O sujo e o mal lavado
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O sujo e o mal lavado

18 de junho de 2018
O sujo e o mal lavado

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O facebook anunciou dia desses a solução definitiva para o combate às notícias falsas: as agências de fact-checking – que vêm a ser pequenas empresas que praticam a boa e velha apuração – que os jornalistas já conhecem tão bem. O problema é que, por mais objetivas que sejam as metodologias de checagem dos fatos, elas surgem em um denso caldo ideológico que se mostra claramente na apresentação dos resultados da checagem – seja nos jornais, seja nos algorítimos do facebook.

No começo, logo a direita atacou, com medo de perder seu canal mais eficiente para espalhar mentiras. Semana passada, foi a vez da esquerda e o abençoado terço de Lula. No meio da confusão, o Facebook fez o que tem feito de melhor ultimamente: tirou o dele da reta e abandonou as agências de checagem à própria sorte. Só que na televisão não tem selo de fact-checking para mostrar o que é verdade e o que é mentira. Tem horas que até parece que o telejornalismo fala de uma realidade alternativa à que realmente vivemos. Foi o que aconteceu na última sexta-feira, no Jornal Hoje da TV Globo.

Depois de exibir matéria sobre a prisão de um ativista inglês na Copa da Rússia por ter protestado contra a tortura da população LGBT nos domínios de Putin, Sandra Annemberg avisa a nós, telespectadores desinformados sobre as coisas do mundo, que a Rússia não tem a imprensa livre e que é um país que não respeita os direitos humanos. Só faltou dizer que a culpa por tudo isso ainda é dos comunistas que deixaram o poder por lá há quase trinta anos. Que deselegante, Sandra!

Para ela e para o que a Globo representa, isso tudo deve fazer algum sentido. O problema é que não tem nenhuma relação com a realidade - objeto fundamental do jornalismo.

A cara de espanto da apresentadora faz até parecer que a liberdade é a principal característica da mídia brasileira. Segundo a pesquisa “Quem controla a mídia no Brasil?”, 26 grupos controlam os 50 principais veículos de comunicação. Destes, 26 deles estão nas mãos de apenas cinco grupos: a família do finado Roberto Marinho, o grupo Bandeirantes da família Saad, a família do bispo Edir Macedo, o grupo RBS e o grupo Folha. E não basta ter uma emissora de televisão, tem que diversificar com rádios, portais de internet, jornais e revistas. Alguns grupos vão mais longe com editoras de livros, produtoras de cinema e programadoras de televisão por assinatura.

Só para se ter uma ideia, nos Estados Unidos, a terra da liberdade, nada disso seria possível. Por lá, as regras que regulam a mídia são bem mais rigorosas que aqui. Por lá, uma emissora de rádio ou TV não pode ter mais de 39% da audiência das residências e um mesmo grupo não pode ter licenças ilimitadas de rádio e TV. Na Europa, países como Alemanha e Inglaterra também limitam a concentração de propriedade dos meios de comunicação

Não sei se a Sandra sabe, mas no Brasil, até existem propostas para aumentar a diversidade no rádio e na televisão. É o caso do Projeto de Lei da Mídia Democrática, formulado pelo Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação. O problema é que a bancada dos radiodifusores no Congresso é bem considerável e impede qualquer tentativa de regulamentação do setor. Levantamento do Intervozes em 2015 apontou que 32 deputados e oito senadores possuíam licenças de emissoras de rádio e televisão – o que é proibido pelo artigo 54 da Constituição Federal. E já foi pior. O Senado chegou a ter quase 25% de radiodifusores entre seus membros.

Em 2016, o Ministério Público Federal ajuizou ações em todo o país contra os parlamentares radiodifusores. Aqui no estado, José Agripino e Felipe Maia, pai e filho, foram alvo dos procuradores federais. Para se livrar da ação e evitar a perda da concessão, os dois tiveram que vender sua participação nas emissoras da Rede Tropical para Otho Maia, irmão de José, e Ana Silvia Maia, mãe de Felipe.

Se Sandra acompanhasse a pauta dos direitos humanos, ela descobriria que muito do que está escrito na Constituição jamais saiu do papel. Para começar, o direito à vida no Brasil perde feio para um dos piores índices de homícidios do mundo. Na comparação com a Rússia, em 2011, a taxa de homicídios por 100 mil habitantes aqui no Brasil era mais que o dobro de lá. Só em 2016, foram mais de 62 mil mortes.

A taxa de homicídios de jovens entre 15 e 29 anos é o dobro da média nacional e mais de seis vezes maior que a média mundial. Foram 325 mil jovens mortos em onze anos. Os dados são do Atlas da Violência 2018 do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Para ajudar os capitalistas a entenderem o tamanho do problema, dados da Secretaria de Assuntos Estratégicos do Governo Federal apontam que para cada jovem morto, o país perde R$ 550 mil. Em vinte anos, perdemos mais de R$ 450 bilhões.

As coisas também não vão bem para as mulheres no Brasil. Entre 2015 e 2016, o número de homicídios contra mulheres voltou a subir. Entidades de direitos humanos denunciam que, apesar de leis avançadas, o Estado não promove ações eficazes para proteger a vida das mulheres.

Para muitos trabalhadores brasileiros, o direito a uma vida digna é só uma frase escrita por aí. Na última atualização da lista suja do trabalho escravo, 165 empregadores foram flagrados com mais de 2,2 mil trabalhadores submetidos à condições de trabalho análogo à escravidão, como jornadas exaustivas, condições degradantes, trabalhos forçados e servidão por dívida. Além de agropecuaristas e empresas de confecções, a lista tem até lanchonete na zona sul do Rio de Janeiro.

Pois é Sandra, precisamos atualizar nossas definições de liberdade e respeito aos direitos humanos. No Brasil de Temer, a Rússia de Putin está cada vez mais perto. E não é por causa do futebol.

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