OPINIÃO

Perfeito engano

Precisava mesmo de uns dias de esquecimento total da realidade brasileira e de tudo que nos consome a vida sem que a gente se dê conta, e aceitei prontamente o convite do meu amigo Rafael Duarte para ir à Festa Literária Internacional de Paraty, que coincidentemente também era feito pela música que martelava minha cabeça di-a-ria-mente: “Vamos fugir, desse lugar…”

Numa madrugada de junho, comprei passagem e reservei pousada. Ficaria um dia no Rio de Janeiro, cidade em que morei e estive pela última vez aos 13 anos de idade e onde agora tenho pouso certo na residência de Doreli, esposa de meu tio-avô Xande, a quem meu pai admirava muito, de uma parte da familia por quem tenho imenso carinho.

O encontro no Rio serviu para reavivar doces memórias da minha infância em terras cariocas, em um jantar maravilhoso com Doreli e Ricky, meu primo. A conversa fez uma viagem até os tempos em que íamos visitá-los na casa da Barra que ficava no mesmo condomínio da Xuxa e terminou com o cheiro do chá de capim santo que a gente tomava junto à lareira da casa de campo deles, em Lídice.

Na manhã seguinte, saudades alimentadas pelo café da manhã com pão recheado de geleia de laranja me fizeram prometer voltar em breve, dívida que vou adorar pagar provavelmente no fim de setembro. Me despedi de Doreli e agradeci a acolhida. Peguei o transporte até a rodoviária, para então seguir viagem para a FLIP, meu refúgio dos tempos sombrios, movido à arte, literatura, música e gente com vontade de mudar o mundo.

Foi só neste momento que me comuniquei com a pousada que reservei, para duas pessoas, pois tinha esperança de levar um amor recente de Brasília para “onde haja só meu corpo nu junto ao seu corpo nu”, o que acabou não acontecendo. Sozinha na estrada, mas plena de lembranças e energias boas dos meus últimos encontros, recebi como um balde de água fria a notícia de que a pousada onde eu estava hospedada ficava, na verdade, em Trindade, a 25 km da FLIP.

“Mas como assim? O site de reservas falava que era em Paraty, e que a pousada ficava a 300 metros do centro”, disse ao recepcionista pelo whatsapp, um pouco desesperada e com o frio na barriga de quem se desacostumou a viajar sozinha. “Trindade é um distrito de Paraty, mas a pousada fica a 300 metros do centro…de Trindade”, contou ele. Não estava só com receio de ter entrado numa roubada, mas meu cagaço era também não poder pagar por ela, já que viajei com a grana contada, sem espaço para imprevistos desse tipo.

Ele tentou me acalmar informando que havia ônibus no valor de R$ 5 a passagem, da rodoviária de Paraty para Trindade e vice-versa. A estrada até Paraty é de uma beleza rara, cheia dos contornos próprios daquele estado, que mescla montanhas aos deslumbrantes mares de um azul profundo. Isso e a descoberta de que Trindade era um reduto da galera legalyze, como avisou meu mais novo amigo de infância (que fiz nesse ônibus), Vampirão, que tem um bar de rock no local, me fizeram tomar a decisão de relaxar e aproveitar o que quer que viesse junto com esse meu engano…

Os 50 minutos da rodoviária de Paraty até Trindade, foi outra viagem que me fez suspirar a cada curva e descoberta, me deixando até feliz de estar perdida e tão longe do meu destino. “Os R$ 5 mais bem pagos do universo”, pensei. Cheguei à Trindade por volta das 16h, perto do pôr-do-sol. Deixei a mala na pousada e corri, na velocidade possível para uma senhora de 41 anos, para a beira da praia mais próxima, que ficava a pouco mais de 300 metros.

Ao avistar o mar, com barquinhos de pesca recolhendo redes de arrasto, gaivotas na esperança de arrancar-lhes uma sobra, montanhas com cheiro de mato e pedras dignas de passar o resto da tarde (ou da vida) em cima, com uma cerveja gelada, contemplando a despedida do sol que não lembro se morreu no mar ou na montanha, mas sei que morreu feliz, entendi que aquele era o meu melhor engano.

Naquela tarde, eu quase esqueci da FLIP, para onde segui somente depois de umas doses de Gabriela, cachaça local de sabor cravo com canela, com garrafinhas exatamente do tamanho da minha sede. Não preciso dizer que meu desafio em andar pelas ruas históricas de Paraty naquela noite foi intensificado por ela, que se travestiu de suco pra embalar minha volta pra Trindade, no último ônibus, das 22h50.

Essas viagens passaram a ser outra parte maravilhosa da diversão, repleta de malucos como eu, com histórias que renderíam muitas outras crônicas, com destaque para o “Bem louco, bem louco”, figura de alma boa que perdeu o juízo trabalhando para uma empresa de cartão de crédito e hoje vive como um pescador bem louco mesmo, no meio daquele paraíso. Excelente dançarino de forró, péssimo jogador de sinuca, não me lembro do nome verdadeiro dele, já que exigia ser chamado assim, e eu não sou de contrariar maluco.

Um outro cara cismava sempre de sentar do meu lado e falar dos tempos em que escrevía numa revista famosa de rock, que não me peça pra repetir o nome, porque nunca entendi direito o que ele dizía, ainda que prestasse uma atenção danada. Na última viagem ele chegou a discutir com um passageiro atrás da gente que, na verdade, só existía em sua cabeça. Só percebi quando ele ameaçou partir pra cima da pessoa imaginária e eu, assustada, busquei demovê-lo da ideia, mudando logo de assunto e dizendo que aquela discussão não valia à pena, “bora falar de outra coisa”… Cheguei à conclusão de que sou boa de conversar com meus semelhantes.

O encantamento com meu engano aumentou, a cada dia em que pude conhecer melhor as praias da região, quando encontrei outras tantas pessoas que se perderam ali e que, como eu, esqueceram até de Paraty. Comi um peixe à beira-mar por R$ 20, conversei com Jah, fiz até trilha (uma que me levava a uma barraca de caipirinhas na praia do Cachadaço, mas fiz) tomei mais Gabriela, e percebi que bem louco mesmo não é o ilustre morador de Trindade, mas o tempo que a gente perde imaginando que o trabalho é tudo nessa vida.

Fui-me embora levando comigo tantas histórias que o Rafael Duarte sugeriu até uma coluna diária pra falar de cada uma delas, mas só agora a vida (ou a insônia) me deu certo tempo para finalizar a primeira às 4h47, só para atiçar a minha vontade e a minha certeza de que preciso voltar àqueles dias. Então até a próxima viagem de volta… Te espero em Trindade!

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