O caminho das pedras do jovem de Pau dos Ferros aprovado em Harvard
Natal, RN 16 de abr 2024

O caminho das pedras do jovem de Pau dos Ferros aprovado em Harvard

31 de março de 2024
0min
O caminho das pedras do jovem de Pau dos Ferros aprovado em Harvard
Gustavo Freire durante passagem pela Biblioteca Central Zila Mamede (BCZM), na UFRN I Foto: Mirella Lopes

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A aparência jovem de Gustavo Freire (ele tem 26 anos) contrasta com a desenvoltura e firmeza com a qual ele se expressa. Concluindo um mestrado em História na Universidade Federal da Bahia (UFBA) até junho, ele nasceu na zona rural de Pau dos Ferros, fez o ensino médio no IFRN (Instituto Federal do Rio Grande do Norte), faculdade de História na UFRN (Universidade Federal do RN) e, antes mesmo de concluir o mestrado, foi aprovado para um doutorado na prestigiada Universidade de Harvard, nos Estados Unidos.

Você já deve ter ouvido falar dele por aqui em uma matéria anterior. De passagem por Natal, Gustavo bateu um papo com a Agência Saiba Mais, contou sobre seus planos para os próximos seis anos no exterior, o esforço do avô, com o qual nem chegou a conviver, para que os filhos estudassem ao invés de trabalhar na roça e como foi o percurso para chegar até Harvard (ele recebeu até ligação de professores e diretores de centro de pesquisa reforçando o convite para que ele fosse para lá!). Confira!

As primeiras aulas no sítio

Gustavo Freire passou a primeira infância na zona rural de Pau dos Ferros, região Oeste do estado, com avós e tios. Ele começou a vida escolar numa escolinha do sítio com crianças de várias idades e diferentes turmas que ocupavam um mesmo espaço.

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A mãe de Gustavo era professora de uma escola particular na cidade, o que lhe garantiu um desconto na mensalidade e o estudo do ensino fundamental na mesma escola na qual a mãe trabalhava. A família (ele, a mãe, o pai e um irmão mais novo) chegou a morar no Ceará, por causa do trabalho do pai, mas depois de três anos retornou para Pau dos Ferros.

Gustavo na Biblioteca Central Zila Mamede (BCZM), na UFRN I Foto: Mirella Lopes

Li meu primeiro livro aos cinco anos, quando estávamos no Ceará. Diz minha mãe que eu aprendi a ler aos dois anos, mas eu acho que é invenção dela... porque aí já é demais, já é ela exagerando (risos). O primeiro livro que li foi uma edição infantil de ‘A Odisseia’, de Ruth Rocha, lembro até hoje, era resumidinho, tinha imagens. Muito cedo minha mãe parou de me acompanhar, fazer atividades comigo, acho que a partir da 3ª série, que hoje é o 4º ano, eu já fazia tudo sozinho. Ajudava o fato de eu gostar muito de estudar, de ler, sempre fui muito curioso... sagitariano, com ascendente em gêmeos, sabe? Sempre fui muito conversador, conversava muito em sala, acho que porque não me sentia muito desafiado”, começa Gustavo.

O gosto pela conversa, claro, rendia reclamações na escola...

Os professores reclamavam com minha mãe, que trabalhava na mesma escola. Ela dizia: ‘vou esperar o dia do boletim pra falar com ele’. Até porque a lógica dela era ‘se ele conversa nas aulas, isso vai se refletir nas notas e eu vou dar o carão quando receber o boletim’. Mas, quando chegavam as notas, os argumentos dela caíam por terra porque sempre tirei notas muito boas e ela não tinha como reclamar. Comecei a me interessar por história na 5ª série de uma maneira bem clichê, através da mitologia grega, um caminho bem comum”.

“No IFRN foi onde aprendi a ser gente”

No 9º ano, Gustavo fez a seleção para o IFRN de Pau dos Ferros, passando em 2º lugar para o curso de Informática. Na instituição ele passou por diferentes monitorias e começou a se aproximar de sua grande paixão de pesquisa.

