O Capiba da metropolitana
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O Capiba da metropolitana

29 de abril de 2018
O Capiba da metropolitana

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Morador de rua.

Branco, alto, desengonçado, pernas tortas – a direita era a mais arqueada – a boca funda, sem dentes, cabelos brancos, ralos, rosto sempre com a barba por fazer,  macerado, olhos sem brilho, olheiras profundas, a cara do sofrimento de quem não tem família, de quem é só no mundo.

Estava todos os dias na Parada Metropolitana, antiga, nas proximidades da Lanchonete Chapinha, na Cidade Alta. Briguento, anti-social, soltava palavrões e impropérios quando algum dos balconistas mandava ele se retirar. Não saía, acabou que todo mundo foi se acostumando.

- Tá pensando o que? Sou Capiba, craque do Alecrim de 68, campeão invicto. Posso ficar onde quiser – dizia sempre em sua defesa.

Quem escutava ficava em dúvida. Muitas vezes juntava gente para ouvir as histórias de “Capiba”. Ele misturava realidade com ficção.

- Fui eu que ensinei Icário a bater falta. Quando ele chegou em Natal vindo de Campina Grande, era grosso, mas aí foi treinando, treinando, pegou o jeito – dizia a na maior cara de pau.

Até ele acreditava mesmo na história criada.

Narrava os jogos. Os seus jogos, e gols, segundo afirmava.

E era muito engraçado. Dizia que foi dele, e contra o ABC, um gol antológico narrado por Roberto Machado.

Um gol em que vários torcedores de tanta empolgação caíram das mangueiras que cercavam o estádio Juvenal Lamartine - nosso estadinho do Tirol, berço do futebol, abandonado, bem pertinho de completar cem anos -  e que assistiam de lá porque não tinha dinheiro para o ingresso.

Capiba era fã de Roberto Machado, narrador que marcou época no rádio Potiguar nas emissoras Poti, Cabugi e Nordeste.

- O melhor narrador de nosso futebol – afirmava.

E narrava tentando fazer a voz parecida com  a do ídolo:

- Falta para o Alecrim na altura da intermediária, sete metros da entrada da área. Silêncio sepulcral na torcida do ABC. A galera esmeraldina, ouriçada,  faz a festa e pede Capiba, Capiba, Capiba, Capiba  para bater, aaaaaaaaahhhhhahahahaahahahhahahahahahahahahah.

Fazia até o barulho da torcida.

O juiz Luiz Meireles, o Cobra Preta, conta os passos regulamentares. Capiba ajeita a bola com carinho, vai caminhando para trás sem tirar os olhos da pelota. Preparou, bateu: goooooooooooooooooooooooooool! Golaço de Capiba! Vibra a torcida esmeraldina, despencaram torcedores das mangueiras que cercam o estádio JL, tem gente caída, machucada, mas vibrando com o golaço de Capiba. A bola fez uma curva, passou sobre a barreira e foi morrer no fundo do barbante do goleiro Erivan. Vibra, vibra, vibra a torcida do Periquito. Alecrim 1, Capiba! ABC, zero – e ele gritava, narrava alto, e quanto mais alto falava mais gente juntava na Metropolitana para ouvir seus delírios.

Mas aí, quase sempre acontecia, um gaiato começava a soltar piadas. “Mentira dele”! “Mentiroso”! “Ele não é Capiba não, é mentira, eu conheço Capiba, ele trabalha na loja Socic, é o gerente de lá...e por aí.

Daí a pouco estava todo mundo xingando o pobre coitado.

Ele ficava louco, começava a soltar todo tipo de palavrão, e ameaçava os rapazes com pedras, paus e facas, muitas vezes até de morte. Era um escarcéu, um corre-corre.

-Mentiroso é a puta que pariu, bando de moleque safado, fi de rapariga...- e por aí seguiam os palavrões revoltados do “jogador”.

