Consciência Negra:charges como ‘porrada’ para iniciar debate, diz Brum
Natal, RN 17 de jul 2024

Consciência Negra:charges como 'porrada' para iniciar debate, diz Brum

19 de novembro de 2023
9min
Consciência Negra:charges como 'porrada' para iniciar debate, diz Brum

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Promover a reflexão, gerar um humor pensante e crítico, e ir além da data específica do Dia da Consciência Negra. É assim que Rodrigo Brum, mais conhecido como Brum, cartunista brasileiro nascido em Maricá (RJ), define o objetivo da exposição “Consciência Negra – Charges do Brum e convidados”. A iniciativa teve início dia 16 e segue até 30 de novembro no Bar do Pedrinho, um espaço de cultura da capital potiguar.

Com 20 charges, a exposição retrata temas atuais da realidade brasileira, provocando reflexões e debates sobre a questão racial, desafiando estereótipos e promovendo a valorização da cultura negra.

É a “porrada” necessária para o leitor iniciar o debate sobre o tema. Um tema tão necessário e importante numa sociedade onde, infelizmente, as pessoas negras ainda enfrentam barreiras e preconceitos”, afirma Brum.

A ideia surgiu em meio às idas frequentes de Brum ao Bar do Pedrinho, um local imerso em cultura. A proposta de uma exposição ganhou forma quando Nélio, o proprietário, expressou interesse em ceder espaço para Brum. A temática da Consciência Negra foi sugerida, e Brum, ao perceber a relevância do tema, decidiu tornar a exposição ainda mais impactante. "Consciência Negra – Charges do Brum e convidados " nasceu da colaboração com 10 outros chargistas negros, buscando uma abordagem mais autêntica sobre as lutas e conquistas da comunidade negra no Brasil.

Brum explica que o processo de seleção foi simples: “era chargista e negro eu convidei. Chamei mais do que os 10 que estão participando”.  A ideia é “escutar quem sente tudo o que está sendo denunciado nas charges na pele, trazendo mais riqueza para a exposição com grandes nomes do traço”.

As charges que compõem a exposição são o resultado de um processo meticuloso. Brum buscou equilibrar a denúncia das dificuldades enfrentadas pela comunidade negra com a celebração do orgulho negro. A inspiração, muitas vezes, veio das injustiças e preconceitos ainda presentes na sociedade, mas também focou em destacar personalidades e elementos culturais positivos.

Procurei dividir o meu processo de seleção e criatividade, escolhendo/criando seis charges que falassem das dificuldades e outras seis que enaltecessem o orgulho negro”.

Brum destaca a arte, especialmente as charges, como uma poderosa ferramenta para promover diálogos sobre questões sociais. “Acabar com esse preconceito e tentar construir uma sociedade melhor para todos, com direitos e oportunidades iguais. Fazer minha parte nessa luta e inspirar que outros façam o mesmo”, pontua.

Para o chargista, a escolha de abordar temas relevantes por meio da arte visa alcançar um público mais amplo, estimulando a reflexão de maneira acessível e envolvente. Dessa forma, Brum avalia que a exposição proporciona uma abordagem única para discutir a questão racial, utilizando o humor e a crítica como catalisadores do debate.

"A arte nos deixa mais abertos para refletir, para discutir, para nos ensinar mais sobre determinado tema de uma maneira lúdica, gostosa de se ver," explica Brum.

No caso das charges, Brum destaca, ainda, o poder de fixação nas mentes, “seja por meio do humor, ou por meio da porrada que ela nos dá no peito. A charge fala o que muitas páginas de uma matéria muitas vezes não conseguem. Nos ensina muita coisa que as vezes não conseguimos captar nas maneiras tradicionais de ensino. Ela nos convida para o debate. E fica guardada para sempre em nossa mente. Uma maneira perfeita para se falar de um assunto tão importante como a questão racial”.

Por isso, a exposição não se limita ao trabalho individual de Brum, ela se torna um ponto de encontro de premiados chargistas negros, ampliando as perspectivas e as diferentes vozes.

As charges sempre tiveram como foco principal a denúncia das mazelas da sociedade e dos nossos governantes. E infelizmente vivemos numa sociedade em que as questões sociais ainda têm muito que melhorar, principalmente com os negros. Vivemos em uma sociedade onde a comunidade negra enfrenta diariamente uma batalha contra o preconceito, a falta de oportunidade, a violência e por aí vai. Então, o mínimo que um chargista consciente deve fazer são essas denúncias em forma da sua arte. É a arma que temos nessa batalha. Independente do chargista ser negro ou não, pois essa é uma luta de todos que desejam uma sociedade melhor para todos”.

