Bicicleta e inclusão de pessoas cegas: a bicicleta ODKV
Natal, RN 13 de abr 2024

Bicicleta e inclusão de pessoas cegas: a bicicleta ODKV

27 de agosto de 2023
6min
Bicicleta e inclusão de pessoas cegas: a bicicleta ODKV

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Por John Fontenele Araujo

Uma característica da sociedade humana é sua diversidade, e esta diversidade foi fundamental para a nossa sobrevivência como espécie. Isto nos permitiu adaptarmos aos mais diferentes tipos de ambientes terrestres e hoje estamos presentes em todos os cantos do planeta. Os mais diversos tipos de problemas que apareceram puderam ser resolvidos por pessoas diferentes, isto é, com diferentes habilidades.

Desta forma, além da nossa diversidade, também fomos capazes de nos ajudarmos uns aos outros e desta forma desenvolvemos comportamentos de cuidar dos outros. O altruísmo foi um comportamento fundamental que deve ter sido essencial para o surgimento da espécie humana. Porém, há custo no altruísmo e outros comportamentos foram se contrapondo como um processo de negação. Um comportamento que surgiu em contradição ao altruísmo foi o preconceito e a discriminação. Podemos especular que no começo da vida humana em sociedade tenha surgido o preconceito e a discriminação contra as pessoas com deficiência.

Em alguns momentos da nossa história, elaborações mentais foram construídas para justificar o preconceito e a discriminação. Por exemplo, a deficiência foi atribuída como um castigo dos deuses ou à possessão pelo demônio. Isto levava a atitudes de intolerância e punição das pessoas com relação ao deficiente, que muitas vezes resultavam em aprisionamento, tortura e severos castigos.

Felizmente, a humanidade tem buscado construir um novo modelo de sociedade que combata o preconceito, a discriminação e a intolerância contra quem tenha qualquer tipo de deficiência. Esta superação do preconceito e discriminação contra as pessoas com deficiência passa pela construção de estratégias sociais que garanta a inclusão daqueles que apresentem qualquer tipo de deficiência.

Uma das deficiências que apresenta a maior prevalência na população brasileira é a visual. Estima-se que aproximadamente 35,7 milhões de brasileiros apresentem alguma dificuldade para enxergar. Desse total, cerca de 29,2 milhões apresentam alguma dificuldade, cerca de 6 milhões apresentam grandes dificuldades e um número estimado de mais de meio milhão de pessoas não conseguem enxergar de modo algum, ou seja, são totalmente cegos.

Para inclusão social das pessoas com deficiência visual se faz necessário um envolvimento global da sociedade, em especial dos profissionais oftalmologistas e de educadores. Porém, a sociedade como um todo precisa se envolver, pois a inclusão depende da participação de todos e todas, o que inclui nós ciclistas. E que estamos fazendo?

No Brasil há diversas ações promovidas por organizações sociais de ciclistas. Em Campinas, São Paulo, no Parque do Taquaral há o projeto KB2 (cabem dois na bicicleta) – “Olhos que Guiam”. Este projeto já existe há mais de seis anos. Consiste no uso de uma bicicleta de dois lugares, com dois selins, dois guidões e dois pares de pedais (veja foto abaixo). Bicicleta esta conhecida como “Tandem”. Neste caso, quem pedala na frente tem visão e a pessoa com deficiência visual fica atrás, pedalando e também segurando em um guidão. O relato de quem participa desta ação é impressionante:

“Quando a gente pega uma descida, dá até para soltar as mãos do guidão, erguer os braços, bater palmas e celebrar esse misto de alegria com liberdade.”

Exemplo de uma Bicicleta Tandem (Foto: Marise Reis)

Uma outra iniciativa que gostaria de destacar aqui é a bicicleta ODKV. Uma sigla que significa “O DE CÁ VÊ”. Iniciado no sul do Brasil e é atualmente utilizada por diversas organizações sociais como instrumento de inclusão para deficientes visuais e idosos. A bicicleta ODKV é composta por duas bicicletas paralelas que estão acopladas por vigas ao nível dos guidões e do selim, como podemos ver na foto abaixo.

Exemplo de uma bicicleta ODKV (Foto: Bike Anjo - Pernambuco)

Em Fortaleza, a Prefeitura Municipal tem uma política pública de inclusão utilizando bicicletas. Na capital cearense, a cada 15 dias, aos sábados, ocorre o projeto Bike Sem Barreiras. Ele ocorre na bela praia de Iracema, onde são disponibilizadas bicicletas tandem destinadas para pessoas com deficiências visuais e idosos. O projeto existe desde 2021 e além da tandem, há dois outros tipos de bicicletas: a “hand bike” (em que se utiliza as mãos para pedalar) e uma chamada “duet”, que consiste em uma bicicleta com uma cadeira de rodas adaptada na frente.

Estas estratégias são fundamentais para inclusão de pessoas com deficiência visual e para idosos com dificuldades de locomoção. A grande importância dessas iniciativas é o estímulo à prática de atividade física e a socialização.

Por causa do preconceito e da discriminação, a maioria das pessoas com deficiência visual acaba sendo sedentária e solitária e isto é um dos fatores que causam as doenças crônicas não transmissíveis, tais como hipertensão, derrames, diabetes e até câncer. Então, estas iniciativas do uso da bicicleta como estratégia de inclusão social devem ser consideradas como ações de saúde pública.

Natal ainda não possui programa semelhante e por isso eu aproveito para provocar a Prefeitura de Natal, a ACIRN (Associação dos Ciclistas do Rio Grande do Norte) e outros coletivos de ciclistas para construirmos na cidade do Natal eventos que promovam a inclusão das pessoas com deficiência visual, garantido para elas e eles a prática da atividade física e um momento de interação social através da bicicleta.

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John Fontenele Araujo é médico, neurocientista, professor titular da UFRN e ciclista.

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