Onde está o Lolo ?
Natal, RN 24 de abr 2024

Onde está o Lolo ?

2 de setembro de 2023
3min
Onde está o Lolo ?

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“Boa noite pra quem é de boa noite/ bom dia pra quem é de bom dia...” O som da noite misturava de ponto de macumba a Rihanna, de Elza Soares ao MC Marcinho, de Alok a Margareth Menezes... Sopa musical deslizando da pick-up do DJ para a pista cheia.

Na porta dos banheiros, uma muvuca de gente...

Alguém perguntou:

- Aqui tá rolando sexo, drogas e rock’n’roll?

Uma garota despojada respondeu:

- Sempre, e tem até papel higiênico no banheiro...

Gargalhadas etílicas se misturaram com o cheio de vômito e desinfetante e urina e suores...

Pegar a cerveja e ir pra calçada do bar ver a efervescência do centro morto da cidade alta viva naquela noite era se permitir penetrar em outros mundos onde todas as tribos se mimetizavam. Dali se via muito mais mistura que na pista do bar. Na pista da rua, um cara fuçava o chão, buscava uma pedra perdida, fosse antes um diamante...

Travestis pretas pobres brancas magras velhas gordas hormonizadas sifilizadas prostituídas ou doll girls drags performáticas debochadas misturavam-se com cabo-verdianos boys magias michês traficantes héteros tops e outros nem tanto... um anão atravessou a rua, parando para dar passagem a dois ciclistas. Monas minas manos transmaculines, uma policial feminina da civil (à paisana) ...

Dali se via um quadro dadaísta, um mosaico, uma bricolagem de gentes, de tipos humanos com um mural de pichações e grafites ao fundo. A noite cheirava a sexo... Olhares trocados, entre óculos, entre olhos, entre olhares, tortos, tarados, cínicos, penetrantes, curiosos, felizes, famintos... Regado a corotes, cervejas, destilados, loló, maconha, pó, pedra e o que mais? Seria assim o inferno?

Prostituição, tráfico e curtição... A rua da cidade alta morta estava viva e havia fluxo de sangue ali, pulsante, corrediço, quente. Um leque abanava o calor do corpo da velha queen (quantos anos de batalha ela carregava?) mal amada, abandonada, usada e abusada, jogada à sarjeta, mas divina em sua peruca loira mal penteada e sua roupa de lamê e tecido de cortina. Desfilava sobre seus saltos altos enquanto um grupo de amigas sentadas em uma mesinha comiam batata frita com cerveja alheias aquela pluralidade.

No mural ao fundo, no alto mais alto que o pichador pôde chegar, uma pergunta: ONDE ESTÁ O LOLO? As amigas que comiam batata frita com cerveja pensavam que era o chocolate, uma delas, professora de português indagou se não seria o loló – droga barata feita à base de clorofórmio, álcool e essência... Pedrinho Mendes já cantou isso: “Deixa cair o cheirinho da loló...”

O Lolo seria um corpo pertencente àquelas ruas que sumira em uma viatura e ninguém sabe dele até hoje? Um Amarildo da cidade Natal?

Aquelas ruas tinham histórias demais pra contar. E no meio daquilo tudo eu me sentia um ponto fora da curva, sentada com um bloquinho, tomando notas, tarde da noite, registrando vidas e pensando... Como eu poderia descrever essa noite?!

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