O ecossistema da desinformação e o seu uso político
Natal, RN 29 de fev 2024

O ecossistema da desinformação e o seu uso político

11 de fevereiro de 2024
11min
O ecossistema da desinformação e o seu uso político
Foto: institutodeengenharia.org.br

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Diversos especialistas têm chamado a atenção para as falhas na comunicação do governo Lula. Em que pese à importância da reconstrução do Estado brasileiro, depois dos dois governos desastrosos que o antecederam, o país voltou à normalidade democrática, com o retorno de investimentos em obras, políticas públicas ( novo Bolsa Família no qual seus beneficiários tem acesso gratuito  a 40 medicamentos do Farmácia Popular), do  Minha Casa, Minha Vida  (quem recebe Bolsa Família não paga parcelas e 3 milhões  saíram da pobreza extrema em 2023).

Além disso, a inflação  diminuiu  e está sob controle, a taxa de desemprego caiu a 7,8%, menor nível desde fevereiro de 2015, houve um crescimento do PIB,  o país subiu 18 posições no ranking da liberdade de imprensa em 2023 (índice estabelecido pela ONG Repórteres Sem Fronteiras),  e também foi sancionada pelo presidente Lula a lei de igualdade salarial entre homens e mulheres na mesma função.

Há outras igualmente importantes  como a aprovação da Medida Provisória para taxar super-ricos, criação do primeiro Ministério dos Povos  Indígenas, o resgate da tradição da política externa de diálogo com diferentes países e organismos, recolocando o Brasil no cenário internacional, abandonado no governo anterior, enfim avanços na área da cultura, direitos humanos, economia, saúde (numa situação de “terra arrasada”, o retorno do programa de cobertura vacinal, o relançamento do programa  Mais Médicos – com recorde de inscrições -  a criação de um programa para reduzir as filas do SUS e  a recriação do Farmácia Popular).

Tem havido também investimentos na área de Educação (os recursos do MEC em 2023 aumentou 30% em relação a 2022 que, como disse o ministro da Educação “vão permitir 100 novos Institutos Federais,  expansão das universidades, bolsas de permanência  para  indígenas e quilombolas que ingressarem no ensino superior, criação do programa Escola em Tempo Integral etc.), em Ciência e Tecnologia (em 2023 o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico teve seu orçamento  recomposto,  com R$ 10 bilhões em execução integral (http://www.assufba.org.br/novo/brasil-impulsiona-investimentos-em-ciencia-e-tecnologia-sob-governo-lula/).

No entanto,  informações sobre esse conjunto de  ações, avanços etc., ao que parece, não tem chegado à população em geral, a considerar as pesquisas de popularidade do presidente,  mantendo praticamente os mesmos índices de aprovação do início do governo.

O que explica? Um dos motivos é que uma parte expressiva da população ainda está submetida ao ecossistema de desinformação (ações deliberadas para confundir ou manipular pessoas por meio de transmissão de desinformações) e que se articula e se estrutura como um projeto político e a extrema direita tem sido muito mais competente e eficaz no uso (e abuso) das redes sociais.

Eliara Santana no artigo A teia da mentira, publicado no dia 1 de fevereiro de 2024 na revista Carta Capital considera o ecossistema da desinformação como “uma organização complexa e dinâmica que não se restringe apenas à ação de espalhar noticias falsas”. E destaca um aspecto relevante, consolidado no governo Bolsonaro: “Trata-se de uma rede profissional organizada para produzir e espalhar conteúdos falsos, em várias vertentes, como muitos atores envolvidos e farto financiamento público”.

Os conteúdos produzidos por esse ecossistema teve e continua tendo impactos significativos na democracia brasileira, como fake news e desinformação sobre urnas eletrônicas , vacinas etc.

