Eleição de Biden nos EUA aumenta pressão sobre política ambiental do Brasil, avaliam especialistas da UFRN
Natal, RN 21 de abr 2024

Eleição de Biden nos EUA aumenta pressão sobre política ambiental do Brasil, avaliam especialistas da UFRN

8 de novembro de 2020
Eleição de Biden nos EUA aumenta pressão sobre política ambiental do Brasil, avaliam especialistas da UFRN

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O mundo inteiro está atento às eleições dos Estados Unidos. No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro assumiu uma postura arriscada ao fazer campanha para a reeleição de Donald Trump, não apenas porque a vitória foi do opositor democrata Joe Biden, mas também por romper um histórico de diplomacia que o país ostentava.

De acordo com avaliação do professor do Departamento de História da UFRN e especialista em História dos EUA e História das Relações Internacionais, Dr. Henrique Alonso Pereira, personalizar as relações internacionais não traz qualquer benefício a uma nação.

“As relações internacionais não são entre pessoas, são entre Estados. Bolsonaro tem uma posição favorável não a um país, mas a um candidato. Numa eleição apertada como essa, o resultado será a metade do país contra ele. Independente do que acontecesse, o Brasil já estaria em uma situação muito ruim. Nenhum grande país faz isso”, explica Henrique, lembrando que não é a primeira vez que o presidente comete esse tipo de erro.

Em 2019, Bolsonaro declarou apoio a Mauricio Macri na eleição da Argentina, ignorando também que a vitória da oposição poderia gerar atritos nas relações entre os dois países irmãos.

Macri chegou a pedir que Bolsonaro não o apoiasse e enviou carta por meio de chanceler repudiando declarações da família do presidente brasileiro a Alberto Fernandez, vencedor da eleição argentina.

Biden presidente e a crise do meio ambiente

Na opinião de especialistas, com a vitória de Biden, a pressão internacional deve aumentar diante da gestão ruim de Bolsonaro, principalmente na pasta do Meio Ambiente. Se o governo brasileiro mantiver a postura atual, deve sofrer perda de mercados e terá mais dificuldades de prospectar investimentos.

“Acordos comerciais podem ser dificultados. A pressão que já está havendo por causa da má gestão do governo pode crescer. Muitas grandes empresas e fundos já estão deixando de investir”, diz Alonso, ao salientar que a bolsa de valores não tem preferência partidária.

“O que interessa a eles é ganhar dinheiro e eles estão retirando dinheiro do Brasil, entre várias outras razões, por causa da má gestão ambiental”, destaca o professor apontando que o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, não é aceito pela comunidade internacional, assim como o ministro das Relações Exteriores, embaixador Ernesto Henrique Fraga Araújo.

Para o professor do departamento de Economia da UFRN, Dr. Thales Penha, com Biden no poder, o Brasil pode perder mercado no Agronegócio de algumas cadeias produtivas que tem os EUA como destino importante.

Ele pondera ao explicar que importamos mais trigo da Argentina e as exportações são mais volumosas para a União Europeia, deixando os EUA como o terceiro maior destino, atrás da Holanda, Reino Unido e Espanha.

“O Itamaraty teria que fazer uma mudança radical na sua atual política externa, bem como no Ministério do Meio Ambiente”, alerta. “Se a política do governo atual não se adaptar ao modelo dos democratas sofreremos maiores sanções devido à irresponsabilidade ambiental e também em relação a posições na ONU”, destaca Thales, referindo-se a episódios como a “afinidade” que o brasileiro declarou ter com o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, suspeito de ordenar o assassinato de um jornalista.

Thales aposta ainda que a eleição americana deve influenciar outras eleições:

“O reduto de apoio das posições do governo Bolsonaro vai diminuir, e então, perder novos acordos, como já estamos vendo o acordo com a União Europeia - Mercosul naufragar”.

Em outubro, em meio à repercussão das queimadas de florestas na Amazônia e no Pantanal, o Parlamento Europeu sinalizou que a ratificação do acordo comercial entre União Europeia e Mercosul está sob risco devido à política ambiental dos países do bloco sul-americano, numa mensagem direcionada principalmente ao Brasil.

Em 2019, os países da União Europeia importaram juntos 119,3 bilhões de euros em alimentos e produtos agrícolas. Desse total, os Estados Unidos foram o maior fornecedor (11,8 bilhões de euros), seguidos pelo Brasil (11,6 bilhões de euros), que exporta itens como soja em grão e farelo, carne bovina, milho e café.

Rio Grande do Norte

As opiniões se dividem quanto a eventuais interferências do pleito americano no Nordeste e no Rio Grande do Norte. Para o economista Economia Thales Penha, a cadeia de frutas pode ter dificuldades na expansão do mercado. “O Biden pode endurecer as normas sanitárias e ambientais, e o desastre ambiental que o Brasil vive pode gerar um fechamento de fronteira para o setor do agro”, explica.

O historiador Henrique Alonso Pereira demonstra certo otimismo, já que o Nordeste representa em certa medida resistência ao Governo Bolsonaro:

“Se as pesquisas destas eleições municipais se confirmarem, a maioria das Prefeituras, especialmente das capitais, será contrária a Bolsonaro. A eleição do Biden e uma onda de lideranças eleitas contrárias a Bolsonaro, de alguma forma indicam uma mudança em várias questões importantes que envolvem a democracia”, ressalta o historiador.

Efeito Trump no Brasil

Bolsonaro e Donald Trump compartilham de valores antidemocráticos e o chefe do Executivo brasileiro tem visível idolatria pelo político americano. Com Trump presidente dos Estados Unidos, o Brasil assume postura de subserviência, cedendo em parcerias comerciais, aponta Henrique Alonso, chamando atenção também para a tensão que esses dois países criam com a China.

“O maior parceiro comercial do Brasil é a China, não são os Estados Unidos. O que interessa é que nosso país tenha os seus interesses preservados. A gente tá numa pandemia e quer uma vacina efetiva. Vai comprar briga com grandes potências do mundo, as com poder econômico e militar por causa da eleição de Trump?”, questiona o historiador.

Na visão do economista Thales, os chineses são “pragmáticos” e não tomariam a iniciativa de comprar uma briga com o Brasil, mas diante das declarações do presidente brasileiro já estão buscando alternativas à dependência comercial do Brasil, com investimentos fortes na África e na Ásia. “Se o Brasil continuar com essa relação de embate, os chineses podem acelerar esse processo”, conclui.

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