CULTURA

Abrazo e A mulher Monstro representam RN em festival de obras censuradas pelo governo Bolsonaro

O espetáculo Abrazo, do grupo de teatro potiguar Clowns de Shakespeare, está confirmado no festival Verão Sem Censura, promovido pela prefeitura de São Paulo. O evento acontece de 17 a 31 de janeiro, em cinco regiões da capital paulista, e vai abrigar 45 manifestações culturais censuradas pelo governo Bolsonaro, entre peças de teatro, filmes, debates, shows, exposições, performances e carnaval.

Abrazo será apresentada nos dias 17, 18 e 19, no Centro Cultural Olido.

O espetáculo do grupo potiguar foi cancelado minutos antes de sua segunda sessão, em 7 de setembro, em Recife. Abrazo havia sido selecionado no edital público da Caixa Cultural, ligado à Caixa Econômica Federal. A organização do evento alegou descumprimento de contrato, mas o grupo considerou genérica a justificativa e está processando o Banco por danos morais. O Ministério Público Federal de Recife também ajuizou ação contra a Caixa em razão da censura.

O espetáculo infanto-juvenil é inspirado no “Livro dos Abraços”, de Eduardo Galeano, e conta a história de um local no qual abraços não são permitidos. O roteiro da peça é assinado por César Ferrario e a direção de Marcos França.

Além de Abrazo, também foram censuradas em 2019 “Gritos”, do grupo Dos à Deux, espetáculo que tem uma travesti entre seus personagens e vinha sendo apresentado em Brasília; Caranguejo Overdrive, da Aquela Cia de Teatrocancelado antes de ser apresentado no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, e Res Pública 2023, do coletivo A Motosserra Perfumada, vetada pelo diretor do Centro de Artes Cênicas da Funarte Roberto Alvim.

Ator potiguar foi agredido, sofreu ameaça e foi vítima de censura

Ator do monólogo foi agredido com pedrada, recebeu ameaças e foi vítima de censura (foto: Bruno Martins)

O outro espetáculo potiguar com presença confirmada no festival é “A Mulher Monstro”, da S.E.M cia de teatro. O monólogo é encenado pelo ator José Neto Barbosa e será apresentado em duas sessões, dias 18 e 19 de janeiro, no Centro Cultural da Diversidade. Barbosa chegou a ser agredido com uma pedrada em Pernambuco e foi vítima de ameaças em Natal. O espetáculo também foi vetado no espaço cultural de Curitiba.

O ator conta que após esses episódios, a peça passou a circular bem menos em festivais e mostras teatrais, com dificuldade de conseguir temporada em outras regiões brasileiras, além de outros cancelamentos em teatros já pautados.

As ameaças e as agressões, segundo Barbosa, estão diretamente relacionadas à onda bolsonarista no país. Desde que o atual presidente da República se candidatou ao Palácio do Planalto, a Cia. perdeu dois patrocínios no Rio Grande do Norte. De acordo com a produção da peça, uma das empresas alegou que a foto de divulgação onde a personagem aparece com rosto pintado de verde e amarelo de forma irônica ia contra a ideologia dos clientes que votariam no atual presidente.

“Somos constantemente ofendidos nas redes sociais com graves ameaças de radicalistas. Mas, esses não serão jamais motivos para desistirmos. Relembramos uma declaração da atriz Carrie Fischer: pegue seu coração partido em transforme em arte. Vivemos o início de mais um processo ditatorial com novas vestimentas e os mesmos comportamentos e devemos estar atentos e fortes. O objetivo do espetáculo é que as pessoas se enxerguem na personagem, com a bivalência de ser humano e monstro. Que as pessoas possam repensar suas atitudes, as palavras que usam no cotidiano, num jantar de família, nas expressões da cultura popular, ou nas redes sociais. As palavras podem matar alguém por dentro. O espetáculo é um grito de socorro.” relata o ator.

O espetáculo “A Mulher Monstro” é uma colagem de declarações lamentáveis, polêmicas e verídicas. A construção do texto surge de opiniões das redes sociais, das ruas e das posturas de políticos e figuras públicas bolsonaristas. O espetáculo fala do desrespeito para além do preconceito, acerca das violências cotidianas e provoca gatilhos emocionais, onde a realidade é tão sarcástica ou mais cruel que a ficção apresentada. Prosseguindo da linguagem Drag Queen, o ator José Neto Barbosa trata a atualidade brasileira vivendo a figura de uma burguesa cis, falsa cristã, perseguida pela própria visão intolerante da sociedade.

Exposições e cinema

O festival Verão sem Censura também vai relembrar exposições e filmes censurados em 2019. O Centro Cultural São Paulo apresenta, entre os dias 17 e 31, uma exposição com cartazes de filmes censurados. A ideia é destacar a importância dos cartazes para preservar a memória do cinema brasileiro – em dezembro, cartazes foram retirados das paredes da sede e do site da Ancine. Na Biblioteca Mário de Andrade, é possível conferir a exposição “Banidos”, com obras do acervo de livros raros censuradas na história literária. A abertura, no dia 17, conta com bate-papo com Ignácio de Loyola Brandão, romancista brasileiro autor de obras que foram censuradas na época da ditadura, e Laura Mattos, autora do recente Herói mutilado: Roque Santeiro e os bastidores da censura à TV na ditadura.

 No CCSP, é exibido o premiado “A Vida Invisível”. O longa-metragem de Karim Aïnouz seria exibido para os servidores da Ancine em dezembro, mas foi vetado pela direção do órgão, do qual o filme também teve os seus cartazes removidos das paredes. A sessão acontece dia 19, na Sala Lima Barreto.
O espaço também apresenta uma Sessão de curtas LGBT, no dia 18. No dia 19, são exibidos os filmes “Bixa Travesty” e “Corpo Elétrico”, além de uma sessão de médias-metragens.

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Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"