Vila de Ponta Negra dá rosto, nome e chora mais de 500 mil vítimas da covid-19 no Brasil
Natal, RN 2 de mar 2024

Vila de Ponta Negra dá rosto, nome e chora mais de 500 mil vítimas da covid-19 no Brasil

22 de junho de 2021
Vila de Ponta Negra dá rosto, nome e chora mais de 500 mil vítimas da covid-19 no Brasil

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Leonice, Gorete e Maria não puderam comparecer, de corpo presente, ao ato ecumênico realizado segunda-feira (21) por entidades, organizações não-governamentais e movimentos sociais da Vila de Ponta Negra em memória aos mais de 500 mil mortos no país. Mas as três estavam lá, de alguma forma, lembradas por amigos e até por quem nem as conheceram. Há um ano, em junho de 2020, Leonice, Gorete e Maria perderam a batalha para a covid-19, dizimando metade de uma mesma família da Vila. O baque na comunidade foi grande. As mortes foram registradas dias 6, 16 e 17 do mesmo mês.

Para a agente comunitária de saúde Cínthia Fernanda, que foi à manifestação acender uma vela para a amiga cabelereira e as duas filhas, a perda das três foi o momento em que a comunidade sentiu o impacto da pandemia:

- Até ali só havia morrido uma idosa, uma ou outra pessoa. Quando morreram as três da mesma família, em menos de um mês, foi o maior impacto. Acho que foi quando a Vila viu que a covid-19 estava próxima. Foi o que mais chocou. Até hoje não tive coragem de voltar a nenhum cabelereiro”, lamentou a amiga da família e profissional de saúde que acredita que mais de 20 pessoas morreram em razão da doença na comunidade.

Agente comunitária de saúde Cinthia Fernanda homenageou a família da amiga cabelereira vítima de covid-19 / foto: Rafael Duarte

Mais de 200 velas foram acesas em memória dos mortos da pandemia. Só no Rio Grande do Norte, de acordo com o boletim epidemiológico mais recente divulgado ontem, 6.615 pessoas vieram a óbito vítimas de covid-19 ou em decorrência da doença. E ainda há 1.410 mortes suspeitas que podem aumentar o número.

Aliás, número não. Nos depoimentos que se sucederam ao ato silencioso, que começou com um cortejo fúnebre no cemitério de Ponta Negra e terminou próximo ao morro do Careca, já na praia, todos os que prestavam homenagens fizeram questão dizer que, por trás da frieza dos dados e das estatísticas, haviam rostos, nomes e famílias.

- Não são números, são pessoas. Todos nós, no Brasil, estamos perdendo amigos e familiares, pessoas queridas. Estamos vendo uma multidão de órfãos e órfãs pelo país. É muito sério. Não podemos naturalizar essas mortes dizendo: ‘ah, agora só morreram dois mil’. Não está diminuindo. Não é brincadeira morrer mil, duas mil pessoas por dia”, desabafou a historiadora, bancária aposentada e ativista do Fórum Vila em Movimento Nevinha Valentim.

Vila de Ponta Negra vai ganhar memorial físico das vítimas da covid-19 na comunidade

Nevinha Valentim lembra que as vítimas não são números e anuncia memorial físico na Vila de Ponta Negra / foto: Rafael Duarte

A Vila de Ponta Negra deve ganhar, em breve, um memorial físico para que as pessoas que perderam familiares e amigos possam externar o luto acendendo velas e afixando fotografias das vítimas. O espaço deve ser criado atrás da igreja da comunidade:

- Já falamos com o padre, que concordou. Vai ser na parede de trás da capela da igreja. Vamos só desenhar o projeto, como vai ser. Um lugar onde as pessoas possam acender uma vela para seus entes queridos”, explicou Nevinha.

Respira Brasil nasceu em Manaus

O ato em memória do mortos pela pandemia é nacional e foi convocado pela Articulação Respira Brasil, movimento criado em Manaus, na época em que o drama da falta de oxigênio na capital do Amazonas chocou o país. Já houve atos semelhantes quando o país atingiu 300 mil e 400 mil mortos.

Uniram-se à essa organização em Natal o Pacto pela Vida e pelo Brasil, o Fórum Inter-religioso, o Movimento Olga Benário, a Rede Emancipa e o Fórum Vila em Movimento.

Vereadora do PT cobra transparência da prefeitura de Natal na condução da pandemia

Divaneide Basílio participou do ato em que ativistas de diversas organizações lembraram os 500 mil mortos no país / foto: divulgação

A vereadora de Natal Divaneide Basílio (PT) foi a única parlamentar presente na manifestação. E ressaltou que a ciência já vinha avisando que, sem vacina e o enfrentamento correto, os números vão aumentar ainda mais:

- O ato reúne muita emoção e muita tristeza. São meio milhão de pessoas que perderam suas vidas e com isso muitas famílias dilaceradas. Esse não é um número qualquer. A ciência avisou que se não tiver vacina, cuidado, enfrentamento, isso vai se repetir e iríamos aumentando as estatísticas. Os cientistas avisaram. O presidente não comprou vacina suficiente e, em Natal, infelizmente, há um processo de vacinação complicado. Temos buscado cada vez mais transparência, esclarecimentos e estamos na luta. O Brasil está de luto e Natal também está de luto”, disse a parlamentar do PT.

“Aquele que a covid não leva, a fome vem buscar”

As religiões de matriz africana do Rio Grande do Norte foram representadas no ato por Eked Lúcia Ifê Ifê de Axé Obaluaê. Segundo ela, pelo menos 38 pessoas de terreiros, entre mães, pais e irmãos de santo, perderam a vida para a covid-19 no Estado. Confira o depoimento em vídeo:

https://saibamais.jor.br/wp-content/uploads/2021/06/Ife.mp4

Banhistas aplaudem cortejo

No trajeto silencioso do cemitério até a praia, banhistas de Natal e turistas aplaudiram as ativistas que caminharam segurando cartazes com alusão aos 500 mil mortos e a reivindicações como pão e vacina, mote de uma campanha nacional que também pede o impeachment do presidente da República Jair Bolsonaro (sem partido).

No percurso, uma mãe emocionada ao lado da filha, com os olhos marejados, disse que não conseguiria dar um depoimento. Já uma família de turistas de Olinda não só aplaudiu como fez questão declarar apoio ao movimento e pedir a saída de Bolsonaro.

https://saibamais.jor.br/wp-content/uploads/2021/06/WhatsApp-Video-2021-06-21-at-17.46.58.mp4

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