Redes (anti) sociais e algumas de suas consequências
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Redes (anti) sociais e algumas de suas consequências

28 de abril de 2024
11min
Redes (anti) sociais e algumas de suas consequências

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Uma definição resumida de redes sociais pode ser a de que se trata de uma plataforma online que possibilita que as pessoas se conectem e interajam com outras através da internet, oferecendo recursos que permitam que se construam (e mantenham) uma rede de contatos (seguidores, amigos etc.).

Se por um lado é fato que o seu uso tenha aumentado a sociabilidade de seus usuários, também é fato o seu desvirtuamento, com o uso que tem sido utilizado por criminosos, grupos e pessoas extremista que inviabilizam o diálogo, a civilidade e interação entre as pessoas.

Muitos estudiosos têm chamado à atenção para isso, entre eles,  o sociólogo espanhol Manuel Castells que tem acompanhado e analisado a construção e expansão das redes sociais desde o início. Ele é autor de mais de 30 livros, muitos publicados no Brasil pela Editora Paz e Terra, como A sociedade em rede (1996), O Poder da Identidade - 2 volumes (1999), A era da informação: economia, sociedade e cultura -3 volumes, 1999 e o Poder da comunicação ( 2015). Na entrevista para a revista Veja no dia 29/3/2024 afirma-se que ele é “um dos mais celebrados especialistas do impacto das modernas tecnologias em tempo de comunicação acelerada e informações falsas”. Para ele, se é inegável que houve avanços tecnológicos excepcionais como a internet, também constata aspectos negativos, com o que chamou de “mau uso dessas tecnologias extraordinárias” e que precisam  ser  reguladas. E diz que a internet é nosso espelho e que boa parte dos usuários é “sexista, xenófoba, homofóbica, fanática religiosa, extremista nacionalista e propensa à violência” e que criminosos e fascistas também usam a internet e que hoje, nesse espaço, em especial nas redes sociais, a civilidade dos debates públicos deixou de existir.

Quando foram criadas, como o Orkut, depois o Facebook e outras plataformas, o objetivo era o de possibilitar trocas, encontros online de amigos, conhecidos ou mesmo desconhecidos, amigos de amigos, que se integravam como “amigos” ou seguidores.

O fato é que as  redes sociais, tem se tornado cada vez mais em redes antissociais, espaço para discursos de ódio, preconceitos, mentiras, insultos, ameaças, usadas para agredir, difamar, caluniar, de expor a intimidade de outras pessoas, as diminuírem ou ridicularizarem (e às vezes, como já ocorreu, com desfecho trágico, como suicídios),  uso para a prática de crimes, como pedofilia etc., além da circulação permanente de informações falsas, muitas estúpidas e inúteis.

Nesse sentido, como esperar bom senso e discernimento, especialmente em países, como o Brasil, com intensa polarização política e ideológica no uso das redes sociais sem qualquer tipo de controle? Não devem ser punidos os que fazem esse tipo de uso em nome de uma pretensa liberdade de expressão?

No livro Não- coisas – reviravoltas no mundo da vida (Editora Vozes, 2022) o filósofo sul-coreano, radicado na Alemanha, Byung-Chul Han, afirma que o universo digital tornou-se uma espécie de um culto à estupidez. Há um processo de mercantilização da cultura que resulta na destruição da comunidade e que a desinformação é parte desse processo, gerando um novo “pão e circo” como na antiga sociedade romana.  Para ele, há hoje um excesso de informação que circulam nas redes, a maioria mentirosa que transforma as pessoas em “zumbis desorientados e narcisistas” e diz: “as pessoas perdem cada vez mais seu poder de ação, sua autonomia. Elas são confrontadas com um mundo que escapa a sua compreensão. Elas seguem decisões algorítmicas, mas não conseguem compreendê-las” Fake  news  são mais eficazes do que fatos “O que conta é o efeito em curto prazo. A efetividade substitui a verdade” (p.20 e 21).

Um dos aspectos que ele aborda é a obsessão por curtidas e compartilhamentos, na maioria das vezes sem qualquer relevância. Estudos de Jonathan Heide, psicólogo norte-americano mostram sobre os efeitos negativos das mídias sociais sobre não apenas as pessoas, como também em relação às instituições, e se refere as “irracionais manadas furiosas que trata os divergentes como inimigos”, e que tem trazido muito mais angústia e depressão, do que harmonia, amizade, afeto e tranquilidade às pessoas.

O caso recente do bilionário Elon Musk, enaltecido pela extrema direita (e não apenas no Brasil), mostra a importância de se ter controle sobre o que se circula na internet e nas redes sociais em particular. Além de críticas a mais alta corte de justiça do país, o Supremo Tribunal Federal e especialmente um dos seus ministros, Alexandre de Moraes, e  trata o país e a Suprema Corte como se o fato de ser dono de uma plataforma e bilionário lhe desse o direito de inclusive pedir um (descabido) impeachment de um ministro e ainda ameaçando não cumprir as leis do país (faria isso nos Estados Unidos?) tentando – e não conseguindo - intimidar a justiça brasileira - em defesa de uma pretensa liberdade de expressão, mas na prática um “vale-tudo” incluindo a prática de crimes. E não por acaso, aplaudido e reverenciado por pessoas (ignorantes) que confundem com censura ações legais e legitimas da justiça para a proteção dos cidadãos, inclusive de muitos desses que aderem e apoia acriticamente a quem quer pousar (falsamente) de “paladino da liberdade”.

