Samira: ser jornalista é desafiar cotidianamente uma conjuntura de desvalorização profissional aliada às violências baseadas em gênero
Natal, RN 5 de mar 2024

Samira: ser jornalista é desafiar cotidianamente uma conjuntura de desvalorização profissional aliada às violências baseadas em gênero

12 de março de 2023
8min
Samira: ser jornalista é desafiar cotidianamente uma conjuntura de desvalorização profissional aliada às violências baseadas em gênero

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As mulheres jornalistas são maioria nas redações brasileiras (57,8%), aponta estudo “Perfil do Jornalista Brasileiro 2021”, realizado pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Mas ainda são muitos os desafios para superar a falta de representatividade.

“Os problemas a serem enfrentados começam na representação, na ocupação dos espaços decisórios dos sindicatos, nos cargos de chefia nos locais de trabalho”, avalia a presidenta da Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj), Samira de Castro.

Pesquisa feita pelo Reuters Institute em 12 países demonstra que existe um abismo de gênero no comando das redações e o Brasil está na lanterna - apenas 7% dos principais editores são mulheres. Somente 22% dos 180 cargos superiores, em 240 meios de comunicação social, são ocupados por mulheres. No Brasil, apenas 13% dos cargos de chefia são ocupados por mulheres jornalistas em meios online e offline.

Aliado às dificuldades para superar a desigualdade de gênero em cargos de chefia, as mulheres jornalistas sofrem violências diversas no exercício da profissão. A Organização das Nações Unidas (ONU) traz um dado alarmante: metade dos jornalistas do mundo já foi atacada por ser mulher.

No Brasil, “a ascensão do conservadorismo neofascista e ultraliberal mostrou que somos alvo preferencial exatamente pelo nosso trabalho”, alerta a presidenta da Fenaj.

Em entrevista à Agência Saiba Mais, Samira de Castro falou como é ser mulher e jornalista no Brasil, sobre representação, enfrentamento ao machismo e elencou os desafios a serem superados.

Confira a entrevista.

Saiba Mais - O que é ser mulher e jornalista no Brasil?

Samira de Castro - Ser mulher no Brasil é conviver com o machismo estrutural e a misoginia naturalizados por camadas de opressões de gênero, raça, classe social e orientação sexual.

Nesse contexto, ser jornalista é desafiar cotidianamente uma conjuntura de desvalorização profissional aliada às violências baseadas em gênero.

Saiba Mais - Conta um pouco da sua experiência profissional.

Samira de Castro - Entrei em redação em 1997, com 21 anos, direto na Editoria de Economia, então a mais importante do jornal no qual ainda tenho vínculo, o Diário do Nordeste, de Fortaleza/CE. Nos primeiros anos, o desafio foi me impor como profissional numa área em que homens, brancos, cisheteronormativos, com mais de 40 anos e cristãos são as principais fontes. Minha condição de jovem e mulher era questionada o tempo todo por eles e por boa parte dos colegas de editoria, inclusive mulheres.

Vencida essa fase, o desafio seguinte foi conciliar a vida pessoal com a carreira. Tive dois filhos enquanto atuava na chefia (fui subeditora de Economia) e viaja a trabalho (realizando grandes reportagens). Na época da segunda gravidez, a chefia chegou a mencionar que eu não iria crescer na carreira pela questão da maternidade.

Em 2010, entrei para o movimento sindical dos jornalistas e também percebi preconceito, sobretudo nas mesas de negociação com os empresários, que costumavam se dirigir apenas aos assessores jurídico e econômico, como se eu não fosse a presidenta da entidade de classe. Foi um momento muito difícil - e confesso que até então não superado por mim - ter sido afastada unilateralmente da redação por prática antissindical.

Eu estava na Editoria de Reportagem Especial quando o editor-chefe me mandou arrumar as coisas e "só voltar quando acabasse a brincadeira de sindicato". Essa brincadeira me levou à presidência da nossa Federação.

Saiba Mais - Quais os principais problemas enfrentados e desafios a serem superados pelas mulheres jornalistas?

Samira de Castro - A categoria dos jornalistas no Brasil continua sendo majoritariamente feminina (57,8%), branca (67,8%), solteira (49,4%), sem filhos (61,6%) e da faixa etária entre 31 e 40 anos (30,3%). Essas características sociodemográficas, apontadas pela pesquisa Perfil do Jornalista Brasileiro 2021, mostram que ainda necessitamos avançar - e muito - na construção de políticas voltadas para estas trabalhadoras em específico, como por exemplo, cláusulas trabalhistas em acordos ou convenções coletivas que busquem vedar a diferença salarial em função do gênero (prática inconstitucional, inclusive), dar mais garantias e proteção às jornalistas mães, sobretudo às mães atípicas, prevenir e combater os assédios moral e sexual no trabalho e acabar com toda e qualquer discriminação baseada em gênero. Estamos muito longe disso. E falo com a experiência de quem já milita no movimento sindical há mais de uma década. Claro que o jornalismo e o sindicalismo são extratos de uma sociedade desigual no seu todo. Mas como pensar em uma atuação focada em mulheres se não temos lideranças femininas ocupando esse espaço de representação? A FENAJ é composta por 31 Sindicatos de Jornalistas filiados. Destes, apenas cinco são presididos por mulheres. E a própria Federação, com seus 76 anos, está na terceira presidenta.