Não à toa, os prêmios, como o Troféu Angelo Agostini e o Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, oferecem a Brum não apenas reconhecimento, mas também uma maior responsabilidade.

Para mim, toda premiação tem dois momentos: a euforia de saber que ganhei, que é algo maravilhoso, que comemoro, grito, choro, espalho pra todo mundo. Massageia meu ego e tenho o maior orgulho de todos que ganhei. E a segunda parte, quando a empolgação diminui e vejo o que tem por trás daquilo. Um prêmio nunca me deu a certeza que sou o melhor nisso ou naquilo, até porque, sei que isso não é verdade”.

O envolvimento com debates significativos ligados aos prêmios influencia diretamente sua abordagem artística, tornando-a mais sensível às questões sociais e aos direitos humanos.

Não tem como você participar de uma roda de conversa que antecede a premiação e não sair mais humano, mais focado nessas questões”.

Brum também falou sobre o impacto significativo das redes sociais em sua carreira. Para o chargista, o Instagram e Facebook proporcionaram uma visibilidade sem precedentes, conectando-o diretamente com o público. A interação instantânea, embora tenha seus desafios, aproximou o chargista dos leitores, transformando a relação entre o criador e o público em uma conversa contínua. O engajamento nas redes sociais se tornou uma parte essencial do processo criativo e uma ferramenta vital para promover discussões sociais.

Não existe mais aquela distância entre o chargista do jornal e o leitor. Hoje parece que somos amigos numa sala conversando”.

Além de chargista, Brum tem experiência como ilustrador, quadrinista e ex-colaborador da revista MAD.

Tudo isso tem um ponto em comum: a criatividade, A criatividade é algo que deve ser exercitada, senão acaba ficando fraca, virando lugar comum. É como qualquer profissão, a prática nos aperfeiçoa. E nas charges, além desse ponto em comum, tem um pouquinho de cada exemplo citado na pergunta embutido. Como ilustrador, exercito o traço que uso nos desenhos; com os quadrinhos, o poder de síntese na cena e roteirização fundamentais pra uma charge, e claro, com a MAD, o sarcasmo que faz toda diferença no trabalho de qualquer chargista. Mas diferente dos exemplos citados, as charges têm um ingrediente principal que é um fato e a crítica”.

Com uma trajetória profissional que inclui passagens por diversos jornais, Brum avalia que “ter trabalhado em diversas redações abriu um pouco a minha mente”, e hoje, “a necessidade de estar sempre informado, não só por conta das charges do jornal do Sindicato, mas também pelas charges diárias que faço, e a necessidade de exercitar minha criatividade devido ao trabalho como diretor de arte (e as charges, é claro), me faz passar o dia conectado em algum canal de informação. De vários lados. A informação é a base de tudo que faço”.

Sobre Brum

Brum é natural de Maricá-RJ. Formado em publicidade pela ESPM com especialização em direção de arte e redação. Discípulo de Daniel Azulay e fã de carteirinha da Laerte, Angeli e Henfil. Começou no mercado de cartuns fazendo caricaturas ao vivo. No RN, passou por diversos jornais do Estado e hoje, é diretor de arte, e faz as charges do jornal do Sindicato dos Bancários do RN. Membro do France Cartoons, participante de diversos salões de humor e exposições nacionais e internacionais. Ilustrador, quadrinista e ex-colaborador da revista MAD, tendo lançado diversos livros de quadrinhos e charges. Vencedor dos prêmios: Troféu Angelo Agostini (Melhor Cartunista em 2015), Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos (Artes em 2016 e 2018; Prêmio Destaque Continuado #somostodosaroeira em 2020 e Menção Honrosa em 2022), Concurso de Cartum “Nova Previdência Social: Melhor Para Quem?” (2º Lugar: 2019), Concurso de Cartuns Anti-Racistas promovido pela ARTIGO 19 e Coalizão Negra por Direitos (2020), Salão de Humor Sobre Doação de Órgãos (Menção Honrosa Charge em 2022 e 2º Lugar Charge em 2023) e Salão Internacional de Humor de Piracicaba (Menção Honrosa Saúde em 2023). Conheça o seu trabalho pelo Instagram @rabiscosdobrum e pelo facebook @brumchargista. E seus convidados são: Cau Gomez, Evandro Alves, Geuvar, Jeff Portella, Junião, Nei Lima, Netto, Rico, Vitor vanes e Ykenga, de várias partes do país.

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