Natal em Natália
Natal, RN 30 de nov 2023

Natal em Natália

16 de outubro de 2023
5min
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Se nome é destino, conforme apregoam numerólogos da política recorrentes no clichê esotérico, a deputada federal Natália Bonavides (PT) pode encomendar os panos chiques para a posse na Prefeitura de Natalópolis em 2025. De todos os pré-nomes que já acenam aos magos e magas estropiados pela mesmice, o dela é o único a portar, como sortilégio ou promessa, a identificação literal com a cidadela dos reis. E se a blague é apenas o que parece, outras numerologias fornecem cifras que, por frias e objetivas, recomendam ao pessoal do amor & ódio atentar para o fato à prova de piada e de fake: Natal gostou – e gosta mais a cada eleição – de votar em Natália. Em 2016, a ativista social, forjada no apoio jurídico a movimentos de luta por terra e por moradia, atordoou tuxauas e caboclos de todas as tribos, ao recolher surpreendentes 6.202 votos para vereadora, a sexta maior baciada no cômputo geral e a quinta entre os 29 eleitos. Natália subiu um degrau porque sua antecessora no ventrículo esquerdo da cidade – a professora Amanda Gurgel – teve 8.002 votos, mas perdeu a cadeira na dança dos quocientes eleitorais. A performance inesperada sinalizou que o PT, a esquerda e a cidade tinham uma nova liderança em construção. Dois anos depois, veio a confirmação. Natal não se aborreceu com o abandono do mandato de vereadora pela metade, para o upgrade à Câmara Federal. E fez de Natália sua campeã de votos, com 43.714, quase 39% do total obtido pela nova deputada federal (112.998). O segundo mais votado na capital – o bolsonarista Girão – teve 36.290. Outros números de 2018 iluminam o rastro ascendente de Natália no firmamento vermelho e no geral. Ela foi campeã de votos no PT, com 14.928 a mais que Fernando Mineiro (98.070); em Natal, a diferença foi de acachapantes 27.849 votos. Natália ainda foi a segunda mais votada no estado, atrás de Benes Leocádio (125.841), beneficiário da comoção popular pelo assassinato do filho em desastrosa operação policial. O que 2018 afirmou de Natália, 2022 confirmou. Ela foi a mais votada na capital e no estado. Do total de 157.565 votos – 53 mil a mais que o segundo, João Maia –, ela recolheu 52.198 em Natal, batendo novamente o bolsonarista Girão (30.226) e o companheiro Mineiro (26.044). Ou seja: enquanto os dois perderam votos, em proporções diferentes, Natália elevou em quase 9 mil o sarrafo natalense fixado quatro anos atrás. Esses números do passado amparam o que os numerólogos do futuro vaticinam. Na dúzia de pesquisas de intenção de voto divulgadas neste ano, Natália mantém-se inabalável em um dos polos de favoritismo, atrás apenas do ex-prefeito Carlos Eduardo Alves, que surfa o recall de 12 anos na função. A performance dela varia entre institutos, mas, considerada a margem de erro, nunca fica abaixo dos 14,38% obtidos pelo PT com Jean Paul Prates no primeiro turno de 2020. Ou seja: o teto de Prates é o piso de Natália. A posição sólida indica que a primeira grande liderança de esquerda na era da política digital parece pronta – com sua estampa de mulher branca, jovial e sorridente, de posições firmes e claras, sem medo de contrariar a classe média de onde vem – para ousar o que lideranças históricas do partido não puderam: dobrar a resistência de Natal ao modo PT de governar. Tal possibilidade é um espinho na pata da direita que não se vê em Alves, apesar da camuflagem bolsonarista que o cujo vestiu no segundo turno de 2018. Confusos ante a meia dúzia de nomes que oscilam do bolsonarismo roxo ao liberalismo raso, os antípodas de Natália continuam sem um extremista competitivo para chamar de candidato. O embate que fazem contra ela é dispersivo e disfuncional, centrado em questões doutrinárias que tendem a perder relevância na discussão dos problemas reais da cidade. A fragmentação e o retardo repetem o cenário do ano passado, quando líderes hesitantes e temerários, incapazes de unificar ambições, assistiram à governadora Fátima se reeleger em ritmo de volta olímpica. E agora podem ser obrigados a abraçar Carlos como último recurso para tentar barrar o Natal em Natália 2024. A um ano da eleição, não há cenários definitivos. Uma declaração infeliz aqui, a mídia direcionada ali, umas fake news acolá, a diretriz nacional dissonante de arranjos locais – e a roda da política pode inverter o giro, frustrando expectativas, detonando favoritos e elevando azarões inexpressivos. Sem tais incidentes ou manobras, o que se esboça é a cidade e a mulher prosseguirem na conjunção que se formou em 2016 e segue em expansão, mobilizando paixões à direita e à esquerda, como é próprio de líderes, para confirmar as cifras dos esotéricos e fundir a cuca dos odiadores. De boas.
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