Erosão vista no Morro do Careca acontece em cerca de 80% das praias do RN
Natal, RN 14 de jul 2024

Erosão vista no Morro do Careca acontece em cerca de 80% das praias do RN

2 de maio de 2023
7min
Erosão vista no Morro do Careca acontece em cerca de 80% das praias do RN

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O processo de erosão observado no Morro do Careca, cartão postal de Natal (RN) que já apresenta falésias de 2,5 metros de altura em sua base, é um problema global e que afeta cerca de 80% das praias do litoral potiguar, como Pipa, Barra de Cunhaú, Tabatinga, Muriú, Pirangi e todas as praias urbanas de Natal, segundo o professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Rodrigo de Freitas.

É por causa da erosão costeira que várias praias têm tido suas paisagens modificadas, como a colocação de pedras para conter o avanço do mar sobre construções – o calçadão no caso de Natal – e a engorda da Praia de Ponta Negra.

A erosão pode ocorrer tanto através da ação do mar, que retira sedimentos (areia) da praia, quanto pela ação dos ventos, o que acontece no caso do Morro do Careca. Esse processo, na avaliação do professor do Departamento de Geografia da UFRN, está relacionado a três fatores:

  1. A construção de grandes barragens nos rios que faz com que a areia não chegue aos oceanos;
  2. As construções em áreas de costa, como calçadões e muros de arrimo;
  3. As mudanças climáticas com elevação do nível do mar.

Quando os rios traziam areias para a linha de costa, ela era reposta naturalmente nas praias. O processo da retirada dos sedimentos sempre existiu, mas havia uma recomposição que deixou de existir com a construção de grandes barragens nas cidades. A areia atua para amortecer a energia das ondas e quando temos sua retirada sem recomposição e as construções na tentativa de conter as ondas, só aumentamos o turbilhonamento, o que escava ainda mais a praia porque não é possível destruir essa energia”, detalha Rodrigo de Freitas.

NÃO HÁ SOLUÇÃO PERMANENTE

Praia de Ponta Negra, em Natal (RN), com a estreita faixa de areia ocupada por barracas I Foto: Mirella Lopes
Estreita faixa de areia na Praia de Ponta Negra I Foto: Mirella Lopes

Apesar do projeto de engorda da Praia de Ponta Negra, com aumento da faixa de areia, ser apontado como a melhor solução para conter o avanço do mar, a medida vai exigir uma manutenção permanente, já que o processo erosivo vai continuar a existir, explica o professor da UFRN:

A erosão vai continuar a acontecer, o próprio estudo prevê que será preciso refazer a recomposição da areia em um prazo de dez anos. A praia é um ambiente dinâmico, sempre precisará de manutenção”.

O projeto de engorda prevê o alargamento da faixa de areia da praia de Ponta Negra em até 100 metros na maré seca e 50 metros na maré cheia. O serviço, orçado em R$ 75 milhões, terá três etapas:

1ª: a complementação do enroncamento, ou seja, dos blocos utilizados para contenção da água;

2ª: a alteração da drenagem na região para reduzir a força das águas pluviais que chegam à praia e, assim, minimizar a erosão costeira;

3ª:  o aterramento hídrico com cerca de 4,4 toneladas de areia. 

SEM CONTROLE

A erosão do Morro do Careca também está relacionada com a erosão da praia. Porém, a falta de monitoramento das instituições responsáveis por acompanhar a quantidade de areia que chega e é levada no decorrer do ciclo da natureza, torna o problema ainda mais preocupante.

Mesmo com a obra de engorda da Praia de Ponta Negra, que deve amenizar o processo de erosão, sem saber o quantitativo de sedimentos que chega e é levado do Morro, não há como prever se a engorda será suficiente para barrar o processo de desgaste que já resulta em falésias de 2,5 metros de altura em sua base.

Há 13 anos vemos que a água não atingia a base do Morro e as pessoas desciam até mais à frente. O aterro [engorda] precisa ser feito, é a solução, mas só a engorda resolve? Talvez não, porque temos que medir o volume de areia que chega para saber se é suficiente para manter o Morro, porque ele não é completamente vegetado, e a areia chega por um lado e sai por outro. Mas, isso não está sendo monitorado. A engorda vai atenuar, mas o vento vai continuar a tirar [areia], não há solução se não sabemos a quantidade que entra e sai”, aponta o professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Rodrigo de Freitas.

Além da questão técnica, o professor alerta que a falta de monitoramento também prejudica a cidade economicamente.

Se você conversar com pessoal que trabalha na praia, vai constatar que se a maré alta for às 10h, eles ficam sem praia. Imagine a frustração para um turista que vem tirar foto no cartão postal da cidade e nunca consegue chegar perto por causa da maré alta. O Morro do Careca é um ativo ambiental, a cidade se vende assim”, acrescenta.

Morro do Careca I Foto: Kívia Pandolphi - cedida pela Semurb
Morro do Careca I Foto: Kívia Pandolphi - cedida pela Semurb

SOL, MAR, SOMBRA E ÁGUA FRESCA...

Com a mudança da paisagem de muitas praias, o professor aponta que estamos perdendo nosso principal ativo econômico, o turismo.

Já perdemos, em parte. Quando você vai à praia quer um lugar para ficar na areia e depois entrar no mar. Sem aquela faixa de areia, ou você entra direto no mar ou não fica na praia, vai para restaurantes, que são opções mais distante. Quando isso vai sendo perdido, a praia vai se tornando desinteressante, há diminuição do fluxo de pessoas, além do aspecto estético, porque alguns proprietários de casas de praia vão jogando pedras na frente. Quem vem para uma praia em erosão com blocos de rocha? As pessoas querem uma praia bonita e não um paredão de rochas”, critica o professor da UFRN.

NA MINHA ÉPOCA...

Para quem conhece a história mais antiga de Natal, certamente se lembra da época em que o atrativo da cidade estava na Paria do Meio e dos Artistas, onde ficavam hospedadas as celebridades que visitavam a capital potiguar.

Se voltarmos no tempo e lembrarmos como era até os anos 1990, a Praia dos Artistas e a Praia do Meio eram nosso cartão postal, não era Ponta Negra. Hoje aquela área está degradada e um dos motivos é não ter faixa de areia”, avalia Rodrigo de Freitas.

Hotel Reis Magos, na Paria do Meio, foi demolido I Foto: reprodução Brechando
Hotel Reis Magos, na Praia do Meio, foi demolido I Foto: reprodução Brechando

SEM RESPOSTA

A Agência Saiba Mais tenta contato com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo (Semurb) desde a semana passada para tratar do tema, mas até a publicação desta matéria, não obtivemos retorno.

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