Uma mulher espiritual em uma jornada humana
Natal, RN 30 de mai 2024

Uma mulher espiritual em uma jornada humana

28 de janeiro de 2022
9min
Uma mulher espiritual em uma jornada humana

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Soube que a pastora Ludmila Ferber morreu ontem, após lutar contra um câncer diagnosticado em 2018. Conheço-a pouco. Infelizmente nunca me interessei em saber mais sobre ela, talvez porque eu me concentre muito na literatura, sobrando pouco interesse para outras manifestações culturais.

Não me recordo do ano em que ouvi pela primeira vez a canção “Os sonhos de Deus”*. Lembro apenas de me sentir tocada pela letra e pela voz da intérprete. “Deus está restaurando os teus sonhos...” eu a ouvia cantar enquanto os meus sonhos se liquefaziam sob o peso da realidade. “Recebe a cura, recebe a unção...” chegava aos meus ouvidos, enquanto um câncer de mama ameaçava minha vida e matava uma grande amiga. A existência incluía experiências profundamente dolorosas, mas Ludmila nos inspirava a seguir em frente.

Quatro anos depois de ser curada daquele câncer e já recobrada da mastectomia que havia tirado o meu seio esquerdo, um acidente de carro levou as vidas de dois sobrinhos adolescentes. O Pedro tinha apenas 14 anos e o Netinho, 16, naquele fatídico agosto de 2015. Os versos, “Não desista, não pare de lutar...” pareciam ter sido escritos para pessoas como eu: no limite das suas forças.

Deus esteve presente na minha vida desde a infância, já que venho de família evangélica. Meus pais são protestantes, assim como meus avós, tios, primos e quase todos os que eu conhecia quando criança. O todo poderoso era bom e se importava comigo, segundo mamãe. Como retribuição, eu deveria ser uma garotinha comportada, nunca reclamar ou chorar por “bobagens”.  Isso poderia chatear o Cristo maravilhoso que deu tudo por mim, sacrificando a própria vida.

Segui por esse caminho de obediência, recato e adoração até a adolescência quando a sexualidade tirou o foco da minha santidade. Os rapazes me provocavam desejo, principalmente se os beijasse. Mas a castidade era um imperativo, motivo pelo qual passei a me sentir uma fraude como cristã. Fazer Psicologia só piorou as coisas. Na faculdade aprendi que meu desejo era normal e não havia pecado em satisfazê-lo. Como a pessoa moderna que me tornei, passei a ter relações com o meu namorado, mas, de maneira inconsciente, fiz um pacto com a candura, nunca me permitindo chegar ao orgasmo. Era frustrante, ao mesmo tempo, eficiente. As coisas poderiam ter dado muito errado, mas não desistimos um do outro. Casamo-nos e minha cabeça pôde destravar o interdito, levando-me ao primeiro, de muitos gozos na noite de núpcias. Que maravilha!

Anos depois eu já vivia um certo isolamento dentro da igreja que frequentava. Um distanciamento causado pela diferença entre as minhas ideias manifestas sobre o evangelho e o que era pregado lá. Continuei a frequentá-la, embora as leituras sobre Filosofia e Sociologia promovessem insatisfações que eu, ingenuamente, teimava em externar. Foram anos difíceis de culpa, sensação de inadequação e revolta. Afinal de contas, por que meu marido deveria ser o líder espiritual da nossa casa, se ele sequer se interessava por isso? Porque eu deveria me considerar “ajudadora” dele, quando em alguns aspectos eu é quem detinha o conhecimento da questão? Por que meus filhos adolescentes não podiam se masturbar? Por que adultos jovens não poderiam se relacionar sexualmente com seus amores? Qual o problema da homoafetividade? Por que a igreja se preocupava muito mais com a ampliação do templo, do que com projetos sociais relevantes? Por que mulheres não podiam ser pastoras? Se Deus realmente se concentrava tanto em tolher as liberdades individuais, enquanto a humanidade sofria com a violência, com a fome e com as injustiças, eu não gostava dele, pior, eu não cria na sua existência. Não havia jeito de respeitar um Deus tão medíocre e egoísta. Ele é que era uma fraude.

“Se tentaram matar os teus sonhos, sufocando o teu coração, se lançaram você numa cova e ferido perdeu a visão...” era o retrato da minha situação à época. Resolvi a questão tornando-me uma cética. Por anos fui aos cultos, participei das festas, retiros e projetos sem permitir que nada daquilo me tocasse. Aprendi a me proteger do julgamento de quem se incomodava com os meus questionamentos. Calei-me, pelo bem do meu esposo e filhos, fingindo concordar com tudo.

