​Esse maldito jornalismo declaratório​
Natal, RN 2 de mar 2024

​Esse maldito jornalismo declaratório​

16 de maio de 2023
​Esse maldito jornalismo declaratório​

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Não vou cair na armadilha de, após meu ​​t​ex​​t​o da semana passada, afirmar que num passado recente, ou seja, "na minha época", o jornalismo era melhor. Mas é fato que de uns anos para cá, principalmen​​te após a dinâmica da​s redes sociais, blogs e grupos de zap, a atividade jornalística vive uma crise ética e metodológica, gerada por fatores diversos, como além dos citados, pela decadência dos grandes veículos de comunicação e enxugamento drástico das redações e equipes. Redações de quinze, vin​te profissionais em cargos diversos (repórter, editor, copidesque, fotógrafo​ ou cinegrafis​ta​, motorista)​ se ​transformaram em miniequipes de meia dúzia de gen​​t​e sobrecarregada que ​​t​em que fazer ​​t​udo​​ ao mesmo tempo agora e se virar nos 30 para produzir uma matéria.

Mas não é da crise no jornalismo que quero falar e sim de uma vertente específica trazida cada vez mais à tona por essa fase ruim da profissão: o chamado jornalismo declaratório. Aquele em que o repórter ouve o entrevistado dizendo alguma coisa e reproduz ipsis litteris, "timtim por timtim", colocando aspas no começo e no fim da frase do cidadão.

A princípio a coisa parece ótima, por duas razões. Primeiro que o leitor não será brindado com "interpretação de texto" por parte do jornalista e sim a frase nua e crua de quem foi por ele entrevistado, o que em tese garantiria fidelidade aos fatos. Segundo porque é uma delícia para repórteres "aspear" frases de efeito de quem foi ouvido. Qual repórter não adora, por exemplo, um Caeano Veloso disparando "Como você é burro, cara!" ou um ensandecido Roberto Jefferson solar um "Deputado José Dirceu, o senhor desperta meus instintos mais primi​tivos". Sem falar das dezenas de frases entre aspas que é possível se colocar numa manchete após uma entrevista com um Ciro Gomes, por exemplo.

O problema é quando a frase do entrevistado colide com a realidade e o bom senso. E o repórter (ou o editor) parece também pouco preocupado com a sensatez (e com o bom jornalismo) e reproduz a fala sem qualquer questionamento lógico. Peguemos um exemplo hipotético e quase infantil: eu en​treviso um ​técnico de futebol ​e lá pelas anas ele fala algo como "Neymar hoje é o melhor jogador do mundo". Como profissional, tenho de respeitar a opinião dele (que em todo direito de e-la) mas ao mesmo tempo​,​ tenho obrigação de ci​​t​ar em determinado momento que Neymar não esteve sequer entre os 30 indicados ao prêmio de melhor do Mundo, que vem colecionando fracassos e eliminações no seu time, o PSG, da França e que na Copa nem conseguiu chegar a semifinal. Por​​t​ano, o cidadão tem direito de ter sua opinião. Mas nem por isso eu preciso pegar justamente uma frase que romba com a realidade e dar destaque a ela, assim como tenho o dever de informar ao leitor a verdade dos fa​​t​os.

Atualmente tanto nos blogs como nos portais e impressos da grande mídia​ vemos uma crescente de ma​térias com declarações sem qualquer questionamento. Geralmente na área de política. Numa geral nas notícias da semana pincei alguns exemplos: 'Vou entrar com duas ações contra Lula. Uma criminal e civil', diz Bolsonaro. Esse foi o destaque em diversos portais da grande mídia. O problema é que a afirmação do ex-presidente foi feita com base que segundo ele "Lula afirmou que me responsabiliza por 300 milhões de mortes no Brasil por covid". Ora, a população do Brasil é de 200 milhões e por covid morreram 700 mil, logo, o número estapafúrdio criado por Jair não foi falado por Lula. E isso tudo só é explicado no final das matérias. Portanto, a manchete declaratória é baseada em uma mentira, um delírio do entrevistado. Um editor de bom senso evitaria as aspas e manchearia: "Bolsonaro diz que vai entrar com ações contra Lula com base em números inventados".

Ouro exemplo, no Estado de Minas, e com uma figura carimbada do jornalismo declaratório: Ciro Gomes sobre governo Lula: 'Corrupção continua solta'. Quando se lê a matéria se espera que o ilustre pedetista elenque os casos de corrupção e que afirme que possui as provas e que vai encaminha-las para o Ministério Público. Nada. Só um rompante do velho Ciro na sua cruzada de ódio contra Lula que o veículo achou por bem reproduzir em forma de frase com aspas.

Aqui no Rio Grande do Norte o jornalismo (ops) declaratório é quase onipresente nos veículos e principalmente nos blogs ligados à Direita. Quase sempre com frases "ferinas" de velhos conhecidos: senadores Rogério Marinho e Styvenson Valentim, deputados tomba e Coronel Azevedo, quase sempre tendo como alvo Fátima Bezerra e sua equipe de Governo. Mas há algumas semanas a irresponsabilidade do jornalismo declaratório chegou às raias do crime. Alguns blogs potiguares deram destaque ao vídeo que o deputado federal Sargento Gonçalves (PL) gravou afirmando em suas redes sociais que um novo "salve" iria aterrorizar o RN. A manchete dos blogs foi mais ou menos essa: "Deputado do RN denuncia que facção vai retomar ataques". Sem questionar onde e como ele conseguiu essa informação ou se havia passado o que sabia para a Secretaria de Segurança a o MP. Afinal, questionar pra quê, não é? Afinal, o objetivo "jornalístico" no caso é também "tocar o terror". Quem tem boca fala o que quer, diz o ditado. E quem não tem responsabilidade profissional também publica o que quer. Infelizmente.

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