Gustavo durante a passagem pelo IFRN em Pau dos Ferros I Foto: cedida

O IFRN é excelência né... é o ensino público de qualidade que a gente defende. Eu sou cria do IFRN, foi onde aprendi a ser gente. O 1º ano foi o único que não teve bolsa, depois veio 2013, teve o Dilma 1 e havia muita bolsa, as vacas eram gordas e a gente nem sabia (brinca). Fiz seleção para várias monitorias, lembro que muita gente fez para monitoria de filosofia e sociologia achando que seria fácil, mas acabou com mais de 80 estudantes inscritos para a prova, que teve que ser realizada no refeitório. Eu estava no 2º ano, mas tinha alunos do 3º e até do 4º ano. Era só uma vaga, mas eu passei”, lembra.

Foi durante o período de monitoria em Sociologia que ele passou a ter contato com um grupo de pesquisa de História.

Fui monitor de sociologia e dividia a sala com a professora de História, Ana Cristina, que desenvolvia um trabalho com um grupo de iniciação científica que estudava seca e imigração. Fazia pesquisa de História Oral com trabalhadores do Nordeste que tinham migrado para o Centro-Oeste, Norte ou Sudeste e tinham voltado. Ninguém procurava o monitor de sociologia, nem mesmo os professores, então eu passava as tardes lá, mas como sou muito metido, teve uma hora que ela perguntou ‘vem cá menino, você não quer participar do grupo não?’. Foi quando conheci a história de verdade, do ponto de vista da ciência e não só da disciplina, que eu já gostava”, conta.

Lembro que eu tinha 14 anos e estávamos lendo Foucault para discutir no grupo! Ainda era uma coisa muito incipiente, mas para mim foi muito chocante quando comecei a ler sobre toda aquela questão ‘do poder’, trazido pelo autor. Foram essas coisas que começaram a me dar gosto pela história. No ano seguinte fui aluno de iniciação científica dela, quando fizemos uma cartografia histórica de Pau dos Ferros bem bacana. Foi um trabalho sobre morte, cemitério... lá ainda tem aquele costume de anunciar os falecimentos em carro de som. Entrevistei o cara que começou isso para entender de onde vem. No 4º ano fui monitor de história... foram muitas ciências humanas (brinca), mas ainda tinha medo da briga com mainha, porque como sempre me destaquei academicamente, para ela, eu seria doutor, faria medicina e iria ganhar dinheiro, porque toda minha família trabalha com educação, desde professor, porteiro, merendeira... todo mundo está envolvido com escola de algum jeito e ela não queria que eu fosse professor de jeito nenhum”, revela.

Para ganhar tempo, no último ano do IFRN Gustavo disse à mãe que faria medicina. Ela até pagou cursinho para o filho, que estudava, mas com outras intenções...

Não queria fazer medicina. Falei aquilo no início do ano só para postergar a briga, que sabia que iria acontecer. Quando falei pra minha professora do IFRN que queria fazer história, ela também tentou me dissuadir. Disse “olhe, sou professora do IF, ganho muito bem, mas sou uma exceção. A maioria dos meus colegas são professores do ensino básico, não preciso nem dizer como é, você sabe...”, conta Gustavo sobre o alerta da professora.

Ela me colocou pra ter uma experiência na disciplina. Tive que elaborar aula, aplicar em sala com ela observando, elaborar prova, aplicar, corrigir e elaborar um minicurso sobre ditadura militar. Fiz tudo isso junto com ela e estava adorando, desde estudar para elaborar as aulas até rir das respostas dos alunos corrigindo prova. No final, quando terminou tudo, ela perguntou “E aí?”, eu disse “adorei!”, foi quando ela disse “é, você pode fazer história”, contra sorrindo.

Gustavo veio para Natal em 2016 fazer graduação na UFRN já focado na pesquisa em História.

Cheguei muito consciente do que queria, porque lá [no IFRN] fazia história social de base, vista a partir das classes subalternas, as mulheres, escravizados, trabalhadores. Essa não era a ênfase do programa da UFRN, mas ao ter contato com a professora Juliana Souza, que coordenava o Programa de Iniciação à Docência (Pibid), pude acompanhar turmas no bairro do Pajuçara, na Zona Norte, e na Escola Estadual Zila Mamede, em Parnamirim. Tinha tido a experiência de dar aula de História, mas no IFRN, nesses outros lugares foi um baque”, admite.

