Mais do mesmo na micareta golpista: deus, família e Israel cristão
Natal, RN 16 de abr 2024

Mais do mesmo na micareta golpista: deus, família e Israel cristão

26 de fevereiro de 2024
5min
Mais do mesmo na micareta golpista: deus, família e Israel cristão
Foto: Joaquim de Carvalho/TV 247

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Havia decidido curtir o domingo e não ler muito ou escrever sobre a micareta golpista convocada por Jair Bolsonaro para o dia 25 na Avenida Paulista, em São Paulo. Após o domingão entre praia, gente querida, comida e bebida, me detive nesta segunda para me informar sobre o, digamos, evento político e arriscar umas mal traçadas linhas sobre o tema.

Primeiro vamos ao conteúdo "político". Por determinação (e medo) do próprio Bolsonaro, não se levou faixas, cartazes nem nada que configurasse pedido de golpe de Estado ou ódio ao STF e a Lula e ao PT. Nas próprias falas, apenas o famigerado Silas Malafaia insistiu nisso, os demais ficaram nas variações sobre o mesmo tema: deus, pátria, família, blá blá blá e etc e tal, abrangendo aí Israel, Bíblia, combate a "ideologia de gênero", homofobia, racismo, antipetismo, enfim a salada louca que forjou (ou foi formatada) pelo bolsonarismo.

Em segundo lugar vamos aos fatos e às narrativas. A organização apostou em levar 700 mil pessoas à Paulista, a PM (de Tarcísio Freitas, bolsonarista) cravou 600 mil e a USP através de metodologia científica bateu o martelo em 165 mil, que é mais provável que os 40 mil que blogs de Esquerda afirmaram, mais com torcida do que com jornalismo. Lembrando que a Parada LGBTQIA+ leva 1 milhão de pessoas para a Paulista todos os anos e o Reveillon, 2 milhões. Enfim, seja como for, os números além de serem além do esperado pela organização não mudam em absolutamente nada o quadro macro político do país nem o cenário jurídico (onde Bolsonaro é inelegível por decisão do TSE e investigado pela PF por diversos crimes).

Contudo, também não se deve cair na armadilha de menosprezar a extrema-direita. Ela continua se articulando muito bem com o segmento evangélico, graças também a vendilhões do templo picaretas como Silas Malafaia e Edir Macedo (que viram desde antes de 2018 que colar em Bolsonaro e apostar no antipetismo era uma forma de aumentar poder e ampliar os negócios). Nas eleições municipais deste ano, esse pessoal unido (elite financeira + militares + evangélicos) pode eleger muitos prefeitos e vereadores pelo Brasil afora e dar trabalho em 2026. Possivelmente com Bolsonaro inelegível, desgastado, sem peso político, talvez preso, mas ainda como o vetor de uma "luta sagrada", já que esse pessoal colocou a questão não como política mas na esfera do sobrenatural. Tanto que o discurso de Michelle não se referiu uma vez à "política", "democracia", "povo" ou "cidadania" mas apenas a "Deus", "pátria", "justiça divina" e Israel, claro, o estranho fetiche dos evangélicos modernos e bolsonaristas.

Por falar em Israel, cuja bandeira (seja a certa com a estrela de Davi com seis pontas seja uma com cinco pontas) foi onipresente na micareta, a ironia do termo se torna certa quando observamos que essas manifestações pró-Bolsonaro sempre se tornam uma espécie de grande festa geriátrica, com os tiozãos e tiazinhas do zap se deixando ver pessoalmente, fardados com camisas da CBF e pinturas em verde e amarelo, sempre alegres e falantes, como se estivessem numa festa (na verdade estão). Sobre esses, como já escrevi aqui, não mudarão de ideia sobre Bolsonaro nem se aparecer um video com ele cometendo um crime, são pessoas que, pela visão conservadora da vida, aderiram ao antipetismo (pois a Esquerda deseja uma inclusão de minorias que eles não aceitam) e viram desde 2018 em Bolsonaro uma personificação de seus pensamentos e preconceitos. Na cabeça desse pessoal - que acha que Israel é um país cristão e que acredita que a vacina pode inocular um chip - um golpe de Estado não é crime, afinal, a Esquerda comunista tem que ser presa e exterminada e Bolsonaro tem o direito divino de ser presidente, sendo sucedido, claro, pelo filho Eduardo, todos governando sem "esses canalhas do STF".

Que fique bem claro que os bolsonaristas pensam assim no seu universo mental binário e medieval. Já o próprio Bolsonaro não acredita em nada disso, só quer não ser preso e continuar andando de moto e jet ski com a família usufruindo os muitos imóveis comprados com dinheiro vivo.

PS: Na foto que ilustra o texto as doces senhorinhas que, em vídeo que já roda o mundo, afirmaram defender Israel por também ser "um país cristão".

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