A Cidade Alta está em baixa!
Natal, RN 16 de abr 2024

A Cidade Alta está em baixa!

3 de março de 2024
6min
A Cidade Alta está em baixa!
Foto: Acervo do autor

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Falar sobre o centro da cidade, ou então a cidade alta é um tema que muito mexe comigo. Pois desde os tempos de adolescente, em meados dos anos 2000, quando estudei numa escola ali na avenida Deodoro da Fonseca, ao final das aulas caminhava até a parada do Baldo (embaixo do viaduto), pegava o 44, uma das dezenas de linhas de ônibus extintas em nossa cidade. Era uma longa e divertida viagem que fazia desde a Cidade, passando pelo Alecrim até chegar no bairro de Cidade Satélite, onde morei por quase 15 anos.

Foram bons tempos de adolescente em que perambulava pelos quatro cantos desse que é um dos bairros mais importantes da nossa cidade do Natal. A Cidade Alta fervilhava de tanta coisa que tínhamos para ver, visitar e, inclusive, contemplar. Foram muitas saídas após a escola, incluindo uma leves fugidas das aulas de física (que nunca consegui gostar, confesso), para passear com os amigos. Quantas vezes fomos às Lojas Americanas para vermos os lançamentos dos filmes em DVD e ouvir trechos de músicas dos CDs que ficavam naqueles tocadores fixos com fones. Ou então íamos para o camelódromo jogar videogame nas banquinhas que tinham lá dentro, alugando por hora. Os passeios também pelos mais diversos sebos que existiam na cidade, por todos os lados, desde a avenida Rio Branco, passando pela rua João Pessoa e na Ulisses Caldas, eram visitas constantes, pois sempre fui amante de livros e de música.

Ah!... E as velhas histórias mal assombradas que a gente ouvia os mais antigos contarem sobre a Mansão da Viúva Machado? Um casarão lindo e antigo, que fica ao lado da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, nossa imaginação ia longe, assim como o medo juvenil.

Foram muitas as nossas aventuras pela Cidade Alta, lembro que uns pegavam o ônibus na parada conhecida como “metropolitana”, outros na parada quase em frente ao prédio da Prefeitura. E o ponto de encontro depois da escola era sempre na praça 7 de Setembro à sombra de suas enormes árvores. Nos dias que ficávamos até mais tarde jogando conversa fora, nas paqueras ou nos passeios que fazíamos, nosso lugar favorito ao entardecer era próximo ao antigo prédio do TRE, na travessa Ulisses Caldas (um ponto alto), para ver o lindo pôr do sol que fazia no rio Potengi.

Essas experiências vivenciadas na Cidade Alta fizeram parte da minha história, que me traz boas lembranças e cria um elo de carinho, respeito por esse lugar. Que hoje, vendo o estado que se encontra um bairro tão importante e histórico para Natal, me faz emergir um sentimento de Resistência, no sentido mais complexo de (Re)existência.

Por hora, falo apenas da Cidade, mas tal situação é evidenciada na Ribeira também, outro bairro extremamente importante e histórico para Natal. Nós precisamos cobrar do poder público e lutar pela (re)existência desses bairros. Não podemos ficar reféns de uma política de negação e aceitação de que o velho não presta mais. Pelo contrário, um povo que perde suas origens e história, perde sua identidade.

Muitos são os fatores que tem levado à decadência da cidade alta. Mas pouco tenho visto da problematização real do modelo urbanístico e social que tem sido implantado em nossa cidade nas últimas gestões municipais.

Precisamos repensar na especulação imobiliária que elevou e muito os preços nos grandes centros da cidade, fazendo com que os mais jovens não tenham mais condições de comprar suas moradias em Natal, sendo obrigados a procurarem nos bairros mais distantes. Hoje, um casal jovem de classe média que decide constituir uma família, não tem a mínima condição de comprar um imóvel para morar em Petrópolis, Tirol, Lagoa Nova, Candelária, Morro Branco... A especulação imobiliária nos jogou para Parnamirim, São Gonçalo, Macaíba, São José de Mipibu, Ceará Mirim, etc. Tanto que no último censo do IBGE, a população da cidade do Natal diminuiu e da região metropolitana aumentou.  Esse é um retrato fiel dessa situação.

Aliado a isso veio a diminuição cada vez mais das linhas de ônibus que alimentam e conectam as pessoas aos mais variados bairros. Lá no início do texto eu lembrei que pegava o 44 para ir para casa após a escola, que hoje já não existe mais, e nem colocaram outra opção no lugar. Após a pandemia então, mais de 20 linhas foram canceladas e até hoje, mesmo com algumas decisões judiciais, não foram recolocadas. Isso só distancia cada vez mais as pessoas do centro da cidade.

Uma cidade desenvolvida não é aquela que se faz cheia de carros, mas sim aquela que tem um ótimo sistema de transporte público amplo e de qualidade. Infelizmente Natal vai na contramão dessa lógica. E as gestões municipais não tocam nesse assunto. Um aviso que a população inclusive deve ficar atento em outubro próximo, na hora de escolher seus representantes tanto da Câmara Municipal, quanto daquele ou daquela que irá ocupar o Palácio Felipe Camarão.

 Contudo, vejo na arte, na cultura, uma forma de resistência!

No último final de semana de fevereiro participei do CarnaDiscol, uma comemoração de 49 anos da mais antiga loja de artigos musicais da cidade, que fica localizada na rua João Pessoa. Para mim foi uma experiência incrível, onde a população ocupa as ruas e as preenche com músicas, dança, gastronomia, diversão, conversas e, acima de tudo, encontros. Pois como nos falou Vinicius de Morais “a vida é a arte do encontro”.

Vejo que a arte e a cultura podem ser a mola propulsora que elevará a Cidade Alta aos momentos de efervescência novamente. O samba do beco da lama, os eventos organizados pela Discol, os encontros no bar do Zé Reeira, são ações de resistência que tem que continuar existindo, e mais, ampliando para novos públicos.

Acredito que só com arte, cultura e responsabilidade no voto, é que vamos conseguir “botar nosso bloco na rua” e fazer do centro da cidade, Alta novamente.

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