Entre céu e rio/mar
Natal, RN 24 de fev 2024

Entre céu e rio/mar

25 de novembro de 2023
6min
Entre céu e rio/mar
Foto: Reprodução

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A Adélia Danielli

A viagem até o campo demoraria uma hora, mais ou menos. Ia com meu pai e meu irmão assistir ao campeonato de pipas que ocorria todos os anos num povoado perto da cidade onde morávamos. Levávamos um quite piquenique e nossa ansiedade.

Eu era uma garotinha de nove anos, e meu irmão, quase uma cópia minha. Nossa mãe passou a nos confundir novamente quando eu decidi querer ter os cabelos curtos como os do meu irmão. O que nos diferenciava: um pequeno sinal marrom clarinho em forma de coração que havia na minha bochecha direita. Vestíamos as mesmas roupas, só pra causar confusão. Isso nos divertia.

No carro, íamos conversando, relembrando o evento do ano anterior, falando sobre os ganhadores, descrevendo as pipas gigantes que haviam levado os três primeiros lugares, confabulando sobre as surpresas que encontraríamos esse ano.

Nosso pai ouvia música, REM, banda que tocava em nossa casa todos os dias. Sabíamos as letras de cor. Algumas vezes pausávamos nossa tagarelice para acompanhar as músicas. “There's no time to cry, happy, happy/ Put it in your heart where tomorrow shines/ Gold and silver shine/ Shiny happy people holding hands/ Shiny happy people holding hands/ Shiny happy people laughing/ Whoa, here we go” – cantávamos a todos pulmões, enquanto nos balançávamos loucamente no banco traseiro do carro.

Nossa mãe estava em viagem de estudos, terminando um doutorado sanduíche na Islândia, por isso não nos acompanhava. Quem fazia as honras de ser o copiloto do papai era nosso cachorro labrador Capuchino. Ele, nosso irmão canino, nos acompanhava na cantoria, assim como era cúmplice em tudo que fazíamos também. Capuchino recebera esse nome porque tinha a mesma cor de um café capuchino, a mesma cor do meu sinal em forma de coração. Com ele, formávamos um trio travesso! – era assim que nossa mãe nos chamava. “Se seu pai estiver junto, é um quarteto travesso”, dizia ela.

Após uns trinta minutos de viagem, começamos a ver os primeiros sinais de coisas coloridas flutuantes nos céus à nossa frente: eram as pipas gigantes. Nossa emoção era traduzida em gritos, olhos imensos brilhantes, dedos em riste para o céu, muitos “Olha!”, e uivos, afinal, Capuchino era um comparsa das nossas alegrias e travessuras. Nosso pai ria, cantava e uivava respondendo a Capuchino. Tudo era uma diversão só!

Quanto mais nos aproximávamos, maiores e mais nítidas ficavam as pipas. A maioria delas tinha formato de peixes e aves coloridas, coloridíssimas, que faziam volutas no céu como se fossem animais vivos flutuando ou nadando em um grande mar azul transparente, feito água de piscina, feito aqueles mares que a gente só vê em propaganda de viagem. Era assim o céu daquela manhã quente de férias de verão: azul transparente. (Tem essa cor?!)

Até que, finalmente, chegamos ao grande espaço aberto reservado para o evento. Em um dos lados havia um estacionamento, do outro uma espécie de parque gramado e cheio de pequenas árvores arbustivas que forneciam alguma sombra e acolhimento às muitas pessoas que se aglomeravam ao redor de seus quites piqueniques para ver aquelas belezuras que não paravam de colorir e se multiplicar naquela imensidão azul.

Estendemos nossa tradicional toalha quadriculada, abrimos nossa cesta (sim, tínhamos uma cesta igualzinha àquelas dos filmes americanos), e espalhamos sobre o xadrez vermelho e branco as guloseimas que meu pai havia comprado na padaria do bairro onde morávamos, cujas delícias sempre foram deliciosamente deliciosas. (Dá pra sentir o quanto elas são “delis”!?)

Resolvemos comer primeiro e depois caminhar até o descampado onde a exposição/competição de pipas gigantes ocorria. O dia estava ensolarado, o que fazia com que as cores do mundo se acendessem. As pipas pareciam bichos vivos, brilhantes e berrantes em suas combinações de cores e formas.

De cara pra cima, de dedos pra cima, olhávamos, apontávamos e nos encantávamos com toda beleza que a combinação daqueles peixes e aves de pano ou papel, em um mosaico ao mesmo tempo harmônico e caótico, em um fundo azul transparente, formava.

Não sei se devido ao sol, ou ao calor, ou à comilança que acabara de fazer senti uma vertigem... Não sei bem o que aconteceu depois... Lembro apenas do que minha memória criou (!?) e me deu de presente, uma experiência única: eu voava no dorso de um grande grifo de tecido translúcido entre as pipas, e elas, aves, peixes e outros seres de cor estavam vivas e conversavam entre si e comigo.

“Vamos menina, atravessar as nuvens!” – disse-me uma carpa alaranjada de boca escancaradamente grande. (Tive medo até que ela me devorasse!)

“Você não quer saber como é fazer um looping comigo?” – falou uma serpente marinha furta-cor de quem fiquei com um mais medo ainda. (Pareceu-me traiçoeira!)

“Vamos chegar pertinho do sol e depois mergulhar até quase chegar ao chão! Tem coragem?” – perguntou-me uma deslumbrante arara vermelha, amarela, azul e verde.

No dorso do grifo de tecido translúcido, prateado e preto, eu seguia voando.

De repente, o grifo mergulhou em um grande rio, um que havia por trás do espaço gramado com pequenas árvores arbustivas onde, há pouco, fizéramos nosso piquenique. No mergulho, soltei-me, mas antes que me desce conta, um grande cavalo-marinho dourado se aproximou de mim e ofereceu seu dorso para eu montar. Numa disparada, atravessamos o rio, também azul transparente. O cavalo nadava (ou era cavalgava?!) numa velocidade tão estonteante que fechei os olhos.

Quando dei por mim, estávamos em alto-mar. Sei disso porque, ao meu lado, uma imensa baleia azul abriu um de seus olhos de tecido pintado e sorriu um sorriso bobo, desses de baleias doces e bondosas desenhadas por crianças. Eram animais, eram peixes, eram pássaros, mas eram todos pipas e entre céu e rio/mar elas flutuavam, e eu, flutuava junto com elas, feliz, numa felicidade nunca sentida.

A baleia deu uma volta como se partisse, mas, quando parecia que tinha imergido para não mais voltar, fez uma manobra e velozmente veio em nossa direção. Amedrontada, achando que ela iria me devorar junto com meu lindo cavalo marinho, fechei os olhos novamente. Foi então que ela fez o que eu temia, abriu sua bocarra e nos sugou para dentro. Comecei a gritar e chorar... Foi quando, surpreendentemente, fui lançada pelo seu nariz em cima da cabeça (eu chamo nariz, porque acho que é um nariz) com uma força tremenda.

Desesperada, tentei me agarrar em qualquer coisa que tivesse sido cuspida (ou é assoada!?) junto comigo. E qual não foi minha surpresa quando senti uma mão que também se agarrava na minha. Num puxão simultâneo e recíproco, me agarrei com alguém. Diante de mim estava eu mesma, tremendo e toda molhada. Eu mesma?! Nããããão. Na minha frente, rindo e chorando ao mesmo tempo, descobri que quem estava vivenciando a mesma aventura que eu, era meu irmão.

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