A democracia do terror
Natal, RN 23 de fev 2024

A democracia do terror

2 de fevereiro de 2024
6min
A democracia do terror
Foto: Agência Reuters

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Após a decisão da Corte Internacional de Justiça que acatou a plausibilidade jurídica da acusação de genocídio impetrada pela África do Sul contra Israel não demorou muito para que o ocidente se manifestasse.

Seguindo os EUA (o dito “líder do mundo livre”), França, Alemanha, Japão e mais outros vassalos, anunciaram que iriam cortar a ajuda para a UNRWA (Agência da ONU para refugiados palestinos). 

Paralelo a isso, Israel pôs em curso sua máquina de propaganda de guerra (espero não ser acusado de antissemita aqui) para desqualificar a agência e a própria ONU e espalhar ideias conspiratórias como a de que organizações internacionais “treinavam crianças palestinas para serem terroristas”.

Seguindo o caminho que leva o ocidente ladeira à baixo no campo da moralidade política, as ações dos EUA e de sua vassalagem parecem, especialmente no caso palestino, seguir a máxima que diz: “no fundo do poço, tem uma pá pra gente cavar mais”.

A contradição abissal entre a reação ocidental contra a invasão da Rússia à Ucrânia e o apoio incondicional aos planos genocidas do governo Netanyahu, marca, nesse começo de segunda década do século XXI, o sintoma da falência da tal democracia liberal como modelo ideológico de dominação.

Pense um pouco...

Imagine, como fez em artigo recente Hamid Dabashi, professor de literatura comparada na universidade de Columbia, em Nova York; que os iranianos, com apoio do Hezbbolah, da Síria e das milícias xiitas do Iraque, cercassem Tel Aviv impedindo a entrada de ajuda humanitária e condenando a população a morrer de fome. Obviamente não sem antes terem despejado toneladas e toneladas de bombas, terraplanando e demolindo bairros inteiros da capital israelense. Visualize agora também, vários membros do governo iraniano aparecendo nos telejornais de Teerã e em redes sociais, discursando em persa, sugerindo que a população Israelense, do rio ao mar, fosse deslocada para o deserto, para um ilha artificial no meio do mediterrâneo ou mandada de volta para os diversos países europeus de onde parte de seus ancestrais supostamente teriam emigrado.

Suponha, nesse exercício de imaginação política, que aliado a isso, os membros da guarda revolucionaria iraniana, após bombardear escolas, sinagogas e hospitais, invadissem Tel Aviv e começassem a sistematicamente alvejar mulheres e crianças, prender homens de várias idades (exibindo-os algemados e de cuecas, com a cabeça envolvida em sacos) e matar jornalistas israelenses em quantidades nunca antes registradas na era das guerras modernas.

Qual seria a reação do ocidente liberal numa situação dessas?

O lugar comum da ciência política que afirma ser o modelo democrático (cujos EUA e a Europa ocidental seriam, hoje, os representantes mais “perfeitos”)  o “pior sistema com exceção de todos os outros”, se baseou na noção metafísica de que existiria algo chamado “humanidade” e que a existência dessa tal “humanidade” levaria à formação de direitos fundamentais, inalienáveis, universais e irrevogáveis, por qualquer dispositivo de direito positivo. Todos os “homens” nasceriam assim livres e iguais em direitos, sendo a eles facultados o direito fundamental à vida, à liberdade e à busca da felicidade (além, obviamente, o direito da manutenção sagrada da propriedade privada dos meios de produção da riqueza social).

Toda uma arquitetura ideológica que justificaria a superioridade civilizacional do “ocidente democrático” foi edificada em torno dessa ideia, que serviu, durante quase um século, entre outras coisas, para justificar os processos de dominação neocoloniais na África, Ásia e América Latina.

A ação brutal de Israel em Gaza e a limpeza étnica chancelada pelo ocidente contra os palestinos está colocando em cheque essa arquitetura ideológica. A sensação que toma conta hoje, especialmente no chamado “sul global”; é a de que a tal “ordem internacional baseada em regras” pensada pelos artífices neocons estadunidenses como elemento de construção de um “novo século americano” após o colapso da União Soviética, não é nada mais do que uma versão atualizada dos discursos racistas de dominação colonial que frutificaram até a década de quarenta do século passado.

Diante da percepção dessa obscenidade política e dessa contradição fundamental do discurso liberal a gente pensa imediatamente: a democracia fracassou.

Mas precisamos evitar a tentação de enxergar a catástrofe de Gaza como um sintoma de fracasso das democracias ocidentais. E se, ao invés de fracasso, o genocídio palestino e a limpeza étnica que está em curso, do rio ao mar, forem o sintoma do sucesso dessa mesma democracia?

Um sucesso colonial que implicaria o fim da nação palestina e a criação de uma “grande Israel”, que posteriormente implicaria na anexação de partes do Líbano, da Síria e até do Iraque? Ao invés de ser enxergado como um resíduo, um desvio da ordem democrática, o genocídio se tornaria então, parte fundamental do projeto colonial que moveu o ocidente e seria, no fundo, sua verdade mais essencial.

Uma percepção desse tipo mostraria o terror que existe nas bases da democracia liberal, pensada por filósofos europeus entre os séculos XVII e XVIII e implantada como projeto ideológico de dominação global nas três últimas décadas, por teóricos das mais prestigiadas universidades europeias e norte americanas.

Haveria então um “terror democrático”, um “genocídio humanista”, uma “limpeza étnica civilizada” que seria moralmente justificada como parte essencial de um mundo governado por valores ocidentais.

É certo que, num caso desses, a própria ideia de um ordem democrática não se sustentaria e a plutocracia financeira branca (da qual muitos sionistas fazem parte) poderia então abandonar os pruridos democráticos mais embaraçosos e ampliar o alcance da repressão política contra seus críticos, quer sejam internos ou externos.

O que talvez a gente esteja começando a ver, amigo velho, nessa segunda década do século XXI, é o colapso dessa tal “ordem democrática”, baseada no recurso ideológico liberal que foi comprado pela burguesia europeia e que serviu, não apenas como uma justificativa da escravidão e da colonização racista, mas também para a implantação desse projeto de dominação global ocidental que parece dar sinais de esgotamento.

“Escravizar, explorar, evangelizar e, por fim, exterminar”. Provavelmente será esse o lema que vai sobrar quando a fumaça de uma Gaza destruída baixar sobre os escombros das cidades destroçadas e a história fizer o apurado da ação das democracias ocidentais diante desse genocídio brutal que enterra, junto com os corpos das milhares de crianças palestinas mortas, os últimos suspiros do discurso liberal e da tal “ordem baseada em regras”, propagada por essa tal “civilização” ocidental.

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