A nova imprensa natalense reverencia o seu velho guru
Natal, RN 3 de mar 2024

A nova imprensa natalense reverencia o seu velho guru

29 de janeiro de 2024
5min
A nova imprensa natalense reverencia o seu velho guru
Foto: Reprodução Fecomércio SP

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Há algo de irônico na ocupação da antiga sede do jornal Diário de Natal/O Poti e da rádio Poti por ativistas da luta por moradia. Enquanto estiveram sob a chefia férrea de Luiz Maria Alves, diretor dos Diários Associados no Rio Grande do Norte, os dois veículos foram porta-vozes intransigentes da linha mais radical da ditadura instaurada pelo golpe civil-militar de 1964. Sindicatos, movimentos sociais, partidos e políticos alinhados com ideias e teses ditas esquerdistas – greves, anistia e abertura democrática, por exemplo – eram sistematicamente banidos de suas páginas e ondas, a não ser quando objetos de notícia que favorecesse a demonização ideológica praticada quase como regra de um invisível manual de redação.

 ‘Seu Alves’ tolerava mal – e chegou a punir com demissão pelo menos um que desafiou a proibição velada – a militância de classe dos jornalistas, embora mantivesse um editor de Internacional de trajetória abertamente esquerdista – e com imunidade perpetuamente renovada como dirigente sindical. A explicação talvez estivesse nos laços de amizade que remontavam à juventude de Alves e do editor ou em fraternidades outras.

Dizia-se que, instado sobre a contradição, saiu-se com blague análoga à do capo Roberto Marinho quando cobrado por expoente da linha dura pela presença de esquerdistas nas redações das Organizações Globo: “General, cuide o senhor dos seus, que, dos meus comunistas, cuido eu.”  

A rigidez ideológica imposta por ele ao noticiário dos jornais e da rádio produzia situações um tanto absurdas, como o descompasso entre a pauta e a edição do jornal. Era capaz de permitir a cobertura de assuntos que ele mesmo vetaria, antes até de o repórter escrever o texto. Lembro-me de uma reportagem derrubada por ele, quando eu já estava na redação escrevendo-a: uma entrevista com João Cabral de Melo Neto, feita com o fotógrafo Moraes Neto no antigo hotel Ducal, sobre o lançamento do livro Auto do Frade (1984), na livraria Clima do CCAB Norte. A justificativa de Alves: João Cabral era da ‘banda comunista do Itamaraty’.

Alves era um tipo comum de truculento: o exibicionista. Tinha sempre à cintura e sobre sua mesa um revólver calibre 38 municiado, como se vivesse a iminência de uma invasão do jornal e da rádio por comunistas. Como correspondente do Jornal do Brasil no Rio Grande do Norte, testemunhei a perplexidade de repórteres do Rio e São Paulo – que viajavam pelo país cobrindo a campanha de Paulo Maluf à Presidência da República no Colégio Eleitoral, em 1985 – ao depararem seguranças armados de carabina e escopeta na portaria do jornal e da rádio, quando o candidato lá esteve para dar entrevista. A explicação transformou em risível o que parecia inominável: Alves temia um atentado da esquerda a Maluf.

Durante três décadas, foi uma das figuras mais poderosas e temidas do estado, bajulado pela plutocracia potiguar e sua extensão no poder político, que chegou a fazer dele um suplente de dois senadores: o biônico Dinarte Mariz (1978) e o eleito pelo voto direto Lavoisier Maia (1986). Sua sagacidade empresarial era tão notória quanto seu reacionarismo. Em uma cidade com pouco mais de 400 mil habitantes (falo de meados da década de 1980), o Diário de Natal chegava a tirar 16 mil exemplares e O Poti, que circulava apenas aos domingos, até 25 mil. Tiragem rigorosamente auditada pelo IVC (Instituto Verificador de Circulação) e alimentada por ‘luxos’ como o de fazer o jornal chegar a todos os municípios potiguares, mesmo àqueles onde assinaturas e venda em banca não somavam mais que meia dúzia de exemplares.

Foi pioneiro na implantação do off set e da publicação de telefotos na imprensa potiguar, entre outras inovações tecnológicas, valendo-se da extraordinária capilaridade e do poderia econômico dos Diários Associados. Porém, esses signos de modernização tecnológica estavam a serviço de um jornalismo que, além do sectarismo politico-partidário e ideológico sem freios, tinha nas fotografias de cadáveres e manchetes sangrentas do noticiário policial o principal elemento de venda da primeira página.

O declínio progressivo do Diário de Natal/O Poti coincidiu com a sua queda, embora tenha causa também em fatores de mercado, como a chegada das tevês comerciais, que drenaram as receitas publicitárias dos veículos impressos. Sua saída dos Diários Associados deu-se ao cabo de um processo rumoroso e ainda por historiar em detalhes, mas que parece ter incluído uma tentativa de, associado a capitais locais, tornar-se controlador dos veículos, golpeando figuras majoritárias no que restara do condomínio estruturado por Assis Chateaubriand.

A digitalização da mídia, tal como se vê hoje, gerou vários miniclones de Luiz Maria Alves naquilo que deveria ser a imprensa natalense, mas subsiste, na vergonhosa maioria dos casos, apenas como contrafação de jornalismo, degenerado em entretenimento apelativo e outros expedientes de caçar cliques e banners. Assim como faria o seu guru insabido, eles já se esmeram em fazer arminhas – das baladeiras dos blogs às escopetas dos portais, nas resenhas pagas das rádios e nos circos de horrores dos telejornais – que apontam para a demonização sumária da ocupação e o justiçamento midiático dos movimentos e das lutas sociais.

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