DEMOCRACIA

Baixa participação eleitoral no Chile vai além do fim do voto obrigatório: “O neoliberalismo se expressa na despolitização”, explica cientista política

Esta reportagem foi elaborada pelo Coletivo ComunicaSul, com o patrocínio da Diálogos do Sul, Agência Carta Maior, jornal Hora do Povo, Apeoesp Sudoeste Centro, Intersindical, Sintrajufe-RS, Sinjusc, Sindicato dos Bancários do RN, Sicoob, Barão de Itararé, Agência Sindical e mais 136 pessoas que apoiaram individualmente esta cobertura colaborativa.

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Os chilenos vão às urnas no próximo domingo (21) na expectativa de tentar quebrar também uma marca indigesta. O Chile é um dos países da América Latina com menor participação popular eleitoral desde 2012, quando o Congresso aprovou o fim do voto obrigatório.

O percentual de comparecimento no Chile é menor do que os 56% dos eleitores que, em média, participam dos processos eleitorais nos países que também não obrigam os eleitores a votar.

No primeiro pleito após a nova regra, em 2016, apenas 36% da população foi às urnas escolher os governantes dos 346 municípios do país. Em números absolutos, 4,9 milhões pessoas participaram do processo eleitoral num universo de 14,1 milhões aptos a votar. Um ano depois, na eleição presidencial que elegeu Sebástian Piñera, 50% dos eleitores votaram em um dos candidatos que disputaram o 2º turno.

A título de comparação, o recorde de participação popular dos chilenos nas eleições presidenciais é de 87% em 1989, primeira eleição democrática após o fim da ditadura de Augusto Pinochet. Naquele ano, o advogado, jurista e ex-senador Patricio Aylwin foi eleito com 55,17% dos votos.

A cientista política venezuelana e professora da faculdade de Economia, Governo e Comunicação da Universidade Central do Chile Neida Colmenares Mejías explica que a baixa participação popular nas eleições chilenas têm mais relação com o modelo neoliberal de governo consolidado no Chile do que no fim do voto obrigatório:

– Não acho que a baixa participação popular nas eleições do Chile se explique unicamente pelo voto voluntário, mas por uma desconexão que há entre a cidadania e a elite política, o que vem desde antes. O neoliberalismo não é apenas uma expressão econômica nem apenas livre mercado. O neoliberalismo também tem uma expressão cultural e política na despolitização, na sociedade de consumo, na sociedade do individualismo, onde eu separo o bem comum do meu interesse individual. E não deveria interessar essa dissociação, do meu interesse individual para me libertar… eu não tenho que entrar em contradição com o bem comum, tenho que conversar com o bem comum”, analisa.

Para a cientista política da Universidad Central do Chile Neida Colmenares, neoliberalismo desmobiliza sociedade / foto: Alana Souza

“O neoliberalismo não é apenas uma expressão econômica nem apenas livre mercado. O neoliberalismo também tem uma expressão cultural e política na despolitização, na sociedade de consumo, na sociedade do individualismo, onde eu separo o bem comum do meu interesse individual”.

O neoliberalismo chileno como modelo de sucesso divulgado para a América Latina fracassou. O desemprego no país já atinge 8,4% da população economicamente ativa, a pobreza extrema cresceu e, de acordo com dados da Fundação Gente de la Calle, 16,4 mil pessoas já vivem em situação de rua, sendo 44,3% na região Metropolitana de Santiago.

– Há um documento das Nações Unidas que eu gostaria de recomendar e se chama “Auditoría a la democracia: Antes del estallido” (auditoria da democracia: antes da eclosão), uma compilação de toda a cultura política do Chile. É interessante porque quando se analisa a participação eleitoral tem que ver que o discurso da elite vai para um lado e há uma outra realidade. Veja que 75% dos senadores, ministros, integrantes do governo do Chile vêm de 15 colégios da região metropolitana. Então há uma elite, efetivamente um círculo de privilégios, com famílias políticas. Creio que isso renderá muita desconexão de muita gente com a política, com o governo”, destacou.

Até as revoltas populares que sacudiram o Chile em 2019, os jovens estavam no grupo de eleitores que menos se interessava pelas eleições. Quando Piñera foi eleito, apenas 35% dos cidadãos entre 18 e 24 anos foram às urnas, enquanto 36% dos jovens eleitores entre 25 e 34 anos saíram de casa para votar no inquilino do Palácio La Monera.

“Quando se analisa a participação eleitoral tem que ver que o discurso da elite vai para um lado e há uma outra realidade”

Neida Colmenares estima maior participação popular no domingo, 21 / foto: Alana Souza

A situação começou a mudar ainda que de forma tímida na convenção de 2020 que autorizou a elaboração de uma nova Constituição no país em substituição ao texto em vigor desde 1980, ainda durante a ditadura de Pinochet. Ano passado, ainda sob o calor do levante popular de 2019, 51% dos chilenos se posicionaram sobre o plebiscito, com 78,3% votando a favor e 21,7% optando pelo rechaço à mudança.

Para a cientista política Neida Colmenares Mejías, após o levante popular de dois anos atrás, a expectativa é por uma maior participação popular nas eleições presidenciais que tende a se polarizar entre o candidato da extrema-direita José Antônio Kast e o representante da frente ampla de centro-esquerda Gabriel Boric:

– Acho que a eleição do próximo domingo pode manter uma participação eleitoral alta e é possível uma maior participação no 2º turno. Temos que ver como vai se comportar, até porque a campanha esse ano se dá sobretudo pelas redes sociais, ou seja, é uma campanha diferente. Temos que observar o fenômeno, mas acho que sim, vai aumentar a participação eleitoral. Na segundo turno haverá ainda mais tempo para analisar a trajetória dos candidatos. Os jovens estão mais motivados e estão participando mais da política, o que não quer dizer que vão votar no domingo. Vamos ver”, disse.

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Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"