OPINIÃO

Como ser felis?

Foi na semana passada, quando parecia que o universo queria me ensinar alguma coisa que andava lá meio esquecida, desbotada, embora nunca fora dos meus propósitos e sempre com uma capacidade louca de renascer assim do nada, sem aviso ou preliminares.

Depois de uma segunda-feira cansativa, daquelas que parecem trazer consigo o peso da semana inteira, aceitei a carona da colega de trabalho até a estação do Guará, afinal isso significava estar a um ponto da minha casa e, por mais que eu goste de pegar o metrô na rodoviária, onde todas as dores e os cansaços se encontram e se reconhecem (e se consolam), eu precisava daquele atalho até minha tão desejada cama.

Não imaginava que, ao descer as escadas rolantes da estação, algo romperia totalmente com a normalidade daquele início de semana, acostumado à indiferença de todos aqueles que preferem fixar os olhos na tela do celular a ter que trocar palavra com qualquer outra pessoa que esteja ao seu lado.

Um homem entre 20 e 30 anos, roupas simples, sandálias nos pés, que conduzia sua velha bicicleta para fora do vagão dos ciclistas, rasgou o silêncio da noite e declarou, em alto e bom som, para todos escutarem, o quanto ele era feliz.
Não satisfeito com a falta de receptividade, e com a certeza da missão que tinha em contagiar o mundo inteiro daquele sentimento, ele insistiu, em discurso dirigido à margem oposta da plataforma, dizendo:

– Uma semana maravilinda pra vocês. Sabem o que é maravilinda? É maravilhosa junto com linda. – arrancando aplausos internos e olhares de empatia misturada com espanto. Afinal, era uma segunda-feira, dia internacional do mundo inteiro contra a gente.

E como não bastasse a explicação do maravilindo neologismo, o alegre anônimo desafiou a segunda-feira e os cabisbaixos passageiros que, como eu, aguardavam o metrô no caminho de volta pra casa:

– Vocês precisam saber que tudo sempre dá certo. Depende só do jeito que a gente vê as coisas. Mas sempre dá certo!
Aquela alegria estimulou sorrisos, alguns largos, outros contidos. Fato é que a segunda-feira se transformou em outra coisa. Como um feriado prolongado, um início de férias, o dia de ganhar na mega-sena, ou de apostar naquele amor impossível, ou simplesmente aquele instante em que nos permitimos rir do vento, sem medo, ou razão, de ser feliz.

Ele foi embora, mas a felicidade não. E entrei no metrô pensando nela, em como ser feliz é mesmo uma escolha de vida, uma vontade diária que é preciso alimentar, ainda que o mundo tente, com suas garras, lhe fazer pensar o contrário, imaginar que os dias não passam mesmo de uma rotina triste e sem sentido, e que a tal felicidade não está assim tão fácil de encontrar, como avistei na outra margem da estação do Guará.

Dias depois, ainda contaminada pelo otimismo que mudou meu mundo e de outros passageiros que tiveram a oportunidade de receber aquela vibração positiva capaz de nos blindar com campo de força mágico pelo resto da semana, vejo essa energia reverberar através de uma mensagem gravada em um gramado de verde esperança, por alguém que sonha e, sem se importar com a escrita (que ela pouco importa pra quem sonha e vive a desejar e fazer o bem), espera, de verdade, que todos tenham um “felis Natal”…

Pois saiba, amigo jardineiro da alma, que a semente que plantou ali viajou o mundo, e transformou a vida e o Natal de muita gente desacostumada a parar pra ler, ouvir, e até mesmo acreditar em um desejo tão simples como esse, de despertar o coração de todos que precisam renovar valores esquecidos como esse, pra escolher ser feliz ou felis, porque tanto faz a escrita, o que importa mesmo é sentir a alegria das coisas mais simples, e vivê-las plenamente…

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