A farsa não durou, é claro. Meu sofrimento se tornou insuportável. Detestava ir para a igreja. Vivia triste e sem esperança. Em casa eu não orava, não ouvia músicas inspiradoras, não buscava Deus. Até que o César, esse companheiro incrível (o mesmo namorado com quem eu transava e não gozava, rs), me chamou para uma conversa franca. A igreja era boa e importante para ele, mas se eu estava infeliz, que nos mudássemos, tentássemos um lugar diferente, que acolhesse minhas questões e angústias. Aceitei, mas não acreditava que esse lugar existisse. Foi quando chegamos à Betesda.

Os sermões do pastor Mardes me deixaram pasma. Eram sofisticados e políticos e como durante toda a minha vida tive de escutar pastores que liam pouco e ainda assim teimavam em me ensinar coisas, me percebi em choque. Uma igreja progressista e inclusiva? Como assim?

Comecei a pesquisar sobre a Betesda. Conheci sua história e as profundas mudanças que os líderes corajosamente realizaram a um custo muito alto: a perda de fiéis parecidos com os que eu mesma havia deixado para trás. Admirei aquelas pessoas. Imaginei o quanto foi difícil viver a revolução interna que fez da Betesda um espaço sensível à diversidade, disposta a debater questões controversas da doutrina e a combater a vulnerabilidade social que tantos coloca em situação de pobreza extrema no país. Lembrei-me de Freud, o pai da psicanálise. De como ele foi cobrado por fazer o que era natural e inevitável: mudar, como fruto do amadurecimento.

Um dia eu estava na área de serviço colocando roupa suja na máquina de lavar quando comecei a ouvir essa música incrível. Vinha da casa dos fundos, onde novos vizinhos acabavam de se mudar. “Recebe a cura, recebe a unção; unção de ousadia, unção de conquista; unção de multiplicação”. Continuei a colocar roupas na máquina, como se nada de extraordinário estivesse acontecendo, mas por dentro, eu me emocionava.    Àquelas alturas eu já escrevia crônicas, questionando posições doutrinárias que contribuíam para a alienação, o preconceito, a exclusão, a violência doméstica e a injustiça social. Eu as publicava no Facebook e algumas tiveram muitos compartilhamentos e curtidas. Lembro de uma sobre Jean Willys, “Quem eu era antes de Jean Willys”, que gerou 258 compartilhamentos. Um sucesso para o meu pequeno e provinciano mundo. Os conhecidos se chocavam, me pediam explicações sobre aquela insubordinação, mas os verdadeiros amigos nunca se afastaram de mim, mesmo eu tendo ido para outra igreja.

Hoje frequento a Betesda Natal sob a liderança do pastor Adriano e da esposa dele, Vivi. Pessoas éticas, sinceras que nunca tentaram calar minha voz, entendendo minha inquietude, acolhendo o meu jeito peculiar de ser crente e apoiando minha família na árdua caminhada do existir.

Fotografia: Kelly Santos

“Ousadia, conquista, multiplicação!”. Perdi a vergonha de dizer o que penso e encontrei meu lugar como cristã. Um lugar inquieto, não conformista, definitivamente questionador. Minha literatura também se libertou. Os meus dois primeiros livros, ainda sob a influência da igreja que eu frequentava, falavam sobre o único assunto que considerava adequado escrever: o evangelho. Os outros sete, são romances, contos e crônicas e não há nada de religioso neles. Sou uma mulher religiosa que não escreve apenas sobre religiosidade. “Um ser espiritual em uma jornada humana”, como bem afirmou o jesuíta Pierre Chardin.

Desde a morte dos meus sobrinhos minha relação com Deus mudou. Nunca poderei me afastar Dele, hoje eu sei. Mas a morte desses amados me fez desacreditar em milagres. Acho que Deus é bom, mas tenho certeza de que Ele espera que façamos todo o trabalho. Aceito isso com lucidez e sem mágoas. Um livro que me ajudou a esse respeito, emprestado pelo pastor Adriano foi “Porque coisas ruins acontecem a pessoas boas”, do rabino Harold S. Kushner. Indico-o às pessoas enlutadas. Depois desse livro, consegui assimilar melhor a perda terrível da qual nunca me recuperarei completamente. Aliás, nem eu, nem minha família. Porque o crente não é essa pessoa que supera tudo, como querem fazer crer os falsos profetas.

Como eu disse, sei pouco sobre a Ludmila, mas essa música me acompanha há muitos anos e sou grata a ela por tê-la escrito. Pablo Neruda disse uma vez que, após escrever um poema, este já não lhe pertencia. Era de quem precisasse. Então essa música também é minha porque retrata minha dor e meu renascimento para a fé.

Vá em paz querida Ludmila. Deus, certamente, já te acolheu. Amo suas calças rasgadas que tanto incomodaram os crentes conservadores, sabe por quê? Elas combinam com o meu coração esfarrapado. Sim, o meu coração foi puído pelo sofrimento, mas nunca esteve tão livre.

Ana Cláudia Trigueiro

*“Os sonhos de Deus” é uma composição de Ludmila Murias Ferber

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