Uma pesquisa do NetLab (Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais) da Universidade Federal do Rio de Janeiro mapeou cerca de 90 mil posts entre os dias 8 e 9 de abril de 2024 e afirma que os ataques ao ministro partiram de comunidade com grande número de contas falsas e que 48% dos perfis no X em apoio a Elon Musk eram robôs, ou seja, além de espaço para desinformação, produção em massa de mentiras e manipulações etc., há também o uso de robôs.

Um dos desdobramentos desse processo, além da inclusão do bilionário no inquérito das fake news, deveria ser a retomada da discussão e votação do PL 2.630 (chamado de PL das fake news) que tem entre os seus objetivos o de regulamentar as plataformas digitais, como tem ocorrido nas modernas democracias. Mas não é o que parece que deve ocorrer e com a sua protelação, as indefinições continuarão.  O presidente da Câmara dos Deputados, em vez de colocar o PL na pauta de votações, constituiu um grupo de estudos para analisá-lo, o que na prática significa adiar a decisão e a votação.

No documentário Dilemas das redes (Netflix, 2005), dirigido por Jeff Orlowski, conta com a participação de ex-funcionários de plataformas como Google, Twitter (hoje X) e Facebook, e o conjunto das intervenções (pessoas que conhecem os bastidores dessas plataformas), mostra como o seu uso sem qualquer controle traz consequências graves pela influência que exerce nos usuários (e na sociedade em geral).

Há, como se sabe, um monitoramente permanente do que as pessoas acessam e postam nas redes, muitos inclusive expondo intimidades (delas e de outras pessoas também), além de dados pessoais que são armazenados e cujo uso não controlam.

Outro aspecto relevante é que os algoritmos fazem com que apareçam no feed (alimentar, em português) cujo sentido na web é de constante atualização e no qual aparecemapenas opiniões e conteúdos que interessam aos usuários,  com a criação de “bolhas” personalizadas. E para os que estão ‘presos’ nelas, o que importa não são os fatos, a realidade, mas a forma como são interpretadas, daí a profusão de mentiras, teorias conspiratórias, fake news e todo tipo de manipulações.  

Em relação às redes sociais no Brasil, o que se constata é a falta de regras para orientar o seu comportamento e estabelecer limites. Como afirma Renata Mielli coordenadora do Comitê Gestor da Internet em uma matéria publicada no jornal Folha de S. Paulo no dia 22 de abril de 2024 ao se referir ao Marco Civil da Internet ressalta que as novas aplicações de internet estão fora do escopo do Marco Civil: “hoje não há legislação para regulá-las. O Marco Civil foi feito para os problemas que tínhamos em 2014” e que existe uma resolução do Comitê Gestor da Internet de 2023 que se posiciona favorável à proposta que estava no PL 2.630, a de que as plataformas precisam ser responsáveis pelos conteúdos postados pelos terceiros. “As plataformas precisam ter responsabilidade sobre os conteúdos que nelas circulam”. Não se pode nem se deve admitir que as pessoas usem essas plataformas livremente, sem qualquer tipo de controle.

O fato é de não há nem pode haver o direito absoluto de dizer o que se quer, a liberdade de expressão deve ter limites, que respeite a integridade das pessoas, o direito à vida, a honra, etc. e não pode ser espaço que se tolere a apologia de crimes.

Essencialmente, hoje não é apenas necessário, mas urgente que se tenha uma regulação das redes sociais, que não pode ser confundida com censura e sim o de coibir crimes que circulam livremente em nome de uma pretensa liberdade de expressão.  Exemplos de consequências nefastas sobre essa tolerância pode ser citado o que ocorreu no Brasil na pandemia da covid-19.  No relatório final da CPI da Covid (instalada em 27 de abril e finalizada em 26 de outubro de 2021) com 1.287 páginas, no capítulo Desinformação na pandemia (Fake News) se refere entre outras coisas, a disseminação de comunicações enganosas, de intensas campanhas disseminadas pelas redes sociais, contrárias as evidências técnicas e científicas e que “Tais ações tiveram como consequências diretas o agravamento dos riscos de saúde para as pessoas, o rápido incremento da contaminação pelo coronavírus, o aumento do índice de ocupação dos leitos hospitalares e nefastas perdas para o país”. E mais grave: a omissão do Governo Federal e a participação (efetiva e constante) do presidente da República, seus filhos e o primeiro escalão do governo na criação e disseminação de informações falsas, usando inclusive a estrutura governamental para promovê-las, dando suporte a comunicadores que propagaram noticias e informações falsas sobre a covid-19 e nesse sentido, as redes sociais tiveram importante papel na disseminação de mentiras.

No livro Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais (Editora Intrínseca, 2018), Jaron Lanier, cientista e escritor, autor entre outros, do livro Bem-vindo ao futuro. Uma visão humanista sobre o avanço da tecnologia (Editora Saraiva, 2012) expõe, em curtos capítulos, o que o título sugere, indagando: como permanecer independente em um mundo onde você está sob vigilância contínua e constantemente estimulado por algoritmos operados por algumas das corporações mais ricas da história, cuja única forma de ganhar dinheiro é manipulando o seu comportamento? Os dez argumentos desenvolvidos no livro são: você está perdendo seu livre arbítrio; largar as redes sociais é a maneira mais certeira de resistir à insanidade do nosso tempo; as redes sociais estão tornando você um babaca; as redes sociais minam a verdade; as redes sociais transformam o que você diz em algo sem sentido; as redes sociais destroem sua capacidade de empatia; as redes sociais deixam você infeliz; as redes sociais não querem que você tenha dignidade econômica; as redes sociais tornam a política impossível e as redes sociais odeiam sua alma. (o livro está disponível na versão e-book em  https://tuxdoc.com/download/jaron-lanier-dez-argumentos-para-voce-deletar-agora-suas-redes-sociais_pdf).

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