Foi assim durante a pandemia com mentiras sistemáticas sobre vacinas (De acordo com a Organização Mundial da Saúde as campanhas de desinformação sobre vacinas foram responsáveis pela queda da imunização e a volta de doenças erradicadas no mundo e no Brasil em particular),  em relação às eleições, mentiras sistemáticas e intencionais, como ocorreu em 2018 e que foi de fundamental importância para a vitória eleitoral da extrema direita na eleição presidencial. Para citar apenas um exemplo: o chamado Kit Gay que teve inegável impacto em expressivos segmentos da população e mesmo desmentida, entre outros, pela agência de checagem Aos fatos (https://aosfatos.org/noticias/e-falso-que-haddad-criou-kit-gay-para-criancas-de-seis-anos/)  continuaram  a circular e serem produzidas nesse ecossistema da desinformação como também ocorreu nas eleições de 2022 (sobre urnas eletrônicas etc.,) e que pavimentou o caminho para  os atos de vandalismo  do movimento golpista do dia 8 de janeiro de 2023 no Distrito Federal.

Ele foi irrigado por um ambiente de constantes ataques não apenas às urnas eletrônicas, como as instituições democráticas, e  evidenciou  o impacto das notícias falsas sobre o comportamento e as preferências políticas de  uma parcela da sociedade, muitas beneficiárias, mas também muitas  vítimas da desinformação.

O  Laboratório de Estudos de Internet e Mídias Sociais da UFRJ, Net Lab, iniciou em 2021 uma pesquisa com o objetivo de mapear as narrativas desinformativas que antecederam às eleições de 2022, como as alegações de fraudes nas urnas e a ideia de que as pesquisas de opinião eram manipuladas para desfavorecer Bolsonaro e mostram como essas narrativas foram elaboradas, difundidas e compartilhadas desde 2021 e tiveram impacto nas eleições e depois dela.

Naquele momento, os grupos de WhatsApp eram os principais instrumentos de propagação de fake  news, incluindo grupos de família (Os dados de uma pesquisa  feita pelo Monitor do Debate Político no Meio Digital, da USP -Universidade de São Paulo -  constatou  que  metade dos boatos que circularam sobre o assassinato da vereadora Marielle Franco foi em grupos de família). (https://www.bbc.com/portuguese/brasil-43797257).

O aplicativo é considerado como uma das redes mais propícias para a difusão de notícias falsas  porque as mensagens são privadas, sem caráter público e difíceis de rastrear, mas também foram (e continuam sendo) utilizados em outras plataformas, como o Telegram.

É que mostra o relatório da pesquisa Democracia Digital – Análise dos ecossistemas de desinformação no Telegram durante o processo eleitoral brasileiro de 2022,  realizada entre os dias 1 de agosto a 15 de setembro de 2022 e cita a mobilização pelo aplicativo de grupos de extrema direita em relação ao dia 7 de setembro, na preparação para um golpe, com conteúdos incitando a descredibilização do processo eleitoral e ruptura com as instituições democráticas.

Nesse período foram coletadas 1.794.169 mensagens em 170 grupos e 253.328 em 445 canais do Telegram, perfazendo um total de 2.101.112 mensagens, numa média de 46.691 mensagens diárias.

Além dos ataques às urnas eletrônicas, ao STF, TSE etc., “estão presentes, ainda, menções a eventos externos à agenda de extrema direita, indicando que o ecossistema do Telegram está permeável e fortemente reativo aos acontecimentos de outros espectros do campo político”.

O ecossistema da desinformação não apenas alimentou grupos existentes como também criou outros, como por exemplo, para organizar manifestações antidemocráticas, motivados por fake news (https://internetlab.org.br/wp-content/uploads/2022/09/telegram-02-relatorio-03.pdf).

Uma pesquisa realizada por Felipe Bailez e Luis Fakhouri, fundadores da Palver, plataforma que fez parte da força-tarefa do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra desinformação na campanha eleitoral de 2022 e que monitorou 15 mil grupos de WhatsApp  mostrou como o ecossistema da desinformação - que em 2018  ajudou a eleger o candidato de extrema-direita -  se consolidou  com a sua vitória, e continuou a atuar nos quatro anos de seu governo. 

Como ressalta Eliara Santana no referido artigo (A teia da mentira) a extrema direita entende a importância da comunicação, da “potência da construção de narrativas e sua força no ecossistema da desinformação”, e sabe o poder da desinformação para dar suporte a projetos políticos autoritários, explorando as redes sociais como plataforma para comunicação política e que “as dinâmicas de desinformação não se dão de modo desarticulado, mas são resultados de produção cuidadosa e é retroalimentada por vários outros sistemas que apoiam o bolsonarismo, como parte do universo religioso e parte do midiático, ou seja, ela circula, tem capilaridade e ganha credibilidade”.

