OPINIÃO

As estátuas decapitadas e o racismo simbólico

A fotografia mostra corpos negros caídos no chão, sob chuva. Estão decapitados e encaram o céu como uma fuga de um presente de abandono. Essa descrição poderia ser aplicada a chacina brutal do presídio de Alcaçuz em 2017, mas trata-se do registro da retirada das estátuas que representam os negros do adro da Igreja de nossa senhora do rosário dos pretos na capital potiguar.

As razões para a retirada do patrimônio estão sendo reunidas, mas a imagem já é um dado por si. A lógica que atuamos com o nosso passado é orientada pelo esquecimento. Ao destruir os documentos que registravam a escravidão, como fez deliberadamente Rui Barbosa, o crime em si, deixaria de existir. Contudo, a realidade prova o contrário.

O racismo resiste ao longo dos séculos, enquanto sistema de opressão articulado ao patriarcado e ao capitalismo, também de maneira simbólica. Se o corpo negro não é lido como algo belo, digno de apreciação e respeito, as obras de arte que o representam também são vistas como coisas menores, passíveis de abandono e vilipêndio.

A carência de recursos voltados à manutenção do patrimônio cultural é marca do Estado brasileiro, não é um privilégio do Rio Grande do Norte. São construções complexas as que colocam a preservação de prédios e museus fora das prioridades. A argumentação é sempre a mesma: temos demandas mais urgentes e a memória vai ficando para depois.

Não se atentam que essa falsa hierarquização está na raiz da barbárie que atravessamos. Como deixamos para depois o resgate dos crimes escravocratas, a população negra continua com os piores números de desenvolvimento humano e com poucas medidas reparatórias. Somos a maioria entre os encarcerados, entre os jovens assassinados e desempregados.

Ao deixarmos para depois a preservação dos monumentos e seus significados, a classe trabalhadora não tem acesso a seus próprios símbolos. A comerciária passa todo dia de ônibus pela cidade e vê nas praças os bustos dos patrões do passado, que são os pais dos patrões do presente, não tem como se sentir parte da história de seu próprio território. Não há representação.

A dimensão ideológica da luta de classes está em cada um desses elementos e precisamos fazer essa relação. É preciso lembrar para pensar em um futuro diferente. Como diz o samba da Mangueira tem “muito sangue retinto pisado por detrás do herói emoldurado”. Abrir uma conversa sobre quem é alvo de elogios, e quem é alvo do abandono é fundamental para construirmos uma ideia de “Brasil que não está no retrato”.

A ferida histórica da população negra é machucada com a cena do abandono das esculturas. Afinal, ao atravessarmos esse rio chamado Atlântico, circundar a árvore do esquecimento era parte de assumir a condição de mera mercadoria. E não podemos deixar que esse ritual continue criando raízes. Esperamos que os órgãos responsáveis tomem para si a tarefa do resgate e restauração das peças, para que, com a cabeça no lugar, retornem ao seu papel artístico, cultural e político.

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