Depois, furioso, a ponto de quase ter uma síncope, ele apanhava seu saco e sumia no mundo e só aparecia no dia seguinte.

Se alguém perguntasse na noite do outro dia, no mesmo horário, no mesmo local, Lanchonete Chapinha, como se não tivesse acontecido nada, contava tudo de novo e com a mesma empolgação.

Esse gol narrado por Roberto Machado, a queda dos torcedores da mangueira no JL, era uma fixação. Mas tinha outros lances, acontecimentos diversos que ele “viveu” defendendo o Verdão Maravilha.

 Falava dos jogadores do Alecrim, citava todos, titulares, reservas, como se fossem seus amigos íntimos, claro, era.

Certa vez, Zezé, ponta direita campeão de 1968, estava lanchando no Chapinha. Os bagunceiros viram a chance de ouro e foram chamar Capiba.

Ele veio, mas quando disseram que “Zezé estava na lanchonete” ele deu meia volta e sumiu na direção da Casa do Estudante.

E Zezé, rindo, perguntava: - cadê o mentiroso?

No outro dia, na maior tranqüilidade, a explicação de Capiba, claro, depois de checar se Zezé não estava por perto.

- Eu não quero conversa com o Zezé, ele enche a cara de cachaça, e como ele tem muita inveja de mim porque eu era  o ponta direita titular fica mentindo em todo lugar que chega. Um invejoso porque eu sempre fui mais famoso – justificava.

Todo mundo, claro, fingia acreditar, e outros iniciavam mais provocação. E Capiba seguia contando suas lorotas. Quem não conhecesse o Capiba verdadeiro era bem capaz de acreditar na história do maluco da Metropolitana.

E o tempo foi passando. Sem muitas mudanças. Um dia, quem aparece? Capiba. O de verdade. Ele mesmo. Nem sei se alguém fez isso de propósito, até hoje não soube, mas acho que sim. Capiba, o craque do Verdão, com sua elegância, seu bigode, acho que na época ele era gerente da Loja Socic, no Alecrim, estava em carne e osso, ao vivo na Lanchonete Chapinha.

Um amigo comum falou do maluco para ele, que achou muita graça. E é evidente, imediatamente começaram a procurar o Capiba falso para o grande tira-teima. Procuraram ele na parada e nada. Quando o craque do time verde já estava pagando a conta do lanche para ir embora, o Capiba II apareceu.

Estava perturbando na outra lanchonete, quando os caras descobriram ele e o convenceram a ir lá no Chapinha.  Inocente, ele foi chegando. E sem saber acabou ficando frente a frente com o verdadeiro.

A hora da verdade chegou e ele nem se deu conta da armação.

-Sabe quem é esse?  – perguntou um dos atendentes da lanchonete Chapinha.

 -Sei não...quem é?  – respondeu e perguntou nosso herói.

-Esse aqui – continuou Batista – é o verdadeiro Capiba do Alecrim, diga que não é? E fez todo o discurso de apresentação, e coisa e tal...

O pobre coitado, pego de surpresa, não se irritou, parou, olhou, olhou, mastigou, mastigou algo com sua boca sem dentes, com seu jeito particular, balançou a cabeça, olhou de novo e sapecou:

- Esse aí é Capiba, o músico de Recife? –  perguntou na maior tranquilidade.

-Não, esse aí é Capiba do Alecrim, o verdadeiro jogador campeão de 68 - reforçou o rapaz da lanchonete.

O nosso fanfarrão olhou de novo e falou de forma firme, solene:  - esse aí é um impostor. Eu sou o verdadeiro Capiba.

Dizendo isso,  foi embora quase correndo com seu saco nas costas sem olhar para trás.

Capiba, divertido, caiu na risada, ele e todo mundo que estava na lanchonete esperando o desfecho da história.

Depois desse dia, nunca mais, nunca mais ouvimos falar do Capiba da Metropolitana.

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