Ernest Röhm e André Valadão
Natal, RN 24 de abr 2024

Ernest Röhm e André Valadão

22 de julho de 2023
8min
Ernest Röhm e André Valadão

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O Netflix lançou recentemente (mês de Junho de 2023) o documentário Cabaré Eldorado: o alvo dos nazistas, dirigido por Benjamin Cantu e escrito por ele e Felix Kriegsheim. O filme reconstitui a atmosfera da cidade de Berlim durante as décadas de 1920 e 1930, antes e depois da ascensão nazista. Foca, sobretudo, na condição das pessoas LGBTQIAPN+ (queer), como elas viviam na fervilhante Berlim pós tratado de Versalhes, em 1919, na liberdade que esses grupos tinham de manifestarem suas sexualidades sem medo de que isso viesse se tornar seus infortúnios a partir da ascensão dos nazistas ao poder. A casa noturna, chamada Cabaré Eldorado, era ponto de encontro e festas abertas a todo gênero – gays, lésbicas, trans, intersexuais e, inclusive, heterossexuais. Era tão aberta e plural que tinha como frase em sua fachada algo como “Aqui se pode”. Apesar de ser um documentário, o filme reconstitui de forma muito eficiente cenas da época simulando em cores vivas e com excelente fotografia, o que seria a vida nessa atmosfera liberal, no que diz respeito às questões da sexualidade na Alemanha antes e durante o poder dos nazistas.

O eixo do enredo gira em torno da vida de alguns personagens um tanto paradoxais; numa ponta, Ernest Röhm, o padrinho de Hitler, que se tornou seu braço direito, fundando a SA e depois se tornou seu ministro da guerra. Outros personagens são atores gays e trans, como Manasse Herbst, Charlotte Charlaque, o famoso tenista Gottfried von Cramm que era bissexual assumido e vivia um triângulo amoroso com os dois primeiros. Além desses, o médico e sexólogo, Magnus Hirschfeld, mundialmente conhecido pelas pesquisas no campo da sexualidade, defensor dos direitos de uma sexualidade livre de leis e normas, criador do Instituto para a Sexualidade (Institut für Sexualwissenschaft).

Tudo estava muito bem até o início da ascensão do nazismo. Röhm, figura central nessa ascensão, era, pasmem, frequentador do Cabaré Eldorado e assumidamente gay, tendo inclusive um caso amoroso tórrido com Karl Ernest, um jovem nazista que é recrutado para ser o seu braço direito à frente do Ministério da Guerra. No esteio da perseguição aos judeus, comunistas, negros, ciganos, Röhm, ao tempo em que se esforça diante de Hitler para não “desmunhecar”, ataca de forma impiedosa a comunidade LGBTQIAPN+ e faz uso largo do parágrafo 175 do Código Penal Alemão que penalizava as relações homossexuais. Estima-se que mais de 100 mil pessoas LGBTQIAPN+ foram diretamente afetadas, enviadas para os campos de concentração, campos de trabalho e, como resultado, uma imprecisa, mas não menos terrível contabilidade de 50 mil mortos, executados nas câmaras de gás ou como vítimas de experimentos científicos malogrados. Uma página da história que ainda deve ser escrutinada mais acuradamente para se ter um quadro mais preciso dos resultados desse horror.

Mas... o que tem a ver Ernest Röhm com André Valadão, líder da Igreja Batista Lagoinha? Resposta: a hipocrisia.

Nas últimas semanas pipocou na imprensa mundial e redes sociais um absurdo “sermão” de André Valadão, incitando os fiéis da Igreja Lagoinha a matarem os homossexuais, como tarefa suja que o Deus bondoso e piedoso a quem ele serve não teria coragem de realizar. No mesmo embalo, um cantor dissidente do grupo Diante do Trono, escancarou que a Igreja era um “antro de gays enrustidos” e, recente, descobriram um vídeo de uma entrevista em que a própria esposa de Valadão declarou que o seu casamento com ele havia sido de fachada, arranjado pelo pai de Valadão (coitada dessa moça), talvez, quem sabe, para despistar sua condição de gay não assumido diante dos fiéis que o têm como exemplo, e da própria cúpula da Igreja. Somente este fato, (do casamento arranjado) por si só, já é um ponto de aproximação de Valadão de um autêntico nazista como Röhm, pois curiosamente, esse forçou seu parceiro Karl Ernest a se casar, sendo Ernest seu amante. Para completar, Röhm foi o padrinho. Tudo isso para agradar a Hitler, tranquilizá-lo de que nas fileiras da SA não haviam gays, embora o discurso e a própria formação do quadro dessa polícia também não cogitasse a presença de mulheres. Era uma confraria de “machos” que viviam diuturnamente juntos, até nos banhos (imaginem!).