As experiências em sala

Uma coisa que sempre me incomodou nas questões étnico-raciais é que, quando você pega os autores mais tradicionais, como Câmara Cascudo e Rocha Pombo, eles são muito enfáticos ao dizer que os negros e indígenas desapareceram. O poder instituído deu a Câmara Cascudo o título de historiador da cidade do Natal. No livro ‘A História do Rio Grande do Norte’, ele diz que o negro foi uma constante, mas nunca uma determinante social, econômica, cultural e demográfica para o estado. Sobre os indígenas diz que desapareceram. Esse era um projeto integralista da década de 1930, de desaparecer com as diferenças da nação e aparecer o potiguar, o sertanejo, essa figura que não tem raça. Temos comunidades quilombolas, indígenas, percebemos onde essa população racializada está segregada hoje na cidade. Essas coisas me incomodavam muito. Lembro de uma atividade que realizamos na Semana de Cidadania de uma das escolas, que era a semana do 20 de Novembro, Dia da Consciência Negra. Fizemos uma série de atividades e enfrentamos uma série de resistências da própria escola para realização disso e os alunos adoravam. Eles não gostavam muito de História, e era uma maioria negra, porque eles não viam sentido no que aprendiam, a narrativa oficial não considerava as pessoas como eles como sujeitos da História”, critica Gustavo.

Se você pegar o Atlas da Violência e fizer um apanhado histórico de uma década, vai ver que a violência contra pessoas negras aumentou exponencialmente coisa de 400%. Em números reais, não morre tanta gente como no Rio de Janeiro, por exemplo, porque lá tem mais pessoas. Porém, proporcionalmente, morre-se muito mais aqui. A que se deve isso? Comecei a pensar que parte da resposta está nesse projeto de apagamento da história tradicional do estado, foi quando pensei em fazer o projeto e quando comecei a trabalhar com o arquivo que trabalho hoje, que é o do 1º Cartório de São José de Mipibú, do século XIX, que seria queimado. A UFRN soube e resgatou o material, passando a fazer guarda. Uma parte está no laboratório de restauração e outra foi digitalizada pelo Laboratório de Imagem”, detalha.

Gustavo, durante apresentação acadêmica I Foto: cedida

Casos de Família

Foi o material já digitalizado, disponibilizado pelo Laboratório de Imagem (Labim) da UFRN, que serviu de base para a pesquisa que Gustavo desenvolve atualmente.

Trabalho com processos criminais, é o que chamo de ‘casos de família’. São brigas que vão parar na delegacia, que resultam na abertura de inquéritos com depoimentos de testemunhas. Minha pesquisa lida com escravizados e indígenas, são trabalhadores pobres. Eles não escrevem cartas, colunas de jornal, nem livros. Onde vão aparecer? Na delegacia! Nesses arquivos descobri uma revolta armada em Goianinha, em 1875, contra a lei de recrutamento militar, que era feito de uma forma X, mas em 1874 o Império do Brasil baixou um decreto mudando o método, que passaria a ser por sorteio. O recrutamento sempre foi mal visto pelas populações pobres, pela violência, brutalidade e por separar as pessoas de suas famílias”, explica.

Antes da mudança, os ‘maus pobres’ eram capturados, eram aqueles tidos como vagabundos, que não queriam trabalhar, porém, nada mais eram do que aquelas pessoas que estavam fora da vigilância dos patrões e fazendeiros, que não se sujeitavam ao modelo paternalista-clientelista. Com a lei do sorteio, qualquer pessoa poderia ser recrutada. Para essas populações, de que adiantaria passar a vida inteira construindo suas redes de proteção ou pintando a imagem do bom pobre trabalhador, se qualquer um poderia ser recrutado? Escravo não era recrutado, esse era um problema de pessoas livres. Mas, a essa altura do século XIX, as pessoas livres eram negras, especialmente aqui na região, já tinha passado a Lei do Ventre Livre, já não nasciam mais escravos, eles não eram mais maioria. Porém, essas pessoas não morreram, elas passaram integrar a massa da população camponesa livre. Essas pessoas foram três vezes à Igreja de Goianinha armadas com pau, cacete, foice, pistola e tudo que eles tinham para impedir a execução da Lei”, revela Gustavo.

A lei era lida durante a missa e cabia a uma Junta Paroquial fazer o recrutamento, lendo o nome dos convocados.