Então, os problemas a serem enfrentados começam na representação, na ocupação dos espaços decisórios dos sindicatos, nos cargos de chefia nos locais de trabalho.

Saiba Mais - No Brasil, ser mulher e jornalista é um risco?

Samira de Castro - No Brasil, ser mulher já é um risco. Vivemos em um país em que se odeia mulher. Basta ver as estatísticas de um feminicídio a cada seis horas, segundo o Atlas da Violência de 2022. São dois estupros a cada minuto. Imagine você atuar numa profissão que tem visibilidade no espaço público, que garante voz à mulher?

E a ascensão do conservadorismo neofascista e ultraliberal no Brasil mostrou que somos alvo preferencial exatamente pelo nosso trabalho.

Nos últimos quatro anos, ao mesmo tempo em que os apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro promoviam ataques coordenados a mulheres jornalistas nas redes sociais - com o aval do então mandatário e dos seus filhos políticos -, as empresas endureciam negociações salariais e tentavam retirar direitos conquistados pelos sindicatos com muita luta, como por exemplo o auxílio creche integral para jornalistas.

Enquanto Damares Alves fazia discurso de educação domiciliar (indo contra a destinação de mais verbas públicas para creches, atingindo o direito de mulheres que são mães conseguirem trabalhar), nós mulheres jornalistas nunca conseguimos aprovar a licença-maternidade de 180 dias! Ou seja, o ultraliberalismo encontra no conservadorismo a justificativa moral e religiosa para inviabilizar a mulher nos espaços de poder, entre estes espaços está o próprio Jornalismo. E voltando ao tema da violência, é preciso dizer que ela saiu das redes sociais e passou a existir mais fortemente no dia a dia de trabalho, sobretudo de mulheres que cobrem política, esporte, economia e segurança pública.

Saiba Mais - Que olhar para o feminino tem sido dirigido por mulheres no exercício da profissão?

Samira de Castro - Na mídia impressa brasileira, as mulheres são fontes em no máximo 31% das notícias, segundo o Global Media Monitoring Project (GMMP - 2020), maior e mais longo estudo longitudinal sobre gênero na mídia mundial.

Essa defasagem de mulheres como fontes de notícias reflete a nossa baixa presença em cargos de chefia nas redações tradicionais.

Porém, de maneira empírica, podemos afirmar que as mulheres conseguem cobrir algumas pautas com uma visão mais crítica que os homens, questionando as fontes por vieses que se contrapõem ao status quo. Segundo a Federação Internacional dos Jornalistas (FIJ), mulheres que atuam em coberturas de guerras e zonas de conflitos contribuem para mudar a narrativa do conflito, desafiando os estereótipos de gênero e reportando de forma diferente.

Saiba Mais - Como as mulheres estão representadas nas redações?

Samira de Castro - Sabe o ditado “casa de ferreiro, espeto de pau”? A gente cobra tanto às empresas e às administrações públicas que promovam a equidade de gênero, mas no nosso chão de fábrica, a situação é crítica. Segundo o relatório anual do Reuters Institute que analisa a desigualdade de gênero na liderança das redações, apenas 22% dos 180 cargos superiores, em 240 meios de comunicação social, são ocupados por mulheres, apesar do fato de, em média, as mulheres representarem 40% de todos os jornalistas em atividade nos 12 mercados. No Brasil, apenas 13% dos cargos de chefia são ocupados por mulheres jornalistas em meios online e offline. O país segue nesse ranking empatado com o Quênia (13%) e abaixo da Coreia do Sul (14%), por exemplo. Só o México teve posição pior, com apenas 5% dos cargos mais elevados nas mãos de mulheres jornalistas.

Saiba Mais - Como enfrentar o machismo no exercício da profissão jornalística?

Samira de Castro - Para enfrentar o machismo e todas as formas de opressão, necessitamos estar organizadas, porque esse enfrentamento não é tarefa individual, e sim coletiva. Mas é igualmente importante não só organizar mais mulheres.

Nossas entidades de classe precisam mergulhar na luta feminista como parte da luta anticapitalista.

O feminismo segue questionando o privilégio dos homens sobre as mulheres, das mulheres ricas sobre as pobres, das brancas sobre as negras, das heterossexuais sobre as homossexuais, das cisgênero sobre as transgênero, das idosas sobre as jovens (e vice-versa).

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