Às gestoras do SUS, meu abraço
Natal, RN 15 de jun 2024

Às gestoras do SUS, meu abraço

13 de novembro de 2023
6min
Às gestoras do SUS, meu abraço
Foto: Ascom / Governo da Bahia

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Nós mulheres somos cerca de 74% da força de trabalho no Sistema Único de Saúde, estamos falando de mais de 2 milhões de trabalhadoras que protagonizam as atividades nos serviços de saúde em todos os municípios do país. Por assim dizer, essa expressiva presença feminina no trabalho em saúde não é de grande novidade, nós crescemos percebendo que cabia às nossas mães, avós ou outras mulheres que nos criaram, os cuidados com a saúde da família.

Não à toa, é comum associação do gênero feminino às ocupações de cuidado, essa compreensão massificada da mulher cuidadora permanece arraigada na nossa cultura patriarcal, e reflete, inclusive, no direcionamento das nossas escolhas profissionais. A mulher trabalhadora no SUS enfrenta grandes desafios, mas essa conversa é comprida e a deixo para outro dia. Tratarei aqui da figura da mulher gestora no SUS, daquela que está dentro de mim e de tantas outras que me atravessaram nesse pouco tempo de atuação no Sistema.

Em que pesem os avanços em relação à equidade de gênero nas relações de trabalho, para começo de conversa, já temos que provar nossa capacidade técnica infinitas vezes mais que os homens gestores nos mesmos cargos e espaços equivalentes, inclusive,  muitas das vezes, nos espaços que foram construídos por nós mulheres, à força de muita resistência e luta, porém sempre foram marcados por homens no comando.

Ainda é incomum conseguir concluir uma fala sem pelo menos duas ou três interrupções dos colegas de trabalho - e quase sempre essas intempestivas “contribuições” evidenciam, apenas, a agonia e o incômodo que têm ao verem uma mulher tomando decisões. As violências e opressões vividas dentro dos muros institucionais constituem rotina, e nos obrigam a um permanente estado de vigilância. 

Essas dificuldades estruturais somadas às múltiplas e complexas demandas na gestão de um sistema ÚNICO de saúde, já conferem um cenário preocupante para a saúde mental dessas trabalhadoras. Djavaneando a conversa, no nosso ofício sabemos muito bem o que é não ter e ter que ter pra dar.

Dando continuidade, sem me deter às diversas de situações que já passei ou presenciei as companheiras enfrentando na gestão do SUS, elas quase sempre precisam abdicar de fragmentos importantes de suas vidas pessoais para cumprir prazos e agendas, que, estão longe de serem acomodadas no calendário oficial de dias/horas úteis.  Na prática, e depois do famigerado Whatsapp, essas mulheres assumem uma escala permanente de plantão de 24h, 7 dias por semana, com, quiçá, um dia ou outro de folga, seja por mera rebeldia ou por impositiva necessidade de autocuidado. A segunda é mais frequente, acreditem. 

Em seu turno “livre” do dia, essas mulheres precisam dar conta das atividades não remuneradas e domésticas, de se fazerem presentes na vida cotidiana de filhos e parceiros, muitas ainda são responsáveis pelos  cuidados com a saúde de outros parentes e familiares. Algumas tentam manter uma atividade física regular, outras ainda conseguem descomprimir com momentos de lazer de vez em quando, outras até fazem alguma nova pós-graduação, e pasmem, elas ainda descansam por algumas horas em berço esplêndido. 

Não sei exatamente o que acontece, mas tenho certeza que o relógio tem um sentimento especial por nós, gestoras, e me atrevo dizer que por humanidade, às vezes, ele passa mais lentamente para que dê tempo a gente dar um suspiro aliviado. Obviamente, mesmo com essa camaradagem do tempo, não damos conta de tudo isso e parte desses “fragmentos importantes” são amargamente despriorizados na gestão das nossas próprias vidas. 

Esse dissabor do que não deu para fazer, ou do que ficou mal feito, alimenta sentimentos de culpa, insuficiência, e muito frequentemente, de alienação. O equilíbrio nas dimensões pessoais e profissionais é sempre um ponto de pauta nas conversas informais, uma “questão não vencida”, como se ouve nos ambientes corporativos. Somos constantemente questionadas, dentro e fora de casa, mas não tem juízo maior que o nosso próprio, a todo instante. A gestão desses incômodos é genuinamente um efeito colateral das nossas escolhas.

Como se não bastasse os desafios institucionais e pessoais da lida, as gestoras são mais atacadas na mídia que homens, especialmente nas redes sociais onde o ódio às mulheres é fertilizado. Os ataques são pessoais e cruelmente misóginos, temos nossos corpos e vidas expostos, as nossas competências medidas pela régua machista dos que julgam pelo tamanho da roupa, cor do batom ou estado civil. Quase sempre o tribunal do júri é genuinamente estrelado por homens-branco-hétero-cis que são muito bem remunerados para disseminar suas frustrações na gente. 

Ataques a figuras femininas que estão no poder é um clássico, num passado recente a Ex-Presidenta, Dilma Rousseff, teve sua imagem adesivada na entrada dos tanques de gasolina de carros, onde a Presidenta aparecia de pernas abertas, para que fosse penetrada sexualmente pela mangueira de combustível em cada abastecimento. Na época, essa truculenta ação denominada de “protesto”, e sem a mínima chance de errar, com certeza, foi formulada por algum homem, e com mais certeza ainda, do contrário, em sendo um presidente, isso jamais aconteceria. Estamos sempre por um triz da objetificação, da depreciação, do descrédito. Não importa de qual lugar estejamos liderando, os desafios são comuns. 

É preciso saudar à existência de quem renuncia tantas faces da vida em prol de uma luta justa e coletiva que é a saúde pública, de quem tem um compromisso ético e político com o fortalecimento do Sistema Único de Saúde, de quem quebra as barreiras da sub-representação em pastas historicamente ocupadas por homens, como a primeira mulher Ministra da Saúde, Nísia Trindade Lima, recentemente empossada pelo Presidente Lula. 

É preciso também saudar a resistência de todas as gestoras, das três esferas de governo, que passaram por nossas cadeiras anteriormente, é preciso ovacionar a coragem de quem ocupa esses espaços hoje. A ampliação da nossa representação em espaços de poder tem que ser associada às discussões da presença feminina na gestão, compreendendo suas dimensões e singularidades, para, quem sabe, perseverarmos ambientes mais acolhedores às outras tantas mulheridades que virão contribuir com o SUS.

Um abraço carinhosamente demorado em todas as gestoras que estão no Sistema Único de Saúde. O SUS é mulher e vocês são foda!

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