Que distopia é essa, meu irmão?
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Que distopia é essa, meu irmão?

24 de janeiro de 2022
6min
Que distopia é essa, meu irmão?

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É muito provável que o doutor Sigmund Freud, morto durante seu exílio em Londres no ano de 1939, após ser expulso de Viena pelos nazistas, não tenha tido a dimensão exata de como o cinema coloniza o nosso inconsciente.

Antes de ser uma simples máquina de propaganda, o cinema foi, para o século XX, uma linha de montagem de imagens oníricas que manufaturaram ideologicamente as crenças políticas de populações ao redor do globo. Uma linha de montagem em que, na peleja pelo controle de nossos sonhos, Hollywood imperou suprema.

Turbinados por volumosos recursos públicos inseridos no esforço de guerra estadunidense, os estúdios norte americanos usaram e abusaram do cinema como ferramenta de controle e de dominação ideológica. Um arma letal de soft power usada no período da guerra fria contra a qual os comunistas nunca foram páreo.

Nessa toada, os estadunidenses reescreveram a história (com muito mais eficiência do que os stalinistas da URSS, diga-se de passagem) vendendo para o mundo a ilusão de que foram eles, os norte americanos (e não os soviéticos), que derrotaram os nazi-fascistas europeus. Da mesma forma criaram uma poderosa fantasia sobre si mesmos e sua própria sociedade, imprimindo nos recantos mais íntimos da nossa subjetividade esse obscuro desejo de medir nossa vida pela régua de felicidade criada para anestesiar a classe média ianque.

Mestres absolutos na arte do marketing, os puritanos do Tio Sam espalharam para o mundo a boa nova de uma terra santa do capital, onde a oportunidade de ficar rico e a felicidade de consumir as maravilhas do mundo tecnológico estava aberta a todos.

Junto a isso Hollywood também se esmerou na narrativa da extraordinária capacidade dos estadunidenses de salvar a terra de qualquer ameaça. Invasões alienígenas, terrorismo, catástrofes naturais, supervilões psicóticos, exóticos governos asiáticos totalitários.... qualquer inimigo que ameaçasse a vida na terra e a santa liberdade liberal, seria inevitavelmente derrotado pelos sedutores heróis de Hollywood.

Para um cara como eu que já começa a contagem regressiva da metade de um século vivido nesse planeta, é muito curioso notar que nos últimos anos, o cerne da produção audiovisual do império tenha migrado, de modo tão abrupto, do sonho para o pesadelo.

Veja o exemplo da série Twin Peaks, dirigida por David Lynch, um gênio do cinema, capaz de filmar a matéria prima onírica de nosso inconsciente com um naturalismo assustador.

Em 1990, quando estreou na TV norte americana, Twin Peaks mostrou ao mundo que, das frestas do sonho americano, da periferia da fantasia liberal, na borda daquele mundo de beleza e bondade que os novos agathoi do Tio Sam vendiam para os outros povos da terra, eclodiam estranhas interferências, desconcertantes fenômenos disruptivos, caóticos espectros inconscientes que desorganizavam a ordem sanitária do real ideológico que aquela sociedade nos vendia.

Vinte e sete anos depois, quando a terceira temporada da série finalmente estreou no formato streaming, o cenário da narrativa era completamente diferente.

A estrutura mítica no real norte americano havia ruído.

Aquilo que, na primeira e na segunda temporadas, aparecia pelo canto do olho, como uma intromissão estranha em uma realidade limpa e ordenada, tal qual uma pulsão reprimida que eclode dos abismos inconscientes, agora, na América de 2017, havia engolido tudo.

Na época que a terceira temporada de Twin Peaks saiu, cheguei a comentar com o amigo Aristeu Araújo (cineasta potiguar radicado em Curitiba) que a conclusão da série me soava como um atestado de óbito cinematográfico do sonho americano. Para mim aquela obra prima de Lynch, encerrava-se com uma aporia kafkiana, um vislumbre perturbador da decadência de um país que foi semióticamente arrasado pelo peso das próprias fantasias que criou.

Agora, nessa virada de ano em que a twittosfera parou para assistir Não Olhe Pra Cima, filme dirigido por Adam McKay, minha impressão parece mais forte.

A sátira disponível na NetFlix só superficialmente trata de negacionismo científico e da idiotia política que toma conta das democracias liberais. A mensagem subliminar central do filme parece ser: “se nossa ordem liberal fracassar a humanidade vai sucumbir”.

A impossibilidade dos norte americanos salvarem a terra da catástrofe do cometa assassino (uma sátira com incontáveis peças de cinema catástrofe que se avolumam no museu de peliculas de Hollywood) aparece assim, não apenas como um apelo ridículo de uma nação que não consegue superar seus próprios conflitos internos e sucumbe diante da perda galopante de sua hegemonia global. Há também, no filme, uma chantagem clara, típica dos desesperados, que mostra o tanto de escatologia neonazista que compõe o imaginário da “maior democracia da terra”.

Um dos elementos fundamentais do nazismo hitlerista, que remontava a noção mitológica nórdica do Ragnarōk, era a ideia de que, se a Alemanha não triunfasse no seu destino histórico de defender o ocidente das hordas asiáticas (judaicas, eslavas, soviéticas) deveria haver uma destruição total do povo alemão e da Europa num armagedom final.

Foi esse delírio psicótico que levou Hitler a esticar a corda da guerra até quase o colapso total de sua própria nação e da própria Europa que ele jurava defender. Não Olhe pra cima me faz pensar que essa pulsão apocalíptica também povoa o imaginário das classes dominantes estadunidenses. Se não forem eles, os norte americanos, com seu modelo de democracia capitalista, capazes de salvar a terra, ninguém será capaz.

Melhor explodir o planeta a perder a fantasia do seu próprio destino grandioso. Uma chantagem desse tipo, por parte de uma nação que detém o maior arsenal nuclear do planeta, é realmente perturbadora.

Por isso eu não achei graça no filme de McKay.

Fiquei foi assombrado com aquilo.

Como um bom escriba de província, filho da periferia global, continuo me perguntando assustado: “que distopia é essa, meu irmão, em que essa galera que fala inglês quer meter o povo desse planeta?”

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