência em vigor, bem como o que consta no Regimento Interno da Junta Multiprofissional da Fuern - Resolução Nº 50/2022 – CD.

“A avaliação biopsicossocial considera os impedimentos nas funções e nas estruturas do corpo; os fatores socioambientais, psicológicos e pessoais; a limitação no desempenho de atividades e a restrição de participação. Acresce que a Junta Multiprofissional tem como finalidade periciar pessoas com deficiência para fins de avaliação terminativa da condição de deficiência declarada, tendo em vista garantir a qualidade e a isonomia da avaliação biopsicossocial”, diz a nota.

De acordo com a professora Ana Lúcia Aguiar, diretora de Ações Inclusivas da Uern, a instituição trabalha seguindo as legislações nacionais e internacionais de direitos humanos e inclusão. Na junta, afirma a docente, participam diferentes profissionais que avaliam os aspectos biológicos, psicológicos e sociais. 

"Sobre o caso específico, nós estamos preservando o que diz a Lei Geral de Proteção de Dados, porque são dados sensíveis. Estamos com o recurso em mãos e vamos tramitar dentro desses procedimentos legais", afirmou.

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