Motorista negro abordado por PMs por criticar golpistas em Natal não trabalha há dois dias; havia criança no carro
Natal, RN 26 de mai 2024

Motorista negro abordado por PMs por criticar golpistas em Natal não trabalha há dois dias; havia criança no carro

8 de novembro de 2022
4min
Motorista negro abordado por PMs por criticar golpistas em Natal não trabalha há dois dias; havia criança no carro

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Um motorista de aplicativo e uma cliente, com filho de dez anos de idade, foram abordados de forma constrangedora por policiais militares em Natal ao provocarem pessoas amotinadas na frente do 16° Batalhão de Infantaria Motorizada do Exército (16 RI), na avenida Hermes da Fonseca.

O fato ocorreu no final da tarde do sábado (5). O jovem, que é negro, chegou a publicar vídeo em seu perfil no Instagram, mas após receber ameaças e xingamentos, excluiu a publicação e desativou a conta.

A viagem, pela plataforma Uber, era de Ponta Negra a Mãe Luiza, e teve parada de quase meia hora na “manifestação” criminosa, que pede quebra da democracia com intervenção militar. O motorista e a passageira gritaram em direção à calçada “o choro é livre” e ofereceram um balde para que chorassem dentro.

“O policial me abordou, pediu pra que eu descesse do carro e perguntei se era só porque eu disse que o choro era livre. Eu insisti em saber o motivo pelo qual eu estava sendo abordado. Não foi meu primeiro baculejo, mas sem dúvida foi o que mais me afetou psicologicamente. Fui abordado como um criminoso em via pública na frente de várias pessoas”, relatou, ao dizer que não quer se identificar porque está com medo.

“Acredito que o fato de ser negro contribuiu sim para o constrangimento que sofri em via pública. Perguntei várias vezes o motivo da abordagem e em nenhum momento fui informado”.

A Polícia Militar do Rio Grande do Norte informou que abrirá um procedimento administrativo para apurar o caso.

“Falei o que muita gente queria falar pra essa galera, mas se eu soubesse que teria toda essa repercussão não teria falado nada. Tenho um filho de 11 meses e já estou dois dias sem trabalhar com medo de pegar algum passageiro ou que me reconheçam na rua e façam algo comigo”.

Segundo o motorista, os policiais tiraram foto do documento dele e postaram em grupo de WhatsApp. Um boato se espalhou sobre ele portar droga, porque no porta-malas do carro tinha dichavador e dois papelotes de seda, segundo o rapaz para uso de tabaco. Sem a presença de qualquer substância ilícita, foram liberados.

Mulher foi revistada na presença do filho

A passageira é a babá Josilane Souza e também foi revistada. O filho ficou dentro do carro enquanto policiais examinavam o interior do veículo.

“Eu estava no aniversário da criança que eu cuido e estava voltando pra casa com meu filho. Inclusive não conheço o motorista, a minha patroa pediu o uber do celular dela. E no meio do caminho aconteceu isso”, lamentou, ao confirmar o que vídeos que ela gravou já mostram.

“A gente tirou uma brincadeira com os manifestantes. Em nenhum momento a gente disse palavras ofensivas ou ameaçou alguém. Eu achei desnecessário a polícia ter feito a abordagem da forma que fez, ter falado pra gente descer do carro já com a mão na cabeça. Eu me senti realmente constrangida. E enquanto eu estava sendo revistada por uma policial, do outro lado da rua tinha uma pessoa me filmando, chamando de ridícula falando que eu ia ser presa. Em nenhum momento o policial pediu que parassem. Pelo contrário, falaram que a gente não podia estar falando nada contra eles, que ia me levar pra delegacia por desacato”.

Desacreditado

O constrangimento prosseguiu após o baculejo. Preocupado com a imagem de seu documento em grupo de policiais, o motorista foi até a Delegacia de Plantão da Zona Norte questionar sobre a ação do PM, mas não conseguiu registrar boletim de ocorrência.

“Estava mais preocupado com a foto do meu documento, se isso poderia me prejudicar. Temo pela minha vida. Tenho filho de 11 meses e o policial civil disse que era de praxe esse comportamento, que provavelmente o policial teria descartado a imagem e que não era motivo pra fazer boletim de ocorrência”.

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