Quem cuida de quem cuida? – O trabalho do Instituto Jacintas no RN
Natal, RN 18 de mai 2024

Quem cuida de quem cuida? – O trabalho do Instituto Jacintas no RN

25 de março de 2024
4min
Quem cuida de quem cuida? – O trabalho do Instituto Jacintas no RN

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Vocês já pararam para pensar sobre a sobrecarga de trabalho das mulheres que cuidam dos seus parentes de maneira informal? Pois é, nem eu. Até bem pouco tempo atrás, quando tive que confrontar essa realidade na própria pele. Encarar primeiro, depois tentar assimilar e compreender, sempre na medida do possível.

Barbara de Melo Ribeiro Dantas, idealizadora e diretora geral do Instituto Jacintas, em funcionamento na capital do Rio Grande do Norte desde 2020, nos conta sua história de forma contundente, corajosa e visceral. A história é pessoal e coletiva; e nos serve de alerta para a ausência de uma política pública que pense, reflita, construa possibilidades de cuidado para quem cuida, ou seja, para as cuidadoras parentais informais.

O Instituto Jacintas é uma OSC (Organização Social Civil), um local de acolhimento pensado e colocado de pé pela Barbara quando não havia mais opções de sobrevivência. “Ou seria um projeto coletivo, ou não seria”, relata emocionada.

Dessa forma, reuniu afetos contemporâneos e, também de outrora, para tentar colocar de pé o que por muito tempo nem ela sabia que era uma necessidade não apenas dela, mas de muitas de nós. “O Instituto Jacintas é uma necessidade oriunda da ausência do Estado, a ideia surgiu quando eu comecei a estudar e entender o que estava acontecendo com a minha vida, diante do adoecimento da minha mãe”, explica Barbara.

E continua: “É uma linha muito tênue que nos adoece, que nos machuca, que nos violenta e que nos deixa num lugar que também é, para nós, desconhecido. O lugar de cuidar de quem já cuidou da gente”.

Tecendo articulações civis e institucionais, a equipe que integra o Instituto Jacintas, liderada por Barbara, se prepara agora para entregar uma lista de intenções que possam compor um Projeto de Lei (PL), intitulado DAS MARIAS, a uma representante da sociedade na Câmara dos Deputados.

Alguns nomes são cogitados para receber a PL. Aqui, no Rio Grande do Norte, onde nasceu o Instituto, a ideia é que a Deputada Federal Natália Bonavides (PT) receba das mãos de Barbara a intenção de PL.

Sobre o Projeto de Lei

A omissão do Estado brasileiro no que diz respeito ao tema é de um silêncio ensurdecedor. Na ausência de dados para embasar os estudos acerca do tópico, o trabalho se torna ainda mais lento, de formiguinha mesmo, como chamamos aqui no Nordeste.

As linhas gerais do projeto versam sobre a necessidade de as mulheres terem acesso a cuidadores técnicos dentro de casa, pois segundo Barbara, independente do grau de vulnerabilidade de cada caso, é preciso. “É uma espécie de plano emergencial que será lapidado pela Câmara e Senado Federal, via Projeto de Lei”, coloca Barbara.

Famílias Institucionais

Ainda de acordo com Barbara Melo, as famílias monoparentais, ou seja, formada por apenas um dos pais e seus filhos e filhas, se tornaram famílias institucionais a partir do momento que o estado não fornece condições de vida digna aos seus integrantes, o que, inclusive, é anticonstitucional, ao levarmos em consideração o inciso 3 do Artigo 1º da Constituição Federal.

“A assistência tem que chegar nas casas dessas famílias, é um direito nosso que está sendo negado há muito tempo pelo Estado brasileiro”, afirma Barbara. “Acredito que dessa forma podemos iniciar uma nova história, com desfechos diferentes para quem vem depois de nós, tendo em vista que a população brasileira está numa curva crescente de envelhecimento e casos como o meu e das cuidadoras parentais informais que acompanho só tendem a aumentar”, arremata.

Abandono do mercado de trabalho

De um ponto de vista meramente pragmático, econômico, o entendimento de que a mulher ou o homem que passa a dedicar sua vida, de forma exclusiva, ao cuidado parental informal, abandona o mercado de trabalho. Isto posto, é uma questão também de macro economia, a ausência sistemática de recursos humanos no mercado formal de trabalho é e permanecerá sendo um problema também se esse assunto permanecer invisibilizado.

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