O que essa galera queria era impedir o trabalho da Junta Paroquial. Então, pense numa multidão de pobres, armada, invadindo a igreja matriz e mandando parar tudo! Na terceira vez que isso se repetiu as autoridades enviaram o Exército e houve um confronto. Eles se encontraram às margens do Rio Brandão, que passa no meio de Goianinha, onde ocorreu o confronto”, detalha.

O registro só chegou às mãos de Gustavo, quase 200 anos depois do ocorrido, porque a cidade de São José de Mipibu tinha estrutura jurídica para registrar o processo. Toda essa documentação, que iria ser queimada, serviu de base para que o pesquisador identificasse informações da vida e costume de uma época ainda pouco explorada.

A partir desse documento descubro uma série de informações sobre o universo desses camponeses que passam despercebidas pela história. Temos a mania de achar que a população é passiva, mas esse documento prova que não era e que estavam cientes do que estava acontecendo, afinal como sabiam qual o dia que a Junta Paroquial iria trabalhar? Não só sabiam, como ainda faziam a notícia correr por todas as localidades miúdas, onde o vento faz a curva, para chamar o povo e correr até a igreja matriz em peso. É um acontecimento sobre o qual não temos memória”, lamenta o pesquisador, que também planeja transformar todo esse material em produto audiovisual, futuramente.

Gustavo Freire I Foto: cedida

A documentação encontrada por Gustavo é considerada rara devido à proximidade da fonte original, que protagonizou os acontecimentos relatados.

Os historiadores que trabalharam esse movimento em outros lugares usaram relatórios de chefes de polícia dos juízes que iam até a capital e de lá mandaram relatórios para o ministro do interior, no Rio de Janeiro. Então os historiadores que trabalham esses movimentos os veem a partir da leitura de um juiz. O que peguei foi um processo criminal escrito por um escrivão, mas que contém depoimentos. Parto do micro para o macro, parto de Goianinha para conectar com processos maiores. Essa lei do recrutamento acabou não vingando, voltaram atrás. E esse foi um movimento que ocorreu não só aqui, mas em diferentes localidades do Nordeste e do Brasil, porém, em quase nenhuma há registro de um processo criminal”, revela Gustavo, que conta essa história em um dos capítulos de sua dissertação de mestrado, que serviu de amostra para concorrer a uma vaga em Harvard.

Trabalho com o binômio preto-indígena, outros pesquisadores trabalham com o preto-branco ou indígena-branco, mas eu trabalho com essa hipótese. Quem é essa população que se revoltou, por exemplo? É uma população composta por escravizados e seus descendentes, agora livres, e uma população indígena que já havia se aldeado há muito tempo, desde o século XVI, para evitar a morte e escravização, viraram cristãos, mudaram de nome... mas não são brancos, aí é que está! Tudo aquilo que Câmara Cascudo afirma e os demais repetem depois, é o que tento combater mostrando o movimento dessas pessoas”, defende.

O caminho das pedras

Gustavo soube da possibilidade de concorrer a uma vaga em Harvard depois da visita do coordenador do Afro-Latin America Research Institute, Alejandro de la Fuente, que fez uma visita a UFBA.

Não há uma chamada pública, a seleção ocorre em dezembro, se você entrar no site o edital estará lá, mas não há edital. No início de 2023 a UFBA recebeu o professor Alejandro de la Fuente como professor visitante. Tive a oportunidade de conversar com ele sobre essas questões e falar sobre a minha pesquisa. Ele demonstrou bastante interesse e disse ‘olha, vai ter seleção. É difícil, mas faça’. O problema é que além de difícil, é cara. Você precisa fazer o Toefl, que é o exame de proficiência, que custou pouco mais de US$ 200, é muito mais caro do que uma seleção para mestrado ou doutorado aqui no Brasil. Tem um outro professor americano também lá, Forrest Hilton, que não é visitante, é convidado e vai passar cinco anos em Salvador. Nós tínhamos proximidade, fui aluno dele, que me aconselhou a tentar e me ajudou corrigindo meu inglês quando escrevi meu ‘statement of purpose’, que é a Carta de Intenções. Submeti no último dia... é isso né, brasileiro é tudo assim”, brinca Gustavo.

Carta de aprovação de Gustavo para realizar doutorado em Harvard I Imagem: reprodução

Para a seleção em Harvard, Gustavo fez o exame Toefel, para comprovar a fluência em inglês (que ele aprendeu sozinho ao longo da vida), enviou uma amostra de até 20 páginas com as conclusões mais recentes da pesquisa que estava fazendo (não precisava nem estar publicado), além da ‘carta de intenções.

