Carlão, Linda & Cia
Natal, RN 13 de abr 2024

Carlão, Linda & Cia

16 de maio de 2023
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O dia 13 de maio de 2023 foi um dia para ficar na História da literatura norte-rio-grandense. Além de data reconhecidamente importante (com fatos emblemáticos como a Lei Áurea e o nascimento do escritor Lima Barreto, por exemplo), esse dia também ficou marcado por dois grandes acontecimentos: os 60 anos do sebista e editor Abimael Silva e o lançamento do livro “Cartas Obscenas de Linda Baptista”, número 611 da coleção João Nicodemos de Lima do Sebo Vermelho.

O livro reúne as cartas assinadas pelo pseudônimo adotado pelo jornalista Carlos de Souza e publicadas no jornal Tribuna do Norte durante alguns poucos meses no ano de 1987. De simples “leitora” a “autora” de sua própria coluna, a passagem de Linda Baptista na imprensa foi como um orgasmo: curta e intensa. Como explica Alex de Souza, jornalista, organizador do livro e filho de Carlão – como era chamado carinhosamente pelos amigos – “em cada recado, a hebdomadária Linda Baptista trazia seus comentários sobre o último caderno, sobre a vidinha boêmia da nossa fazenda iluminada, sobre filmes, livros e discos, até que ganhou, em abril, seu próprio espaço no caderno de Domingo, devidamente batizado de Cartas Obs-cenas.

Tantas coisas há para se dizer sobre esse livro...

Primeiramente, trata-se de um grande registro sobre o cenário cultural do país e da província na década de 1980. Com uma verve cheia de humor e um primor estilístico só seu, as cartas são uma deliciosa mistura de múltiplas referências artísticas, nacionais e mundiais com tiradas cômicas sobre coisas e cenas locais.

Eu quero mais é afundar na lingerie (ando meio indefinida sexualmente) e mergulhar na santa loucura do louco Arnaldo Baptista. Ele não precisava ter se atirado do terceiro andar do Pinel para ficar famoso. Tinha talento de sobra. É só confirmar em seu disco “Lóki?”. Mas não morreu; está vivinho da silva, com um sorriso congelado no rosto demente (desses que a gente usa em certas festinhas da cidade).

Assim, entre João da Rua e Guimarães Rosa, entre Marize Castro e Clarice Lispector, evocando de Caetano a Chet Baker, Linda Baptista vai tecendo suas impressões sobre sebos, sobre a Fundação José Augusto, sobre a Academia Norte-rio-grandense de Letras e sobre a imprensa da época, tudo registrado sem papas na língua, como numa versão Rebordosa potiguar.

Mas, indo além da personagem de Angeli, Linda Baptista atuou pioneiramente como uma espécie de ombudsman outsider, sabendo captar com precisão aguda e hilária as peculiaridades das Letras de sua aldeia e os embates entre posicionamentos do campo literário: “O pessoal da terrinha anda achando que escrever bem é como sentar no troninho e fazer aquilo (não “aquilo”)”.

A nota de Woden sobre o panfleto dos poetas que desejam comemorar um dia da poesia, que no meu entender deveria ser todo dia, foi por demais deliciosa. Ai meu Jesusinho, os meus queridos poetinhas-neo-marginais não têm o doce hábito de ler Pessoa, hombre. Preferem muita conversa, muita cerveja e pouco aquilo (leituras salutares).

Porém, nem só de crítica se fazia a escrita de Linda Baptista e ao longo de suas páginas também se veem tributos de afeto a amigos e colegas de ofício, tais como Adriano de Sousa (carinhosamente chamado de “Canalha”), Moura Neto (a “Moura Torta”) e Osair Vasconcelos (o “Vampiro”), que, aliás, assina o texto de orelha do livro e fez uma emocionante apresentação na festa de sábado.

Mas um outro elemento que se destaca é o próprio uso de um pseudônimo. Por que determinadas autorias se manifestam por outras assinaturas que não as “oficiais”? Há inúmeros casos de pseudonímia na literatura. Talvez o de maior destaque seja o caso do citado Fernando Pessoa e seus heterônimos (Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis, dentre outros), cada um com temática e estilo diferente.

É como se a subjetividade fosse ampla demais para caber numa única forma de expressão. É como se Carlão fosse grandioso demais para caber numa única assinatura (aliás, antes de Linda e de Carlos de Souza, assinou também como Francisco Carlos). Isso, de certo modo, se atesta também na sua escrita plural, em que Carlão se divide entre o profissionalismo de jornalista e a paratopia de escritor, escrevendo, aliás, em diferentes gêneros literários (romance, conto, poesia, peça teatral). Linda Baptista foi uma maneira linda de dar conta dessa pluralidade, rendendo toda uma história de vida e de morte em carta de irmã e carta póstuma depois daquele singelo “foda-se” que encerrou sua carreira.

Dois detalhes finais: no dia do lançamento, compareceu gente de várias gerações e todos os exemplares disponíveis no dia (mais de cem) foram vendidos naquela única manhã. Em alguma medida, isso também dá conta dessa grandeza de Carlão.

Nesta segunda-feira, 15 de maio, Carlos de Souza faria 64 anos. Nada melhor do que festejar sua saudosa lembrança. Assim, a festa continua: o livro pode ser adquirido tanto no próprio Sebo Vermelho como em sua loja virtual (www.sebovermelhoedicoes) ou ainda com Alex de Souza, pelo seu perfil no Instagram @ombudsmandeinsta.

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