Atrizes de Bacurau contam vivências nordestinas e preconceitos retratados no filme
Natal, RN 26 de mai 2024

Atrizes de Bacurau contam vivências nordestinas e preconceitos retratados no filme

10 de março de 2020
Atrizes de Bacurau contam vivências nordestinas e preconceitos retratados no filme

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Identidade nordestina é uma característica central de Bacurau, filme nacional, lançado em 2019, com direção de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Pertencimento é o sentimento relatado por quem entra em uma sala de cinema e vê estradas e paisagens familiares, uma água ster bom e uma realidade de descaso reforçada a cada dia pelo poder público.

Nesta segunda-feira, dentro da programação da Semana de Comunicação da UFRN, as atrizes Danny Barbosa e Jamila Facury, parte do elenco do premiado longa no Festival de Cannes, participaram da mesa "Bacurau é resistência: Se for vá na paz", onde relataram experiências na vida, na arte e na realidade que o filme retrata. O momento com as atrizes lotou o auditório em que o evento se realizou. Estudantes, professores e diretores de centros da UFRN estiveram presentes.

Mulher trans, negra e paraibana, no filme, Danny Barbosa interpreta Darlene, uma espécie de informante da cidade. É ela quem avisa para os moradores que estrangeiros adentraram em Bacurau. Danny é professora e atua nas artes cênicas desde 2001, mas só virou de fato Danny em 2005. Como toda trans e toda negra, diversas violências estiveram presentes em sua trajetória, mas a resistência se sobressai.

Cena do filme protagonizada por Danny Barbosa.

"Como pessoa trans, negra e paraibana, resistir é um verbo que me acompanha desde cedo. Quando uma pessoa com todas essas características e qualidades consegue chegar numa grande tela de cinema vista sob os olhos do mundo todo, é simplesmente dizer para os nossos que nós estamos resistindo. É materializar a palavra resistência. Seria muito aceitável me ver numa esquina oferecendo prazer, me prostituindo, do que me ver trabalhando, num cinema, numa universidade, como artista e professora. Eu estou resistindo quando acordo e consigo chegar inteira até minha sala de aula", desabafa Danny.

A jornada de Danny no audiovisual começou quando ela estreou no cinema com "Hosana nas Alturas", de Eduardo Varandas, em 2017. Depois a atriz participou de "Sol, Alegra", de Tavinho Teixeira, em 2018, e "O Seu Amor de Volta - Mesmo Que Ele Não Queira", de Betrand Lira, em 2019.

"Quando me convidaram para fazer parte de Bacurau, eu não sabia que o filme também ajudaria a levantar bandeiras que são minhas. Como professora eu vejo também que o filme fala de educação, tanto a formal, quanto a social e política, porque a produção retrata o descaso com a escola pública, a marginalização da população, validada pelo poder público, e uma união popular para cessar esse extermínio que aquelas pessoas viviam", contou a atriz.

Jamila Facury interpreta Sandra em Bacurau, uma jovem prostituta da cidade fora do mapa. Estudante de Teatro desde os 15 e formada em Teatro pela UFPB, Jamila é uma artista multifuncional que já desempenhou diversas funções como maquiadora, figurinista e cantora. Sua paixão pela produção artística é tão grande quanto a dificuldade que a atriz relata viver trabalhando com arte no Brasil.

"Nunca pensei que em algum momento da minha vida eu estaria em situações de ser convidada para falar, dar entrevista, comentar sobre diversas coisas. A luta para lidar com a carreira artística nunca foi fácil, sobreviver de arte no Brasil é cada vez mais difícil, às vezes a gente quer colocar um espetáculo pra rodar e não tem condições de bancar nenhuma das suas vontades. A gente se desgasta muito pra conseguir realizar algo e manifestar sua arte. Pessoalmente, a resistência nasce na gente, enquanto mulheres e artistas estamos sempre cavando caminhos que não são pensados pra nós", relata Jamila.

Gravado em Parelhas, interior do Rio Grande do Norte, Bacurau foi um dos poucos filmes nacionais que teve estreias e exibições ao ar livre e gratuitamente, reforçando o acesso democrático à cultura em cidades pequenas como o município de gravação.

Reconhecimento de Oscar 

Na última sexta-feira (06) o filme estreou nos Estados Unidos e foi assistido e elogiado por Bong Joon-Ho, diretor do filme vencedor do Oscar, Parasita. De acordo com a BBC o coreano não foi um convidado especial para a sessão, comprou ingresso como qualquer outro espectador e comentou:

"É muito bonito. Tem uma energia única, traz uma força enigmática e primitiva. Eu espero que o governo brasileiro apoie mais a indústria de cinema brasileira e seus incríveis cineastas, como Kleber Mendonça e Juliano Dornelles. A indústria cinematográfica é arriscada e precisa de segurança e estabilidade". 

Semana de Comunicação da UFRN 

Unindo estudantes dos cursos de Publicidade e Propaganda, Jornalismo e Audiovisual, a semana de Comunicação da UFRN começou nesta segunda-feira (9) e segue até 13 de março com uma vasta programação voltada para a valorização do papel da mulher na sociedade. Com o tema “Mulher, mídia e resistência: discussões contemporâneas interdisciplinares”, a semana inclui debates, palestras, exibições de filmes e oficinas.

O evento também homenageia a ex-vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco. O assassinato da parlamentar completa dois anos no próximo dia 14 e continua sem resoluções.

"Esse tema não é a toa, faz homenagem ao dia de luta pelos direitos da mulher e também busca alertar sobre esse momento inquietante que vivemos no Brasil, com um Presidente Misógino que profere ataques a democracia e ao jornalismo. Também não podemos deixar de relembrar os dois anos do assassinato cruel de Marielle, a quem também homenageamos pela toda força e representatividade dela. Diante de tudo isso, resistimos", disse a chefe do Departamento de Comunicação da UFRN, Lívia Cirne.

Toda a programação do evento pode ser acessada aqui.

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