A cruzada que Valadão pretende desfechar contra os homossexuais, já é uma realidade não apenas brasileira, mas em toda parte do mundo em que floresce o discurso de ódio, homofobia, racismo, xenofobia e tudo o que há de mais asqueroso e nojento como insígnia da ação da ultradireita. Valadão e os neonazistas em geral, não estão satisfeitos com o aumento de 33,3% de assassinatos de homossexuais motivados pela homofobia nos últimos 4 anos no Brasil. Ele quer mais. E em nome do Deus bondoso e amoroso a quem ele segue. Nesse ponto, considerando as diferenças temporais, Röhm e Valadão se assemelham: ambos querem o extermínio de pessoas, por não estarem inseridas num modelo de comportamento que não o da norma hétero. Pode ser que um fiel salte com aquele discurso de que a posição de seu líder não representa o pensamento da comunidade Batista, conhecida como Lagoinha. O próprio Valadão, temendo o peso de uma punição pela justiça, emitiu uma nota culpando a imprensa de distorcer o seu perverso e irremediável discurso criminoso. Prática usual nos últimos tempos dos evangélicos bolsonaristas e radicais da ultradireita que não assumem o que falam, culpando sempre o meio e não a mensagem. Não adianta, os valadão, são os fundadores, líderes e representantes máximos da instituição Lagoinha. Se seu discurso perverso, homofóbico, não se coaduna com os princípios da Igreja como um todo, que o expulsem, defenestem-no, sejam coerentes; e não venham apenas com explicações amareladas de que isso não é o pensamento da comunidade, mas demonstrem atitudes, para mostrar ao mundo que este, além de não ser o pensamento que guia a instituição não é a vontade de seu Deus.

Hitler, insatisfeito com a homossexualidade escancarada de Röhm, que se jactava de que nunca seria molestado pela sua condição de gay, por ser seu mentor e amigo íntimo, emparedou-o, sob a falsa alegação de que ele tramava um golpe de estado. Junto com Goebels, tomou-o pessoalmente de assalto e entregou uma pistola para que ele se matasse. Röhm, fiel a Hitler, declarou que só morreria pelas mãos do Führer. O que não foi problema. Hitler, como um covarde que era, retirou-se do quarto e mandou dois agentes da SS fuzilarem Röhm. Depois, intensificou ainda mais a já bárbara e mortal cruzada contra os homossexuais.

O Cabaré Eldorado fechou as portas e os frequentadores fizeram o que podiam para não serem associados a ele. Alguns poucos conseguiram fugir da Alemanha, menos Röhm, que se julgava estar acima do parágrafo 175 pela posição que ocupava no Estado nazista. O Instituto da Sexualidade de Hirschfeld, foi invadido e todo seu acervo incinerado em praça pública.

Neste ponto, cabe questionar: ao incitar seus fiéis a iniciarem uma cruzada de extermínio dos homossexuais, tal como ocorreu na Alemanha nazista, André Valadão tem mesmo coragem de matar gays? Se sim, qual será o primeiro parceiro da Igreja Lagoinha que ele vai fuzilar, como parte da cruzada de limpeza moral através do extermínio dos gays com os quais convive? A sua Igreja, o seguirá, a exemplo do que fez Hitler com Röhm?

O partido Socialdemocrata e o Partido Comunista alemães, não foram capazes de conter a escalada nazista. Deu no que deu, não apenas nessa questão da sexualidade. Sabemos dos outros infinitos males. Mas podemos conter os valadões (Röhms) de hoje, encarcerando-os como covardes e hipócritas que se camuflam atrás de um púlpito com uma Bíblia aberta, pregando a violência e a intolerância, sejam quais forem seus matizes.

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