Estudante travesti da UFRN fala sobre escolhas e respeito
Natal, RN 2 de mar 2024

Estudante travesti da UFRN fala sobre escolhas e respeito

21 de janeiro de 2024
7min
Estudante travesti da UFRN fala sobre escolhas e respeito
Fotos: Acervo pessoal

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Rose Chaves tem apenas 21 anos. Ela é filha de dois agricultores de Olho D’Água do Borges, uma pequena cidade com menos de 4 mil habitantes (3.905), na Região Oeste do Rio Grande do Norte. Depois de concluir o Ensino Médio em uma escola pública da cidade, ela deixou o sítio da família em 2022 para conquistar o sonho de entrar na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Poderia ser mais uma história comum de alguém do interior que sonha em entrar na faculdade. Mas, a realidade de Rose ainda não é tão comum assim.

Assim como na letra de Belchior, Rose ainda ‘era um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior’ quando deixou a casa dos pais. A jovem nasceu com o sexo masculino e foi, somente ao chegar em Natal, que se entendeu como travesti, passando a se vestir e a se comportar como tal. Inicialmente, os pais não entenderam a mudança e o preconceito em torno do assunto agravou ainda mais as dificuldades financeiras para a estudante se manter na capital.

Sou filha de dois agricultores do interior que sobreviviam de um mercadinho muito pequeno, uma bodega, que só dava prejuízo. Meu pai é agricultor, vai pro sítio às 4h da manhã, volta ao meio-dia para almoçar, e depois só retorna à noite. Minha mãe é doméstica e agricultora, trabalha em casa e na roça quando precisa. Eu vim desse contexto”, conta.

Para sobreviver, inicialmente, contava com a ajuda da mãe que enviava algo em torno de R$ 200 por mês.

Mas eu pagava um aluguel de R$ 250 num apartamento que eu dividia com mais quatro pessoas. Fizemos um sorteio pra levantar dinheiro e eu consegui vir pra Natal e me manter nos primeiros meses, mas foi tenso, não tinha RU [Restaurante Universitário, onde estudantes de baixa renda podem ser isentos de pagar pela refeição ou pagar preços mais baixos]... então passei fome, literalmente, calada por meses”, relembra a universitária.

Um dos apoios mais significativos para Rose nessa fase foi o de uma tia e da irmã, que continua morando em Olho D’Água do Borges.

Quando ela soube que eu era a ‘Rose’, trocou o nome do contato do WhatsApp. Aquilo teve tanto significado para mim. Ela é uma das pessoas que mais amo, não teve como entrar dentro do ensino superior porque foi mãe cedo, mas me ajudou muito aqui em Natal”, reconhece.

Atualmente, os pais de Rose lidam bem com a identidade de gênero da filha e, quando podem, viajam até Natal para fazer uma visitinha.

“Meu pai tem um coração bom, diferente do das pessoas que vivem na cidade. Deve ter sido duro para ele ouvir que tem uma filha travesti, principalmente, sabendo que ele é homem e tem contato com muitos outros homens. No interior, o machismo reina. Eles tentam compreender, foram criados por pessoas mais velhas, não tiveram o ensino fundamental completo, não compreendem do que se trata uma pessoa trans”, pondera Rose.

A virada de chave

As coisas só começaram a melhorar para a estudante do curso de Nutrição da UFRN conforme ela foi se integrando à universidade.

Graças a Deus, ao CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - é uma entidade ligada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações para incentivar a pesquisa no Brasil] e ao apoio assistencial que tive da UFRN, tive a oportunidade de ter comida, dinheiro pro aluguel (moradia de R$ 300 e a bolsa de R$ 700 do CNPq). Não diria que sou privilegiada, mas hoje tenho condições de comer, comprar meus remédios e, às vezes, de ter algum lazer”, comemora Rose que, atualmente, faz parte de um grupo de pesquisa.

Referências

Ao contrário dos estereótipos que retratam a mulher como uma pessoa feminina e delicada, Rose conta que sempre observou na família a prevalência de mulheres fora desse perfil, o que lhe serviu de referência, também, na construção da própria personalidade.

Rose (meio) ao lado de outras amigas trans na Faculdade de Nutrição

“Toda travesti é uma mulher trans, mas nem toda mulher trans é uma travesti. Isso se dá pelo fato de um travesti ser uma forma de você ser uma mulher, mas você não se prende àquilo. As mulheres da minha família são muito diferentes daquelas comuns, que são bem femininas, que são pessoas bem calmas e tudo mais. Minha família é repleta de mulheres que têm um perfil forte, de garra, e isso se assemelha ao que é ser uma travesti, porque ela não se prende apenas àquilo que é uma mulher para a socialidade, ela também incorpora de forma concreta as qualidades que enxerga  naquelas mulheres que não são tão bem vistas. Então, a gente meio que é a representação da mulher cotidiana, eu diria”, analisa Rose.  

Então, enquanto mulher trans que sou uma travesti, vindo do interior para cá, passar meses sem me alimentar direito, ter que passar por diversos tipos de constrangimentos, principalmente, com relação ao tratamento de professores, ou até mesmo de pessoas que estavam no meu convívio, com relação ao meu nome, com relação ao pronome fez com que eu sentisse a necessidade de discutir, ainda mais, o que seria uma travesti”, acrescenta.

Inspiração

Se um dia eu voltasse a nascer, queria ser mãe de uma travesti
Estaria ao seu lado desde os primeiros passos da infância
Lhe daria todos os beijos que lhe faltaram quando criança em outra vida
Leria todas os seus contos de animação
Lhe abraçaria todos os dias
Contaria o quanto a amo
Diria o quanto a vida é bela quando estamos com quem amamos
Não precisaria chorar tanto
Não cresceria com tanto sofrimento
Seria uma menina feliz

(Poema de autoria de Rose Chaves)

Para Rose, falar da própria história, e divulgar sua trajetória, é uma forma de encorajar outras pessoas, que se encontram em dificuldade, a não desistir. Uma de suas motivações é as pessoas compreenderem e, sobretudo, respeitarem as escolhas de cada um. Inclusive por ser algo garantido na própria Constituição Federal. Por essa razão, insistiu em ser personagem de uma matéria: para mostrar como é o dia-a-dia de uma pessoa em sua condição, dentro e fora da Universidade.

Após ele saberem que eu era um travesti, passei dois anos distante deles e, praticamente sozinha. Eu tinha amizades, mas a gente sabe que o apoio familiar é muito importante. Essa realidade não se prende só a mim. Faz parte da vida de diversas mulheres trans e travestis que constituem a comunidade trans da UFRN e que, de certa forma, arcam com a falta de respeito de uma parte da população, que não compreende ou não se sente comprometida com o respeito em si dessas pessoas.

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