O estudante voltou de Salvador para Natal dia 21 de dezembro de 2023, mesmo dia em que a artista pop Beyoncé causou alvoroço ao visitar a capital de todos os santos.

E eu num tinha o ingresso! Só que ninguém sabia que ela iria para Salvador”, conta.

O resultado da seleção para Harvard saiu em março.

Esse dia era de um domingo para uma segunda e eu estava com muita insônia. Não conseguia dormir de jeito nenhum. Já era 12h40 e depois de muito virar de um lado pro outro sem conseguir adormecer, pensei: vou olhar meu email. Quando abro, está lá: congratulations and welcome to Harvard (parabéns e bem vindo a Harvard). Comecei a me tremer e dizia ‘calma, calma, calma’. Comecei a conversando com meu orixá ‘cama que eu tô em casa’. Se eu não vou conseguir dormir, pensei, mainha também não vai não! Liguei pra ela, que já pensou que fosse uma desgraça! Disse ‘mainha passei!’ e ela ‘em quê menino?’ Disse que era em Harvard e ela ficou sem acreditar. Não dormiu nem eu nem ela, ficamos conversando. Fui pra cozinha, os amigos que moram comigo também acordaram, todo mundo ficou muito feliz. Passei um tempão vendo vídeo sobre o lugar, sobre a cidade”, relembra.

Depois da ligação para a mãe a notícia se espalhou rápido e o dia mal amanheceu, já tinha textão no grupo da família. Gustavo não sabe se a aprovação chegou a ser anunciada em carro de som em Pau dos Ferros, o que ele só deve descobrir em maio, quando retorna à cidade.

Antes de ir para Harvard, o pesquisador ainda vai fazer a defesa da dissertação de mestrado na UFBA até junho. Quando fez a seleção para o mestrado, além da UFBA, Gustavo também foi aprovado em 1º lugar na UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), mas escolheu a Bahia pela linha de pesquisa voltada para o tema da escravidão e liberdade, que ele pretende aprofundar durante o doutorado.

É possível construir conhecimento de ponta a partir da nossa realidade, que não é descolada das questões do mundo. Minha pesquisa também é sobre capitalismo, sobre relações étnico-raciais, que são questões importantes para o mundo todo”, conclui.

Herança sem preço

Além da realidade, uma das fontes de inspiração para o pesquisador é o zelo do avô (com quem nem chegou a conhecer) pela educação dos filhos.

Ele era analfabeto, teve quatro filhos dele e adotou mais dois de irmãs dele. Diferente dos irmãos dele, que colocaram os filhos para trabalhar na roça, ele não colocou. Era uma pessoa muito doente, mesmo assim, preferia pagar pessoas para ajudar na roça do que colocar os filhos para trabalhar, não que eles não ajudassem, mas não havia aquela obrigação. Minha mãe e meus tios, por exemplo, não têm os dedos calejados da roça, como tem os primos deles. O negócio dele era estudar. Minha mãe dizia que ele falava que a única coisa que não se pode tirar de alguém é o estudo”, conta Gustavo sobre o avô, que faleceu em 1994, três anos antes do neto nascer.

Tenho um privilégio muito grande, que poucos amigos tem. Meus dois pais possuem ensino superior, isso não é uma realidade, principalmente no lugar de onde a gente vem. Meu pai vem de uma família muito pobre, foi o único a conseguir se formar no ensino superior”, observa.

A mãe de Gustavo é pedagoga e diretora de uma escola em Pau dos Ferros. O pai é engenheiro agrônomo, ambos formados em universidades públicas, ele na antiga Esam e hoje Ufersa (Universidade Federal Rural do Semi-Árido), e ela na Uern (Universidade do estado do Rio Grande do Norte).

Como ajudar

As aulas de Gustavo em Harvard começam em setembro e ele ainda não sabe se terá direito a uma bolsa para financiar as despesas enquanto estiver por lá. Para custear a viagem e os meses iniciais, ele criou uma vaquinha virtual com a meta de arrecadar R$ 20.000,00. Veja como ajudar!

A contribuição pode ser por meio da vaquinha virtual ou PIX:

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