Cultura e história de uma cidade, um sinal de abandono!
Natal, RN 28 de mai 2024

Cultura e história de uma cidade, um sinal de abandono!

14 de abril de 2024
6min
Cultura e história de uma cidade, um sinal de abandono!

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Nos últimos dias tenho andado muito pela cidade, mostrando os pontos turísticos de Natal para uma amiga da família que está de férias aqui e hospedada na minha mãe. Essa amiga nossa é uma pessoa que, assim como eu, adora cultura. E nessas andanças comecei a observar o quanto nossos pontos turísticos e principalmente os aparelhos culturais estão, em sua maioria, danificados, em desuso, abandonados, acabados ou simplesmente fechados. Além de amante e consumidor assíduo de cultura, sou servidor público, bibliotecário e ambientalista, é com profunda tristeza e preocupação que faço tal constatação. Pois nossa cidade é repleta de belezas, encantos, vistas, um pôr do sol belíssimo, rios e mares. São lugares que deveriam ser pontos de encontro, de aprendizado, de geração de renda e de lazer para a população, como a Casa da Ribeira, o Centro de Artesanato (antiga prisão), o Parque da Cidade, a Cidade da Criança, o antigo Presépio de Natal (hoje conhecido como Praça dos Patins), a Praça André de Albuquerque (popularmente chamada de Praça Vermelha) e a Praça João Maria, localizadas na Cidade Alta, o Museu da Rampa, a Capitania das Artes, o Solar Bela Vista, a Pinacoteca, a praça do relógio no Alecrim, têm sido negligenciados, abandonados ou subutilizados pelos órgãos competentes.

A população Natalense carece de atrações culturais e artísticas. Nem só de praia se vive o natalense. Embora eu seja amante de uma praia aos domingos. Para mim nada mais rejuvenescedor do que um belo banho de mar e passar a tarde olhando o balanço do mar e ouvindo o som de suas ondas.

No último domingo, voltando exatamente da praia, já que fui na praia de Santa Rita com a família, passei ali pela praia de Miami no início da noite e me deparei com uma imensidão de pessoas e de carros estacionados, até então não tinha ideia do que estava acontecendo, até que abri os vidros do carro e pude ouvir um som da banda que tocava num palco montado na areia da praia. Na ocasião apenas segui caminho e me preocupei apenas com o lixo que aquela quantidade de pessoas poderiam estar gerando. No dia seguinte, eis que vejo a matéria nos principais jornais da cidade que os organizadores foram multados tendo em vista e enormidade de lixo que foram jogados nas areias da praia. Quando vi as fotos, logo me assustei, era pior do que eu tinha imaginado na noite anterior. Achei completamente absurdo quando vi. Achei totalmente justa a multa aplicada, mesmo sabendo que infelizmente os danos à natureza ali são irreversíveis. Sabe-se lá quantos animais marinhos irão ingerir a quantidade de plástico jogados na praia. Mas…

Voltando ao assunto principal desse nosso texto, essa tal festa que falei acima, mostra exatamente o quanto o cidadão natalense carece de cultura. Não só cultura de massa, mas também cultura popular. A despeito da Vila de Ponta Negra, berço de diversas manifestações culturais e que são, ano após ano, invisibilizados, esquecidos e desvalorizados. Precisamos aprender a valorizar nossas raízes culturais e ancestrais. Na Vila, temos o Pastoril, o Boi de Reis, Coco de Roda, as Pastoras, as Rendeiras de Bilro e muitos outros grupos.

São poucas pessoas que conhecem a importância da Vila para a história e a cultura natalense. Eu mesmo pude aprender um pouco mais dessa importância no mês passado ao me fazer presente no lançamento de um documentário sobre a história do Azeite de Bati, produzido artesanalmente pelos moradores de lá, e que arrisco a dizer que 90% da população de Natal nunca nem ouviu falar. E é um azeite de muita qualidade, com sabor diferenciado e bom para a saúde.

Cadê que na Vila de Ponta Negra não temos um espaço cultural? Esse é só um exemplo, aposto que temos muitos outros bairros em Natal que guardam seus segredos, culturas e histórias.

É diante de tudo isso que defendo a valorização e utilização desses espaços públicos culturais, pois carregam consigo parte da história e da identidade cultural de nossa cidade, estão se deteriorando diante de nossos olhos. Bancos quebrados, lixo espalhado, grama alta e pichações são apenas alguns dos problemas visíveis que testemunhamos ao passar por esses locais. Essa situação lamentável não apenas compromete a estética urbana, mas também afeta diretamente a qualidade de vida e o bem-estar da população.

Outro exemplo é a Casa da Ribeira, que já foi um importante polo cultural, hoje sofre com a falta de investimento e de manutenção adequada, e a rua Chile como um todo, que já foi o auge, e hoje está largada. O Parque da Cidade, um dos poucos espaços verdes de lazer na região central da cidade, está se transformando em um local inseguro e insalubre devido à falta de cuidado.

Além disso, a Cidade da Criança, outrora um espaço de diversão e aprendizado para os pequenos, hoje encontra-se em estado precário, sem condições adequadas para receber as famílias. As praças André de Albuquerque e João Maria, importantes pontos de encontro e convívio social, estão longe de proporcionar um ambiente agradável e seguro para os cidadãos.

E a enormidade de dinheiro público investido no Museu da Rampa, que construiu um espaço belíssimo, mas com pouca utilidade. Dali podemos ter uma visão super privilegiada do pôr do sol no rio Potengi. Com muito menos, nossa vizinha irmã João Pessoa, criou o tão famoso Pôr do sol do Jacaré, que é sucesso e conhecido pelo Brasil afora.

Diante desse cenário desolador, é urgente que as autoridades assumam sua responsabilidade e adotem medidas efetivas para revitalizar esses espaços ou destinar melhor uso, em benefício da população. É preciso promover ações de limpeza, manutenção e segurança, além de investir em atividades culturais e educativas que atraiam a comunidade e resgatem o valor desses locais.

A preservação e valorização dos aparelhos culturais de nossa cidade não são apenas uma questão estética, mas sim um compromisso com a memória, a identidade e o bem-estar de nossa comunidade. É hora de agir antes que seja tarde demais. Afinal, o patrimônio cultural de uma cidade é o reflexo de sua alma e de sua história, e merece ser tratado com o devido respeito e cuidado.

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