Se é pra tombar, que seja como Deise!
Natal, RN 25 de jul 2024

Se é pra tombar, que seja como Deise!

8 de dezembro de 2020
Se é pra tombar, que seja como Deise!

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Encher a cú de cana, comer água, beber até chamar urubu de meu louro, chutar o pau da barraca ganharam outro significado nesse final de 2020, depois que a Deise tombou cambaleante e plena na casa de uma senhora com câncer que, dias depois, conseguiu R$ 60 mil para o seu tratamento a partir da campanha feita por aquela ébria e feliz alma.

Longe de mim incentivar a dependência química do álcool, mesmo que o Brasil atual nos dê, diariamente, milhares de motivos para tomar umas e outras sem pensar no amanhã. Mas temos de admitir que, neste caso, Deise caiu pra cima e ainda soube usar uma situação que poderia ser delicada para fazer o bem. Não foi à toa que o tombo de Deise provocou uma intensa identificação e conquistou todo o público boêmio e nem tão boêmio assim desse país (e quiçá do mundo). No entanto, fato é que nem todas as vezes que perdemos a caixa preta terminamos tão bem quanto ela.

Minha reação ao ver o vídeo pela primeira vez foi lembrar imediatamente de alguns dos meus porres homéricos. Quer dizer, lembrar propriamente não, né? Só fez reacender em mim o receio que sempre tive de que alguém recuperasse de repente as informações contidas na caixa preta perdida naquelas situações. E se ter um amigo sóbrio para contar a história já me dava pânico, avalie ter um amigo sóbrio (ou um desconhecido mesmo) que filmasse o vexame e publicasse na internet?

Confesso que cheguei a procurar no google, no dia seguinte de alguns desses episódios, alguma manchete do tipo: Mulher bêbada sobe em cima da mesa e tira a roupa no bar. Não que isso tenha realmente acontecido comigo. Ou já? Seja como for, nunca apareceram registros desse tipo, graças aos santos protetores dos bebuns. Só que aos poucos a memória vem em cenas um pouco embaçadas, como peças de um quebra-cabeças, que vai sendo montado pelos flashbacks que provocam nossa ressaca moral juntamente com relatos desencontrados dos companheiros de copo.

E foi recentemente que amanheci com essa sensação de amnésia alcoólica causada por uma noite de prova de vinhos, bebida que não tenho o menor costume (ou classe) para tomar. "Gente, bom dia. Uma pergunta: como vim parar em casa?" - perguntei no grupo de whatsapp. "Mó ressaca! Moral também? Não sei...Alguém por favor me conta no privado," pedi, envergonhada. E acrescentei: "só mais um detalhe: onde tá meu vestido?" - o que, é claro, foi um prato cheio para a imaginação dos amigos sacanas que passaram a inventar as mais loucas histórias para a perda do vestido, encontrado horas depois no chão do meu banheiro, logo após ter me certificado com uma amiga que cheguei em casa sã e salva e não fiz nenhuma bobagem.

O arrependimento só não foi maior do que no dia em que parei de amamentar e fui sair pra beber com uma amiga do trabalho pela primeira vez desde o início da gravidez. Era casada ainda com o pai da minha filha. Na época, ela tinha 10 meses de idade e tinha parado de mamar. Foi quando ele me deu aquele "vale night", porque viu que eu tava precisando. O que eu não sabia era que minha amiga estava me levando para uma noite de tequila dobrada.

Embalada pela música e pelo ritual de chupar limão, lamber o sal, e virar os copos de José Cuervo, fui me entorpecendo e, já ausente de mim, acabei passando muito mal no meio do dancing mesmo. Minha amiga disse que me levou pro banheiro e tentou me limpar, mas não tinha papel nem água no banheiro. Foi então que ela teve uma ideia genial: me limpou com minha própria calcinha e depois jogou fora, me deixando apenas com o vestido, naquela minha primeira saída pós maternidade. Ela e o marido foram me deixar em casa, onde eu já não tinha certeza se poderia entrar. Fui recobrando certa consciência no caminho, o que alimentou ainda mais minha culpa pelo que eu nem lembrava que tinha feito.

Ao chegar, avisaram ao meu então marido, pai da minha filha, para descer, que eu não estava em condições de subir sozinha. Ao avistá-lo na portaria do prédio, fui me desculpando da pior forma que uma pessoa embriagada pode fazer: tentando justificar o injustificável. Repetia apenas: "tô sem calcinha, mas juro que não aconteceu nada....", seguido da pergunta "Você ainda me aceita?" - ao que ele respondeu que sim, provavelmente por perceber que no estado em que eu me encontrava não era possível mesmo ter acontecido qualquer coisa.

Mesmo adepta da boemia, com forte preferência por desmoralizar a semana de vez em quando bebendo em plena segunda-feira, admito que meu fígado anda cansado de guerra e que a bebida ou a embriaguez não têm nada de glamouroso, e já me trouxe prejuízos mais do que benefícios. Outro dia mesmo o álcool ativou o meu modo carente e, eliminando a timidez, me encheu de coragem de partir pra cima de um cara maravilhoso, mas que certamente nunca mais vai pensar em nada comigo.

Não recordo dos detalhes, mas acho que ficamos trocando carícias debaixo da mesa, de um jeito bem canalha, enquanto eu imaginava que não tinha ninguém olhando. E porque ele conversava com os outros e não me beijava, eu acho que quis chamar atenção e me levantei de repente, como se estivesse chateada. No caminho do banheiro eu tombei! Com a mesma habilidade ninja de Deise, mais que depressa estava de pé, como se nada tivesse acontecido. Ao contrário dela, no entanto, perdi a oportunidade de ficar famosa, porque não deu tempo nem de alguém filmar.

Mas não escondo nem da minha filha que gosto da minha cervejinha, deixando claro que sei o mal que me faz, e tentando sempre, cada vez mais, me controlar. Não por conta de ninguém, nem pelo eterno julgamento moral desta sociedade hipócrita, que considera "muito macho" o homem que aguenta uma garrafa de cachaça, e tacha de "vagabunda" a mulher que exagera na dose de vodka ou da bebida que ela quiser. Apenas porque a vida tem me dado mais motivos para aproveitar a sobriedade do que para perder a caixa preta outra vez.

Portanto, nesse final de 20vixe, beba com moderação. E se for pra tombar, que seja como Deise!

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