Pesquisas em Psicologia Social  mostram que  existe uma predisposição de determinado público para acreditar em mentiras, presos em suas bolhas, submetidos ao chamado viés da confirmação, que é a tendência a buscar e privilegiar informações que estejam de acordo com suas crenças pré-estabelecidas, pouco importando se  são verdadeiras ou  não.

Mas as redes sociais não são o único instrumento usado pelas campanhas de desinformação: elas fazem parte de um sistema de comunicação mais amplo, que inclui parte do universo religioso, diferentes plataformas (WhatsApp, Telegram, Facebook, Instagram, Twitter, YouTube, etc.), mas também  nos meios de comunicação tradicionais,  como o sistema de rádio, televisão e jornais impressos (e digitais), alinhados aos discursos (e práticas) do campo político, econômico e ideológico da extrema direita.

E quem utiliza as plataformas digitais? De acordo com o Indicador de Analfabetismo Funcional (Inaf, do Instituto Paulo Montenegro) - que acompanha os níveis de analfabetismo no Brasil em uma série histórica desde 2001, e que pela primeira vez, em 2018, trouxe informações relacionadas ao contexto digital -   “três em cada 10 brasileiros na faixa de 15 a 64 anos são considerados analfabetos funcionais – ou seja, apresentam limitações para fazer uso da leitura, da escrita e da matemática em atividades cotidianas. Isso inclui, por exemplo, reconhecer informações em um cartaz ou fazer operações aritméticas simples” e portanto,  têm capacidade limitada para ler, interpretar textos.  No entanto, esse grupo é muito ativo nas redes sociais.  Segundo a com a pesquisa “mesmo com suas dificuldades, os analfabetos funcionais são usuários frequentes das redes sociais. Entre eles, 86% usam WhatsApp, 72% são adeptos do Facebook e 31% têm conta no Instagram” (https://revistaeducacao.com.br/2018/08/08/tres-em-cada-10-brasileiros-sao-analfabetos-funcionais-1)

Uma matéria publicada por Gabriela Villen no dia 20 de agosto de 2020, entrevistou Leda Gitahy, professora do Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT) da Unicamp e coordenadora do Grupo de Estudo da Desinformação em Redes Sociais (EDReS), que afirma: “As mensagens que viralizam  nas nossas redes sociais não tem a espontaneidade que aparentam. Elas são cuidadosamente construídas, usando estratégias de marketing e contam com uma base de lançamento estruturada, o que possibilita sua difusão rápida e articulada”.

A matéria foi publicada no auge da pandemia e como ela afirma desde o seu início “este mecanismo utilizou  narrativas de negação da doença que minimizam sua capacidade de transmissão ou letalidade”, indicando (e até mandando produzir) remédios ineficazes (para a covid) como hidroxocloquina  e destaca a existência de um ecossistema “que usa a desordem da informação em seu favor e a provoca ativamente. Ele é intencional, organizado e tem muito dinheiro”.(https://www.unicamp.br/unicamp/noticias/2020/08/20/o-ecossistema-da-desinformacao).

Uma iniciativa importante para compreender o ecossistema da desinformação foi à criação do Observatório da Desinformação na Unicamp que visacompreendero fenômeno da desinformação no país.

No artigo A comunicação no governo Lula (A Terra é Redonda, 8 de fevereiro de 2024), o professor de filosofia da USP e ex-ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro,  afirma que não há empenho do PT ou do governo, em suplementar o carisma de Lula por uma comunicação que vá aos afetos das pessoas  e que o PT “perde de goleada no uso das redes sociais” no qual “quem deita e rola é a extrema direita, que percebeu a possibilidade enorme da mentira, e dela faz uso e abuso”, ou seja, é preciso ir além da capacidade pessoal de comunicação de Lula.

Um aspecto fundamental para se combater o ecossistema da desinformação é o enfrentamento de forma eficaz, do uso (e abuso) das redes sociais pela extrema direita e pesquisas e observatórios como os citados, são importantes porque  contribuem para a compreensão desse ecossistema e suas consequências para a democracia no Brasil.

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