Militante negra potiguar fala sobre assassinato de congolês: “Não há como desassociar esta barbárie ao crime de racismo”
Natal, RN 23 de jul 2024

Militante negra potiguar fala sobre assassinato de congolês: “Não há como desassociar esta barbárie ao crime de racismo”

2 de fevereiro de 2022
3min
Militante negra potiguar fala sobre assassinato de congolês: “Não há como desassociar esta barbárie ao crime de racismo”

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Em todo o Brasil militantes negros e negras se posicionaram sobre o assassinato do congolês Moïse Kabagambe, morto por espancamento por cinco homens no dia 24 de janeiro em um quiosque na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, quando tentou cobrar duzentos reais que o dono do estabelecimento estava lhe devendo.

Em Natal, a escritora, jornalista e militante dos direitos humanos e das pessoas pretas, Idyane França falou à reportagem do Saiba Mais sobre o caso que chocou o Brasil, ou pelo menos parte dele. “Trata-se de mais um retrato explicito do processo de desumanização de mulheres e homens pretos. Não há como desassociar esta barbárie ao crime de racismo. Para nós, pessoas pretas, não há o espaço da defesa, não há o espaço da explicação; simplesmente tudo o que fazemos é motivo para malfeitoria, é motivo para sermos torturados e mortos. Não podemos encarar essa atrocidade que fizeram ao Moïse Kabagambe como simplesmente uma tragédia, porém temos que encarar como um crime hediondo”.

“Não queiram nos convencer que se fosse um jovem rapaz branco o tratamento seria o mesmo. Os números não deixam que se prove o contrário. Aliás, para essa sociedade estruturalmente racista, somos isso, apenas números. Desde que os primeiros negros pisaram nesse continente, neste país, que não foram tratados de outra forma, a não ser quantidade. Nunca nos viram como pessoas”, reflete Idyane.

Perguntada sobre como a opinião pública se posicionou sobre o assassinato, Idyane é incisiva: “Vi indignação e comoção maior pelo cachorrinho assassinado no Carrefour. Deixo aqui em evidência, que também fiquei indignada e comovida pela morte desse ser. Mas me atravessa a alma perceber que a vida de meu povo para essa sociedade tem menos valia que a de um cachorrinho. Nossas vidas de nada valem, nem mesmo são dignas de empatia, quanto mais merecedoras de indignação ou comoção”.

RIO GRANDE DO NORTE

A escritora assinala que em diversas escalas, episódios semelhantes acontecem no Rio Grande do Norte. “Sim, aqui sem sobra de dúvida, acontece isso como em qualquer lugar desse país. Não podemos esquecer o caso que aconteceu há quase 5 meses, em 11 de setembro de 2021 para sermos mais exatos, no município de Portalegre, aqui no estado. Em que, o jovem Luciano Simplício, de 23 anos, quilombola, foi amarrado e torturado por um criminoso, que tinha como profissão comerciante. Que poderia ter tido sua vida ceifada como a de Moïse, como a de João Alberto, entre tantos outros, que são subnotificados”.

E que a militância negra vem fazendo para denunciar e punir esses casos? Idyane responde: A militância negra, o ativismo negro, não descansam. Há construções de pautas, de ações, de atos, para que denunciemos as violências diárias, para que possamos ter uma rede de apoio. As batalhas são inúmeras, principalmente na desconstrução da subjetividade coletiva que tudo que provém do negro é ruim. Mas tudo isso é cansativo, muitos dos nossos estão sofrendo de doenças mentais, estão em processos cruéis de ansiedade, depressão, entre outras. É doloroso falar todo dia o obvio, é doloroso perceber que mesmo diante de tantas lutas, ainda somos o alvo. Basta!”

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