Sobre homens, mulheres e dois pacotes de bolacha com requeijão
Natal, RN 26 de fev 2024

Sobre homens, mulheres e dois pacotes de bolacha com requeijão

16 de janeiro de 2024
4min
Sobre homens, mulheres e dois pacotes de bolacha com requeijão

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Não, eu não assisto BBB 24, como nunca assisti. Mas, sim, sei o que está se passando lá na casa porque acompanho redes sociais e não sou alheio ao mundo, ao que comentam, aos interesses das pessoas. Ademais, mesmo com ojeriza ao programa não caio mais na armadilha de achar que quem o assiste é alienado e intelectualmente inferior. Além disso sei de longe e sei de cor que quem repudia o programa nem sempre (na verdade quase nunca) lê um livro ou escuta uma sinfonia de Beethoven enquanto o BBB está sendo transmitido.

Dito isso, vamos ao ponto. A celeuma da semana do programa foi uma frase do cantor Rodriguinho a respeito do corpo da modelo Yasmim Brunet. Assistindo ao vídeo vemos o cidadão dizendo a um parça: “você percebe que ela está mais velha, percebe que ela largou mão (da forma física). Hoje ela comeu dois pacotes de bolacha inteiro com requeijão, ela sai comendo toda hora".

Parece uma banalidade, uma fofoca de gente ociosa numa casa de luxo mas, assim como em uma cebola, há varias camadas para além da "preocupação" do rapaz para com a saúde, digamos, da colega de programa.

A primeira camada, que foi imediatamente detectada pelo tribunal nas redes sociais é quase cômica e pende para as obviedades: a moça que come toda hora é jovem e bonita de rosto e corpo, aquilo que se chama de beleza padrão feminina. O crítico dela está visivelmente fora de forma e não está dentro dos padrões de beleza masculina e muito menos de saúde.

A segunda camada, atrelada ao primeiro ponto, mas já entrando em complexidades é o rigor excessivo, quase doentio mesmo, de boa parte dos homens em relação ao corpo das mulheres. Escaldado por centenas de papos de bar com amigos e conhecidos já constatei que homens em geral sobre o corpo feminino não gostam de: estrias, celulite, quilos a mais, quilos a menos, cabelo curto demais ("parece um homenzinho") e nem comprido demais ("parece uma crente"), nem alta demais nem baixa demais, dedos do pé grandes (um amigo meu confessou que perdia o tesão na mulher com essa particularidade)… e ainda sobre o comportamento feminino (tipo o infeliz no BBB com o "ela sai comendo toda hora") homem em média nao gosta de mulher que fala alto demais, que gesticula demais, que fala palavrão, que fuma, que gargalha alto, que bebe demais, que bate papo com garcons etc. Enfim, sobrou pouca coisa para que os homens aprovem as mulheres à sua volta não é? Como diz uma amiga, os homens nao gostam de mulheres reais, mas sim da Barbie, e da boneca antiga, pois a do filme já está empoderada e insubmissa aos padrões.

Mais camadas: enquanto os homens se perdem nessa utopia/babaquice de desejar uma mulher "ideal" as mulheres também se perdem nesse processo que envolve auto aceitação, auto estima e necessidade de conexão. Li dia desses desabafo nas redes sociais de uma amiga que "homens hétero se colocam como avaliadores de mulheres na prateleira do amor". E que "autoestima de homem nunca é nivelada pela opinião da mulher, mas sim por outro homem". Pura verdade, infelizmente.

Neste sentido toda mulher ao redor deve ser avaliada até como possível "troféu" já que no sistema de valores histórico da masculinidade (tóxica, registre-se) a aquisição de um carro caro e potente gera status perante os colegas, assim como a "aquisição" de uma mulher, que, para causar inveja nos demais, tem que estar no padrão da cobiça alheia: ou seja, bonita, gostosa, quase perfeita. Não uma, por bonita que seja, que saia comendo pacotes de bolacha com requeijão pela casa como Yasmin, para desespero (e despeito) do pobre Rodriguinho, incapaz de lidar com a ideia de que uma mulher não queira se manter "gostosa" para o padrão visual dele e do macharal da casa. Como se diz de maneira debochada nas redes sociais, parece que tem homem que faz força para gostar de mulher.

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