TRABALHO

Rede da qual Laboratório da UFRN que detectou tremores em João Câmara faz parte, teve corte de R$ 3 milhões em 2021

Manutenção em Estação Sismográfica I Foto: reprodução Labsis/ UFRN

Entre a noite de segunda (8) e a madrugada desta terça (9) foram registrados nove tremores de terra na região de João Câmara, no interior do RN à 79 quilômetros de Natal. Sete deles ficaram abaixo de 1.0 na Escala Richter e o maior chegou  a 2.1 de magnitude, tendo sido registrado às 23h09. Os terremotos foram detectados pelo Laboratório de Sismologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (Labsis/ UFRN), que faz parte da Rede de Serviço Geológico do Brasil, cujo orçamento teve uma perda de R$ 3 milhões apenas em 2021.

De acordo com Aderson Nascimento, professor titular do departamento de Geofísica e Coordenador do Laboratório Sismológico da UFRN, os cortes no orçamento têm dificultado, entre outras atividades, a manutenção predial e da rede de sismógrafos. Atividades minimamente necessárias para seu funcionamento.

A manutenção da Rede Sismográfica tem sido feita através de um projeto de pesquisa do CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico], que também tem sofrido cortes. Sentimos muita falta [de recursos]. Várias estações, após anos de uso apresentam problemas de manutenção e necessitam ser visitadas. Ainda mais se tratando de um país continental como nosso em que em algumas estações só é possível chegar de barco ou avião… As quatro instituições que compõe a rede são bem comprometidas. Temos pessoal treinado que, simplesmente, não consegue manter o trabalho por falta de verba para pagamento de pessoas e custeio de campo. Com o tempo, vai tudo se perdendo. Ainda dá tempo de salvar, mas podemos chegar num ponto de ‘não retorno’ ou de colocar o esforço e recursos humanos e financeiros a perder. Você vai tentando captar recursos de outras formas, mas isso tem um limite”, lamenta o professor. 

O convênio deveria ter sido assinado em 2021, mas o departamento entrou em 2022 sem sinal da renovação do contrato no qual estava previsto cerca de R$ 1 milhão por ano para manutenção e custeio de toda rede do país em padrões mínimos. O resultado já tem sido sentido na prática.

“O financiamento do Serviço Geológico do Brasil foi contingenciado e eles não puderam renovar. Vários pontos da rede Sismográfica Nacional estão sem transmitir. Conseguimos a nossa transmissão através de algumas parcerias com as prefeituras. Mas, a manutenção atualmente é a mínima e temos dificuldade para conseguir recursos para expansão, por exemplo. O trabalho que fazemos é de conhecer nosso território. A gente só protege o que conhece. Formamos gente e damos subsídios para vários tipos de estudos que necessitam dessa informação básica para se planejar”, alerta o professor Aderson Nascimento. 

O LabSis está localizado dentro do campus central da UFRN, em Natal, mas possui estações de monitoramento sísmico em todos os estados do Nordeste para detectar vibrações dos terremotos que ocorrem na região. Na semana passada, um abalo sísmico de baixa magnitude, que não chegou a ser percebido pela população, foi detectado pelo Labsis. Dias antes, em 31 de julho, várias pessoas na região de Natal relataram nas redes sociais terem sentido móveis e janelas tremer. No Laboratório de Sismologia, foram detectados oito tremores na área marítima de Touros, sendo o maior deles de magnitude 3.7 na Escala Richter. 

Junto com o Ceará e Pernambuco, o Rio Grande do Norte está numa das áreas onde há maior ocorrência de abalos sísmicos no país. Apenas na região de João Câmara, onde fica localizada a Falha de Samambaia, foram registrados mais de 50 mil terremotos num período de dez anos.  

A Falha de Samambaia é considerada a maior falha geológica do Brasil e acabou se tornando a mais bem estudada. Os maiores tremores até hoje registrados foram identificados em Pacajus (CE), em 1980, com magnitude 5.3; e no município de João Câmara, nos anos de 1986, com 5.1 de magnitude, e em 1989, com 5.0.  Desde o ano passado, mais de 20 tremores foram contabilizados pelos pesquisadores do Labsis na área marítima do litoral potiguar. Apesar de não serem percebidos pelas pessoas na maioria das vezes, esses tremores são comuns e ocorrem em falhas geológicas que entram em atividade. 

Causas 

Os tremores são provocados pela acomodação das placas tectônicas, sobre a qual estão os países da América do Sul. Como o Continente Sul Americano se afasta da Placa Africana em direção ao Oeste, o movimento provoca tremores no litoral e alguns municípios. 

Esse mesmo movimento também é responsável pelos grandes terremotos da região dos Andes, em países como Peru, Chile e Bolívia. Mas, como o Brasil fica no interior da placa, não ocorrem terremotos semelhantes. 

João Câmara 34 anos depois  

Era madrugada de 30 de novembro de 1986 quando a terra tremeu tão forte na cidade de João Câmara, que chegou a destruir a estrutura de várias casas da pequena cidade no interior do Rio Grande do Norte.  O terremoto atingiu 5.1 de magnitude na Escala Richter. Na época, centenas de moradores chegaram a se mudar da cidade por medo de novos tremores. 

Terremoto em João Câmara em 1986 I Foto: reprodução Wikipedia
Terremoto em João Câmara em 1986 I Foto: reprodução Wikipedia

ATUALIZAÇÃO ÀS 15H02:

O corte de R$ 3 milhões no orçamento de um projeto em 2021 ocorreu na rede de pesquisa sismográfica de todo o Brasil e não apenas no Labsis da UFRN, como dissemos inicialmente.

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