Hip Hop: o movimento cultural da periferia que resiste e transforma através da arte
Natal, RN 20 de jul 2024

Hip Hop: o movimento cultural da periferia que resiste e transforma através da arte

4 de setembro de 2023
5min

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Por Leandro Juvino

O hiphop é uma expressão cultural e artística das periferias do Brasil e por isso são marginalizadas. As batalhas de rima denunciam o racismo, o preconceito, o machismo e as mazelas ignoradas pela sociedade.

Em Natal, esse movimento resgata e salva a vida de muitos jovens pretos e pobres periféricos, especialmente da Zona Norte. Recentemente, um jovem foi agredido enquanto participava da Batalha Clandestina, no conjunto Gramoré, e o caso gerou repercussão nacional. Infelizmente, isso não é um caso isolado e os artistas sofrem repressão cotidianamente.

Aleson da Cruz, cientista social, organizador da Batalha Clandestina e produtor cultural enfatiza: “As batalhas de rima sempre sofreram repressão policial. Eu estou na batalha há mais de 10 anos. Não é novidade para mim. Aquilo ali acontece desde quando a gente dançava”. O cientista se refere ao caso do jovem agredido na Batalha Clandestina, no conjunto Gramoré. 

De acordo com o produtor, as batalhas de hiphop sofrem repressão e perseguição policial por serem culturas manifestadas por povos pretos e perifericos. 

“Todas as manifestações culturais pretas sofreram repressão e com o hiphop não seria diferente…O hiphop é um cultura preta que nasceu nas ruas. Então, a gente sempre vai sofrer repressão”, lamenta o o cientista. 

Aleson destaca que o tratamento do hip hop no Brasil é diferente dos outros países. Isso porque no nosso país o racismo estrutural é muito profundo. Então, é preciso territorializar o assunto pois em territórios diferentes existem tratamentos diferentes para a mesma manifestação. “O hiphop é tratado no Brasil como algo ‘chulo’, mas que ainda assim, estamos conseguindo alguns avanços como o Breaking nas olimpíadas e o Brasil tem uns dos melhores atletas do mundo”, afirma.

O hiphop pode ser dividido em 4 pilares principais, como o Rap, os MCs, o Breaking e o Grafitte. O breaking, que estará nas Olimpíadas de 2024 como um dança esportiva, é praticada pelos b-boys e b-girls e vai muito além de uma simples dança; é um estilo de vida.

O Hip Hop na ZN  

Aleson lembra de MC Antonny, jovem que foi morto e torturado na zona norte . “Você não vê a polícia invadindo o Hallelluya (festival católico). Nós estamos cansados. Em toda batalha a polícia chega matando e oprimindo a gente. Queremos um espaço seguro para fazer cultura. Faz 10 anos que a gente apanha e o sistema não faz nada”, desabafa. 

A zona norte, tem a maior população de Natal e também é uma das regiões menos assistidas pelo poder público. E na zona norte também está a maior concentração de batalhas de rap da capital potiguar.

“Aqui na zona norte, existe um potencial cultural muito grande e que precisa ser melhor explorado. Nós temos muitos jovens, homens e mulheres com muitos sonhos e o poder público ainda não olha para isso”, destaca. 

“O hiphop hoje não é apenas uma profissão. É um ato de resistência. A gente resiste enquanto canta, enquanto brinca, enquanto faz arte”, finaliza. 

O rap feminino

MC Magi é uma jovem rapper de Currais Novos e presidenta da Cooperativa de Batalhas do RN (CDB). A MC conta que a presença feminina no meio do rap é um ato de coragem. E ela segue quebrando e desconstruindo essa cultura enraizada através de um princípio do hip hop: o respeito. “Lidamos com homens que cresceram numa cultura machista e podem reproduzir esse machismo em vários momentos”, comenta a presidenta. 

Os MCs denunciam e escancaram todos os problemas que a sociedade ignora. E eles fazem isso através de rimas, poesia e cultura. “Tratam como se estivéssemos promovendo todos os problemas. Só que estamos relatando e transformando realidades através da nossa arte e cultura.”, finaliza. 

A MC conta que o hip hop é a voz de toda a favela e de toda a realidade da “ponte para lá” que a sociedade não faz ideia que existe. “O outro lado da ponte” é uma expressão usada para se referir a ponte que separa a zona norte do resto de Natal.

“O hip hop é cultura de periferia. Aquela mesma periferia que a classe média/alta troca de calçada ou fecha o vidro do carro quando está passando na rua. Aquela sociedade que não teve acesso aos direitos básicos”, destaca. 

Mc Magi diz que o hip hop entrou na sua vida quando ela ainda era criança e assistia Emicida rimando nas batalhas. Mas só com 18 anos que a potiguar rimou pela primeira vez, em Currais Novos.

“Conheci meu ‘boe’ que já era MC e rimei pela primeira vez na Batalha do Cristo”, lembra.

Hoje, cinco anos depois, ela é presidenta da CDB e está à frente de 23 Batalhas distribuídas em 11 cidades do RN. 

“O hip hop é a voz legítima e oficial das favelas! E a revolução será por meio dele ou não será”, finaliza. 

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