Salinas, parques eólicos e ocupação desordenada ameaçam litoral da Costa Branca, aponta pesquisa da UFRN
Natal, RN 13 de abr 2024

Salinas, parques eólicos e ocupação desordenada ameaçam litoral da Costa Branca, aponta pesquisa da UFRN

13 de setembro de 2023
7min

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A exploração salineira, a instalação de parques de energia eólica, além da ocupação desordenada do litoral e o avanço do nível do mar, são ameaças reais que colocam em risco 12 geossítios localizados entre o Rio Grande do Norte e o Ceará, região conhecida como Costa Branca: o sistema estuarino Ponta do Tubarão, as Dunas do Rosado, as Falésias do Rosado e as Falésias da Ponta do Mel, localizados no RN, e o Sítio Retirinho, a Praia de Ponta Grossa, Praia da Redonda, Praia de Picos e Vila Nova, Mirante Serra do Mar, Praia da Requenguela, Mirante do Icapuí e Praia de Manibu, no CE.

Essa foi a 1ª vez que a metodologia utilizada na pesquisa foi aplicada na realidade brasileira. NO estudo é analisado o risco de degradação do geopatrimônio a partir de três principais aspectos: vulnerabilidade natural, vulnerabilidade antrópica e uso público.

A partir dos resultados que nós obtemos para a área, observamos riscos de degradação classificados como alto na maioria dos geossítios. É importante destacarmos que estes geossítios estão localizados em um ambiente de interação natural entre atmosfera-mar-oceano, que contribuem para a composição de uma área naturalmente mais vulnerável. Porém, os desgastes do geopatrimônio no litoral da Costa Branca estão associados principalmente aos usos humanos, visto que na área há a presença de indústrias salineiras e eólicas e o aumento de assentamentos urbanos com planejamento desordenado que contribuem para a deformação de feições, acúmulo de resíduos sólidos e ravinamento do relevo devido à presença de canais de escoamento de água e esgotos”, alerta Thiara Rabelo, que realizou a pesquisa durante seu estágio pós-doutoral no programa de Pós-graduação em Geografia (Geoceres), do Centro de Ensino Superior do Seridó (Ceres/UFRN), sob orientação do professor Marco Túlio Diniz, foi publicada na revista científica Water.

Usinas eólicas nas proximidades das Dunas do Rosado, na Costa Branca – Foto: Cícero Oliveira – Agecom/UFRN
Usinas eólicas nas proximidades das Dunas do Rosado, na Costa Branca – Foto: Cícero Oliveira – Agecom/UFRN

A região da Costa Branca é conhecida por reunir paisagens paradisíacas de dunas, falésias, mar e sertão, mas o que muitos de nós não sabemos é que ela também faz parte do geopatrimônio do litoral semiárido, isso quer dizer que essa é uma área rica tanto do ponto de vista da paisagem e, consequentemente, do turismo, quanto científico. Esses geossítios são locais com características (geológicas, geomorfológicas, etc.) que ajudam os pesquisadores a compreender a dinâmica ambiental de um lugar e a história da Terra.

Na área são encontradas grandes feições de deltas, praias, dunas móveis e fixas, planícies hipersalinas, tabuleiros costeiros e falésias, que apresentam estruturas representativas para o litoral brasileiro. É importante destacar que a grande inquietação da nossa pesquisa partiu de observamos que estes geossítios estão localizados em unidades de conservação, porém algo que foi identificado no decorrer do trabalho é que as ações de conservação nestes espaços estão mais voltadas para a biodiversidade do que para a geodiversidade (rochas, formas de relevo, solos, etc.). A ação humana que ocorre na área, associada as mudanças climáticas, podem causar impactos negativos sobre o geopatrimônio costeiro nessa região”, detalha a pesquisadora.

Elevação do nível do mar

Além da intervenção humana, a pesquisa apontou que a maioria dos sítios pesquisados também estão ameaçados pela elevação do nível do mar decorrente do aquecimento global.

