Servidores denunciam “gambiarras” e mães internadas em poltronas por falta de leito em maternidade de Natal
Natal, RN 25 de abr 2024

Servidores denunciam “gambiarras” e mães internadas em poltronas por falta de leito em maternidade de Natal

22 de junho de 2023
7min
Servidores denunciam “gambiarras” e mães internadas em poltronas por falta de leito em maternidade de Natal

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Desde que o Hospital Municipal Pediátrico Nivaldo Júnior, em Natal (RN), foi fechado no dia 12 deste mês pela Prefeitura de Natal e os pacientes transferidos para a Maternidade Araken Irerê Pinto, os funcionários da saúde estão tendo que refazer rotinas de trabalho dentro da unidade num cenário de superlotação e improviso.

Nós já estávamos nos acostumando a ser uma maternidade, já tinha inclusive o programa de aleitamento materno, estavam fazendo vários cursos voltados para a pediatria, tinha a intenção de transformar a UTI clínica para adultos, homem e mulher, numa UTI materna e pediátrica neonatal, mas não aconteceu porque acabou chegando outro serviço, inclusive, com menos leitos do que tinha no Hospital Nivaldo Júnior, que tinha 35 leitos, aqui tem no máximo 27. A geladeira onde guardam o leito materno, para as mães que não têm condições de amamentar o filho, tá no corredor porque não tem onde botar”, relata Érica Galvão, dirigente do Sindsaúde/ RN (Sindicato dos Servidores da Saúde do Rio Grande do Norte).

Mães em poltronas

Mãe internada em poltrona na Maternidade Araken Irerê Pinto I Foto: cedida
Mãe internada em poltrona na Maternidade Araken Irerê Pinto I Foto: cedida

Desde que recebeu os novos pacientes, a Maternidade Araken Irerê Pinto já teve a quantidade de leitos ampliados. Inicialmente, das 35 vagas do Hospital Municipal Pediátrico Nivaldo Júnior, apenas 11 haviam sido mantidas e 24 fechadas.

A quantidade de crianças que tem na regulação é tão grande que já abriram mais 11, agora são 22. A diretora da rede de urgência e emergência quer que abra mais cinco, num total de 27, o que é insuportável. Já tem mães parindo e ficando em poltronas porque não tem onde botar. A Leide Morais está lotada e aqui, o 2º andar que restou para as puérperas e recém-nascidos também já está lotado. Não tem berço de estabilização para criança que nasce com problema de saúde, ficam na fila esperando UTI porque aqui também não tem UTI pediátrica, suporte avançado de vida para criança...tá um caos. Teve um vazamento de gás há três dias, três pacientes clínicos adultos, que são resquício do antigo Hospital Municipal...antigo não, há dois anos... foram transferidos de forma urgente para o Hospital dos Pescadores porque ficaram sem oxigênio. Todo dia é uma novidade aqui. Inclusive, estão transformando o que foi o necrotério covid por três anos em refeitório. A única mudança que estão fazendo é colocar um toldo pra gente não ficar na chuva nem no sol”, ironiza Érica.

Raio-X

Outro problema enfrentado pela Maternidade Araken é que com o único aparelho fixo de raio-X quebrado há 90 dias, está sendo utilizado apenas o equipamento móvel, de capacidade inferior e maior risco de radiação.

Você não consegue firmar uma cultura organizacional. No raio-X estamos com o equipamento móvel, que tem capacidade inferior ao fixo. Ele serve para raio-X de leito. Há inúmeras questões de radioproteção, é proibido uso em sala por RDC [Resolução da Diretoria Colegiada]-611 da Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária], exceto, em caso temporário, mas já está assim há 90 dias. A dose de espalhamento de radiação no aparelho móvel é maior. Também tem um fio cortado e hoje a distância é menor e precisamos ficar mais perto do aparelho”, expõe Gilmar Virgínio, técnico em radiologia na maternidade.

Atualmente, a Maternidade Araken Irerê Pinto funciona da seguinte forma: no térreo, na parte da frente, está o pronto-socorro materno; na lateral o pronto-socorro ortopédico e há planos de abrir um pronto-socorro infantil. No 1º andar está a pediatria, uma sala de enfermaria pós-parto onde ficam as mulheres com os recém-nascidos, uma farmácia central e uma UTI com dez leitos; já no 2º andar funciona o alojamento conjunto, onde ficam as mulheres que acabaram de ter filho, além do centro cirúrgico e centro de esterilização de materiais, segundo a direção do Sindsaúde.

Domingo um enfermeiro desceu perguntando se podia levar o equipamento [raio-X] para UTI, em cima, para um paciente com suspeita de tuberculose. A manutenção aconselha a não subir nas condições atuais do prédio. O anexo da ortopedia não tem elevador, é uma rampa estreita cheia de desníveis. Imagine arrastar um equipamento de mais de 300 quilos por uma rampa! Tem que deslocar uns seis homens pra isso e num hospital onde o raio-X não pode parar. A gestão está improvisando muito com a saúde pública, falta mais investimento tecnológico, tem que se comprometer. O SUS não vai evoluir dessa forma, precisa de um investimento maior, de um plano melhor, estratégia, preparação”, avalia o técnico em radiologia.

Denúncias

A dirigente do Sindsaúde/ RN, Érica Guimarães, afirma que já fez denúncias sobre a situação a entidades de classe e ao Ministério Público, porém, sem qualquer efeito prático.

É como se esse prefeito [Álvaro Dias] fizesse o que quisesse e não acontece nada com ele. É como se Natal fosse um planeta fora do Brasil, um território sem lei. Há vários serviços ao mesmo tempo sem muita estruturação, tem muita gambiarra mesmo. Os funcionários estão todos sobrecarregados, vieram apenas alguns técnicos em enfermagem, o pessoal terceirizado agora trabalha para vários hospitais. Não teve reunião com equipes, está ocorrendo remanejamentos do pronto-socorro obstétrico do centro cirúrgico para a parte pediátrica, onde tem crianças com doenças infectocontagiosas e aí vai acontecer a contaminação cruzada”, alerta Érica Galvão.

O vereador Daniel Valença (PT), protocolou nesta quarta (21) uma representação na Promotoria de Justiça de Defesa da Saúde de Natal denunciando as condições de trabalho, estrutura e ausência de insumos na Maternidade Araken em razão da transferência dos pacientes do Hospital Pediátrico Nivaldo Jr, que foi fechado.

Constatamos que a fusão das unidades foi feita de surpresa, sem que o Hospital tivesse um plano de manejo estruturado de atendimento e divisão de equipes. Ao contrário do que foi mencionado pela Prefeitura, houve demissão de todos os funcionários contratados vinculados ao Nivaldo, bem como servidores efetivos foram deslocados para outros serviços. Todo um andar da maternidade foi disponibilizado para Pediatria, reduzindo os leitos obstétricos e os leitos pré-parto que possibilitavam um atendimento humanizado para parturientes. Mais grave ainda são os riscos de contaminação cruzada. As crianças chegam, por exemplo, com infecções respiratórias e são atendidos pela mesma equipe dos recém-nascidos. Não se fecha hospitais; menos ainda um que era referência no atendimento pediátrico e que foi inaugurado em 2020 pela própria gestão Álvaro Dias”, criticou o parlamentar.

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