Poesia, piada e como cortar cebola não se explica!
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Poesia, piada e como cortar cebola não se explica!

6 de junho de 2023
Poesia, piada e como cortar cebola não se explica!

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Por Cefas Carvalho

"É triste explicar um poema, é inútil também. O poema é como um soco. Se for perfeito, te alimenta para toda a vida". Essa frase da genial Hilda Hilst explicita uma obviedade. Poesia não se explica. Pelo menos foi o que aprendi desde criança pequena lá em Barbacena, não apenas com Hilda mas com os mestres da poesia, sejam cantadores populares ou intelectuais premiados, mas mesmo com filósofos de botequim. Recitada a poesia ficamos com o impacto e os aplausos. Ou a reflexão e silêncio se não entendemos o que a poesia quis dizer ou se não gerou nada em nós. Faz parte.

Piadas também não carecem de esclarecimentos. O piadista - amador ou profissional - conta sua anedota e, se a entendemos e é boa, rimos de doer os dentes. Se não entendemos, com os outros às gargalhadas, segue o jogo, mantemos a cara de paisagem ou um meio sorriso educado. Se ninguém rir sinal que a piada era ruim, aí é que não precisa explicar mesmo!

Isso tudo para explicitar minha estupefação ao perceber nesses dias de redes sociais e celulares que são verdadeiras câmeras, poetas explicando a própria poesia, antes ou depois de declamá-las. Ouvi de pessoas pelo menos meia dúzia de casos do gênero, além de perceber um outro tanto em reels e tik tok no Instagram. Poucas iniciativas me parecem mais sem sentido. Explicar uma poesia antes de recitá-la é como esfacelar os mecanismos de um relógio antes de colocá-lo para funcionar. Isso considerando que existem os mecanismos, talvez nem isso. Explicar depois da declamação me parece até pior. É privar o ouvinte da experiência do alumbramento. Ou do vazio, se a poesia for incompreensível ou ruim mesmo. O que faz parte do processo, como qualquer pessoa que frequentou saraus sabe.

também percebi nos tik toks da vida humoristas (sic) contextualizando as piadas que contaram ou irão contar. Certamente José de Vasconcelos e Ronald Golias estão se mexendo em seus túmulos. Não carece esse tipo de coisa, ainda que os humoristas estavam com medo que suas piadas soem racistas, machistas, misóginas, lbgtfóbicas ou capacitistas. Neste caso, para não ser algo da reprovação me parece bem simples: é só não contar piadas preconceituosas.

Mas talvez estes tempos sejam uma espécie de "era da explicação". Assistindo vídeos de culinária no Instagram (um de meus novos vícios, confesso) percebo uma infantilização cada vez maior do espectador. Se influencers em bares e restaurantes filmam sua relação com a comida com sorrisos colgates e como se estivessem num parque de diversões, com receitas não é muito diferente, talvez até pior. Chefs, cozinheiros amadores e todo tipo de gente ensina em vídeos receitas "simples, que até você pode fazer", como dizem, Até aí tudo bem, ninguém é obrigado a saber cozinhar e há muita gente ocupada que procura coisas bem fáceis e rápidas para fazer em casa. Mas chegamos ao ponto que num vídeo o cidadão ensinava a... cortar cebola. "Descasque a cebola, lave bem, corte em rodelas, depois com as rodelas em uma da outra corte em pedaços bem pequenos". Em outro vídeo o cidadão prometia ensinar a fazer "uma pizza-pão prática e econômica". A receita? Pão de forma, muçarela e tomate levados ao forno. E o "chef" ainda dá um toque de "mestre": "No fim jogue orégano em cima, esse é o segredo do gosto  ́italiano' na pizza". Dá para mim, não!

Brincadeiras e bizarrices à parte, observo uma tendência atual de super explicar qualquer coisa. Possivelmente gerada pela percepção do emissor de que o receptor - ou seja quem assiste o vídeo, quem ouve o podcast - não compreenda a mensagem emitida. No caso, o medo é de não "gerar engajamento", não "ganhar likes" com informação prolixa ou de difícil compreensão, portanto, se investe numa "facilitação" da mensagem para quem a recebe, na prática, infantilizando-o.

Nesse sentido, podemos perceber que mesmo a filosofia e o debate político embarcaram nessa tendência de explicar demais. Entre os "filósofos" atuais que fazem imenso sucesso temos Leandro Karnal, Mário Sérgio Cortella e Pondé mais passando "frases de auto ajuda" e explicações simples do que propriamente convidando os ouvintes ao questionamento que é a razão de ser da filosofia. Na política, tivemos de admitir que os métodos do deputado federal André Janones, de enfrentamento agressivo e direto com a extrema-direita e frases simples e provocativas à militância podem funcionar mais do que debates profundos e compreensão do fazer político. Não à toa nesse início no Governo Lula se fala que a esquerda não pode se comunicar como se estivesse "falando para a USP". É isso. A emissão de informações hoje não compreende um nível universitário, mas sim "rasteiro", de frases e conteúdos simples, que não confundam a cabeça do receptor, bombardeado por informações e com limitações cognitivas.

Ainda sabendo que é obra dos tempos e faz parte de uma tendência global de comunicação, ainda acho que não se deve explicar pelo menos poesia ou piadas. Muito menos como cortar uma cebola. Enfim, sigamos.

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