Thiara Rabelo, que realizou a pesquisa durante seu estágio pós-doutoral no programa de Pós-graduação em Geografia (Geoceres), do Centro de Ensino Superior do Seridó (Ceres/UFRN)
Thiara Rabelo, realizou a pesquisa durante estágio pós-doutoral no programa de Pós-graduação em Geografia (Geoceres), do Centro de Ensino Superior do Seridó (Ceres/UFRN)

Todos os geossítios identificados, localizados nas áreas de planícies, são totais ou parcialmente impactados pela elevação das marés, o que colabora para o aumento da vulnerabilidade natural desses locais, com exceção dos geossítios localizados em locais mais altos como as Falésias de Ponta do Mel e Falésia do Rosado. Para alguns destes sítios, como a Praia de Redonda e Perobas, a Praia de Picos e Vila Nova e a Praia de Ponta Grossa, as alterações do nível do mar associadas à presença humana no local e seus diferentes tipos de aproveitamento do terreno podem impactar diretamente na perda de características científicas importantes destes sítios e consequentemente em seu valor estético. Estas informações nos alertam para a relevância da relação ‘mudanças climáticas e usos humanos’ que intensificam o risco de degradação do geopatrimônio em áreas costeiras”, avalia Thiara Rabelo.

A pesquisadora também reforça que é possível fazer uso econômico das riquezas naturais sem implicar em sua degradação. Porém, essa é uma tarefa que exige um esforço coletivo do poder público, privado e sociedade.

É necessário o despertar do poder público e privado para isso. O geoturismo, um novo segmento do turismo, é uma alternativa para este uso sustentável. Ele possibilita o uso do local a partir de práticas educacionais de sensibilização, como, por exemplo, com criação de roteiros turísticos que venham não apenas mostrar a beleza do local, mas contar a história geológica e geomorfológica da área, possibilitando aos visitantes a compreensão dos motivos pelos quais aquele geossítio deve ser conservado. Práticas como estas proporcionam retorno econômico e sensibilização ambiental. Essa já é uma realidade vivida no território do Geoparque Seridó, no Rio Grande do Norte e pode ser um exemplo a ser aplicado na região da Costa Branca”, sugere Thiara Rabelo que aponta, ainda, para a necessidade de um mapeamento do geopatrimônio local para o desenvolvimento de estratégias de exploração.

Pesquisa em expansão

O levantamento e análise dos dados apresentados na pesquisa durou cerca de seis meses, até a publicação dos primeiros resultados.

Nós contamos com uma equipe que já obtinha conhecimento amplo sobre a área e sobre a temática em questão, como a Isa Gabriela, a Larissa Queiroz e Maria Luiza Terto (doutorandas do PPGE em Natal) e do Prof. Dr. Paulo Victor do Nascimento, do IFRN. Este trabalho é um dos primeiros resultados de um projeto maior que vem sendo financiado pela FAPERN (Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio Grande do Norte) e está sendo realizado através da Universidade Federal do Rio Grande do Norte pela Programa de Pós-Graduação em Geografia do CERES (GEOCERES) e está sob a coordenação do Prof. Dr. Marco Túlio Mendonça Diniz, com parceria com pesquisadores da Universidade de Minho, na figura do Prof. Dr. Paulo Pereira”, detalha a pesquisadora de pós-doutorado que trabalha na área de riscos de degradação no geopatrimônio costeiro em Unidades de Conservação.

A partir de agora, a intenção é expandir a aplicação da metodologia usada na pesquisa para as demais unidades de conservação localizadas em áreas costeiras do Rio Grande do Norte para identificar o risco de degradação do geopatrimônio nesses outros locais.

Equipe em campo (da esquerda para a direita): Ms. Isa Gabriela Araújo, Ms. Maria Luíza Terto, Ms. Larissa Marques, Dra. Thiara Rabelo e o Prof. Dr. Marco Túlio M. Diniz
Equipe em campo (da esquerda para a direita): Ms. Isa Gabriela Araújo, Ms. Maria Luíza Terto, Ms. Larissa Queiroz, Dra. Thiara Rabelo e o Prof. Dr. Marco Túlio M. Diniz

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