Sobre Marta Suplicy: Lula faz política; militância pensa com o fígado
Natal, RN 3 de mar 2024

Sobre Marta Suplicy: Lula faz política; militância pensa com o fígado

10 de janeiro de 2024
7min
Sobre Marta Suplicy: Lula faz política; militância pensa com o fígado

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Causou frisson e reações acaloradas o anúncio de que a ex-prefeita de São Paulo Marta Suplicy ( que está sem partido) aceitou ser candidata a vice-prefeita de São Paulo na chapa de Guilherme Boulos (PSOL), após uma conversa com o presidente Lula no Palácio do Planalto nesta segunda-feira dia 8, inclusive com Mara possivelmente voltando para o PT, partido onde esteve por 33 anos e de onde saiu em 2015.

Explica-se o frisson: Marta ocupa o cargo (na verdade o deixou nesta terça, 9) de secretária de Relações Internacionais do prefeito Ricardo Nunes (MDB), que tentará a reeleição e enfrentará Boulos, apoiado por Lula e PT na eleição de outubro.

Explica-se também as reações acaloradas: após ter sido pelo petismo, prefeita, deputada, senadora e ministra da Cultura e do Turismo, Marta deixou o partido atirando e com muitas críticas, compondo com partidos de Centro-direita inclusive tendo voado pelo impeachment de Dilma Rousseff, o que até hoje causa indignação e revolta na militância petista. 

Mas como cantou Caetano, tudo é muito mais. Política é a arte de lidar com o que se tem e não com o que se quer. A arte do possível, não do ideal. E ninguém mais que Lula, gênio da macro política e diplomacia como poucos, sabe disso. Para Lula e progressistas que veem 2024 como uma oportunidade de isolar a extrema-direita e o bolsonarismo, é fundamental a conquista da prefeitura da maior capital do país, São Paulo.

A esquerda vem liderando as pesquisas, com o nome de  Guilherme Boulos - explicitamente apoiado pelo  -  sempre na frente. Contudo, o atual prefeito Ricardo Nunes, mesmo com uma gestão mal avaliada e sem ser conhecido de boa parte da população (herdou o cargo com a morte de Bruno Covas) vem em segundo bem próximo a Boulos. Logo depois, entre terceiro e quinto lugar, só nomes de centro-direita: Ricardo Salles, Kim Kataguiri e Tabata Amaral. Não precisa ser especialista em pesquisas para imaginar que a soma de todos os adversários, caso se unam em um segundo turno, ultrapassa a vocação de Boulos. Logo, é preciso agir enquanto é tempo. 

Pragmático e colocando sempre macro política acima de questões pessoais, Lula anteviu Mara como a vice ideal para Boulos. Não com base em instinto ou achismo, mas em números e dados. Paradoxalmente, apesar de ser ligado ao Movimento dos Sem Teto, Boulos, segundo as pesquisas e no mapa eleitoral da eleição de 2020 (quando ele ficou em segundo lugar) em maior votação nos bairros de classe média e nas camadas com maior escolaridade e poder aquisitivo (fenômeno semelhante ao que viveu Marcelo Freixo no Rio de Janeiro). 

Aí entra Marta. Mesmo quando perdeu as eleições que disputou para prefeita, sempre teve ótima votação nas periferias. Inclusive pesquisas mostram que apesar do perfil elitista e sobrenome ilustre, Marta é a política com maior aceitação e potencial de votos em bairros periféricos. Em alguns bairros ela é idolatrada mesmo. Em algumas viagens para São Paulo cheguei a constatar essa adoração que parte do eleitorado menos abastado em pela mãe do Supla. Isso também se explica. 

Marta foi uma das melhores prefeitas da história de São Paulo. Sua gestão priorizou as necessidades da periferia - o que explica a manutenção de seu capital eleitoral. Ela criou o Bilhete Único, pois até 2004, os paulistanos tinham que pagar uma tarifa integral a cada ônibus utilizado. Com o Bilhete Único, os passageiros passaram a ter o direito de pegar quantos ônibus precisassem no período de 2 horas pagando apenas uma tarifa. Isso melhorou imensamente a qualidade de vida (e o bolso) de milhões de trabalhadores. 

Ela também criou o Passa Rápido, um projeto de construção de grandes corredores de ônibus ligando o Centro de São Paulo aos bairros da periferia, reduzindo o tempo de deslocamento dos trabalhadores que utilizam o transporte público, além de ter inaugurado 11 novos terminais de ônibus, quase todos na periferia  (Jardim Ângela, Grajaú, Parelheiros, Sapopemba, São Miguel Paulista, Pirituba, etc.), e articulou a integração dos ônibus com o metrô, a CPTM e a EMTU.

Mais números: Marta ampliou os investimentos em educação na cidade. A fatia do orçamento destinada à educação subiu de 24% para 33% em três anos. Ao longo do mandato, Marta construiu 148 escolas de ensino infantil e fundamental. E ampliou em 80% do orçamento destinado à merenda escolar.  também criou os Centros Educacionais Unificados (CEUs). Inspirados no conceito de escola-parque, desenvolvido a partir das ideias de Anísio Teixeira, que concentram atividades educacionais, culturais e esportivas e servem como espaços de sociabilização e convivência. Marta foi responsável por municipalizar o sistema de saúde de SP, substituindo o sistema público-privado criado por Maluf (PAS) pelo SUS, repassando mais de 500 instituições assistenciais à rede pública e ampliando em R$ 100 milhões de reais por ano o orçamento da saúde.

Esse texto não pretende ser assessoria de imprensa da gestão Mara quando prefeita. Mas sim registrar porque ela está tão presente no imaginário de parcela do eleitorado que lembra de suas ações independente de ideologia ou posturas políticas. Para o morador de Jardim Ângela ou da mãe que tem de pegar quatro ônibus em Jabaquara, não faz a menor diferença se Marta é do PT ou MDB, se ela é aliada ou desafeto de Dilma. E Lula sabe disso.

Dito isso, na construção de uma frente que viabilize a eleição de um quadro preparado como Boulos e enfim tire Centro-direita da Prefeitura, Marta é um nome bem vindo. Por mais que eu, Cefas e a maior parte da militância de esquerda tenhamos um milhão de ressalvas contra ela, todas justas, diga-se.  Mas observemos também a reação estranhamente indignada da mídia conservadora à novidade, quase toda ela lembrando da pecha de traidor da ex-prefeita e suas muitas críticas a Lula e Dilma. Parece haver mesmo é um temor dos conservadores de perder a eleição para a prefeitura de SP e que vão tentar queimar a Marta por essa recomposição com o PT. Só esse choro e ranger de dentes da mídia tradicional já mostra que Lula pode ter dado um xeque no xadrez político para a eleição de outubro. A custa do choro e ranger de dentes da militância de esquerda, que ao contrário do presidente, ainda vê a política com "romantismo" e com o fígado, mesmo com a extrema-direita presente para tentar golpe de estado em qualquer oportunidade. Menos rancores e mais macro política. Como quer e faz Lula (vide o companheiro Geraldo Alckmin vice-presidente). E sucesso para a chapa Boulos-Marta.

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